10 de dezembro de 2019
GOIÂNIA-GO
{{tempo.temperatura}}°

coluna Econômica

China “troca” a soja em grão pela importação de carne suína e de frango

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 10 de dezembro de 2019
Em troca, vêm ampliando as importações de carnes, destacadamente no caso de suínos e aves| Foto: Divulgação

Em meio ao conflito comercial ainda não debelado envolvendo as duas maiores potências do globo e a incidência igualmente ainda não contida da febre suína africana nos mercados da região asiática, com impactos mais devastadores sobre o rebanho suíno chinês, há uma janela de oportunidades aberta para o Brasil neste momento, especialmente no setor de carnes, conforme sugere o especialista em planejamento estratégico do agronegócio Marcos Fava Neves.

Segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), os chineses reduziram fortemente as compras de soja em grão do Brasil, tendência não limitada ao mercado brasileiro, embora a redução venha ocorrendo em menor escala para o restante do mundo. Em troca, vêm ampliando as importações de carnes, destacadamente no caso de suínos e aves. A mudança no perfil das exportações do agronegócio brasileiro para a China, ainda que determinada por questões conjunturais, favorece de certa forma o setor, quando analisado de forma agregada, já que as compras chinesas passam a privilegiar produtos com valor agregado mais alto do que a soja em grão (que, no entanto, continua a predominar na pauta das exportações brasileiras para o país asiático).

A commodity respondeu por 70,4% de tudo o que o agronegócio brasileiro vendeu para os chineses nos primeiros nove meses deste ano, o que se compara com uma fatia de 79,4% no acumulado entre janeiro e setembro do ano passado. A China foi o destino de pouco menos de um terço (31,9%) das vendas externas do setor, diante de uma participação de 36,2% em 2018, sempre no acumulado até setembro. A queda nos embarques para os portos chineses, por sinal, foi o fator principal por trás do recuo experimentado pelas exportações totais do agronegócio neste ano.

A peste suína reduziu o plantel chinês em 41%, adianta Fava Neves, com base em dados do Mapa. Relatório publicado em outubro pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), aponta ainda, estima que 6,692 milhões de suínos já teriam sido sacrificados nos países asiáticos, contaminados pela peste. O Rabobank projeta para este ano uma retração de 25% na produção de carne suína na China, onde os preços nos supermercados teriam experimentado alta de 84% em 12 meses.

“Isto criará inflação de preços e problemas a outros importadores de carnes no mundo, e para o Brasil uma oportunidade, traduzida em aumento do número de plantas brasileiras habilitadas, que pulou de 64 para quase 90, e nos volumes e preços de exportações. Temos de aproveitar e tomar medidas drásticas para que o problema não contamine a produção brasileira, que é o maior risco”, sustenta Fava Neves.

Em baixa

Nos nove meses encerrados em setembro passado, o setor exportou US$ 71,979 bilhões, respondendo por 43,0% das exportações brasileiras totais, mas em baixa de 5,7% em relação aos US$ 76,319 bilhões exportados em igual período de 2018 (num recuo de US$ 4,340 bilhões). As vendas para a China caíram de US$ 27,619 bilhões para US$ 22,932 bilhões, num tombo de praticamente 17,0% (quer dizer, encolheram US$ 4,687 bilhões). Os embarques de soja em grão despencaram 26,4%, saindo de US$ 21,941 bilhões para US$ 16,142 bilhões (ou seja, US$ 5,799 bilhões a menos), despenho afetado ainda pela redução de quase 12,0% nos preços médios de venda. Em volume, as exportações da soja brasileira para a China baixaram 16,4%, de pouco mais de 55,0 milhões para 46,0 milhões de toneladas (ou sejam 9,0 milhões de toneladas a menos). Em compensação, as compras de carnes pelos chineses cresceram muito acima da média observada nas vendas do setor para o restante do mercado mundial.

Balanço

·   As importações de carnes produzidas no Brasil pela China aumentaram em torno de 30% em valor e quase 20% em volume, nas estatísticas do Mapa. Sempre considerando os nove meses iniciais de cada ano, o País havia exportado aos chineses 676,12 mil toneladas de carnes em 2018, alcançando uma receita de US$ 1,892 bilhão.

·   Neste ano, o volume avançou para 810,04 mil toneladas, enquanto o valor exportado atingiu US$ 2,461 bilhões, representando em torno de 21,4% das exportações totais do setor (e 16,1% em volume). Os números indicam que os preços médios das carnes no mercado chinês foram quase um terço mais elevados do que média alcançada pelas exportações do setor em todo o mundo.

·   Em valor, as vendas brasileiras de carne de frango aumentaram 38,4% neste ano, pulando de US$ 604,06 milhões para US$ 835,97 milhões (16,3% do valor total exportado pelo setor). Em volume, o avanço foi de 21,3% (de 329,20 mil para 399,25 mil toneladas, o que correspondeu a 13,1% das vendas externas totais da indústria brasileira de frango).

·   Neste ano (sempre considerando o acumulado até setembro), a China passou a ser o destino de 30,4% de toda a carne suína embarcada pelo Brasil rumo ao mercado internacional, respondendo por 157,51 mil toneladas (significando alta de 33,1% frente a 118,36 mil toneladas exportadas no mesmo período de 2018, quando a participação havia sido de 25,7%).

·   Os embarques da carne suína brasileira para a China foram o grande destaque também quando analisados pelo tamanho da receita gerada. As exportações saltaram 56,3%, de US$ 231,51 milhões para US$ 361,77 milhões, passando a representar 33,6% das receitas totais.

Fava Neves, que também é professor da USP em Ribeirão Preto e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, destaca o aumento de 76% nas importações chinesas de suínos apenas em setembro, atingindo no total 166,0 mil toneladas (com o Brasil respondendo por 13,9% daquele volume). No mesmo mês, comparado a igual período de 2018, as compras chinesas de carne bovina cresceram 50% (para 150,0 mil toneladas) enquanto as importações de soja em grão caíram 13,5%. Entre janeiro e setembro, a China reduziu as compras de soja em 8%, para 64,5 milhões de toneladas de soja. 

Seja o primeiro a comentar

Fazer comentário

Acesse sua conta para comentar, é rápido e gratuito.

Inscreva-se na newsletter e receba

conteúdo exclusivo

Digite aqui o que deseja pesquisar