10 de dezembro de 2019
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coluna Econômica

Riscos e armadilhas para o País na integração a cadeias globais de valor

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 10 de dezembro de 2019
Coluna assinada pelo jornalista Lauro Veiga Filho.

O superministro da Economia, Paulo Guedes, sempre foi um operador do mercado financeiro, ocupado integralmente na gestão de ativos para multiplicar fortunas com jogadas nos mercados de juros, câmbio e de ações. Nunca foi um formulador de políticas ou um gestor de pessoas. Em seu liberalismo dos anos 1970, como bem anotou a economista Mônica de Bolle, diretora de estudos latino americanos e mercados emergentes da universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos,o ministro dos mercados que exterminar o Estado brasileiro, escancarar a economia e ainda integrar a economia brasileira (ou o que restar dela) às chamadas “cadeias globais de valor”, fazendo “40 anos em quatro”, conforme declarou,parafraseando Juscelino Kubitschek, durante o encontro de cúpula do Brics, realizado nos últimos dias em Brasília, quando se reuniram os chefes de Estado do Brasil, da Rússia, da Índia, da China e da África do Sul.

A depender dos caminhos escolhidos, essa integração apresenta riscos e armadilhas para o País, conforme tem alertado há tempos a economista Cristina Reis. Em seu currículo, Cristina carrega a formação em economia pela Universidade de São Paulo (USP), mestrado em economia da indústria e da tecnologia pela Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ) e doutorado em Cambridge, além de professora adjunta da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Inicialmente, é preciso deixar claro que o Brasil não faz parte dos centros mais dinâmicos da economia global e, bem ao contrário, compõe o que os economistas chamam de periferia desse sistema. Uma integração malconduzida poderia levar a economia brasileira a simplesmente ser engolida pelos países mais desenvolvidos, eternizando-se no papel de fornecedora de produtos naturais e matérias-primas e abortando assim as tentativas de diversificação e de introduzir maior complexidade em sua indústria. Uma abertura destemperada e unilateral, como vinha se tentando realizar a partir da brutal redução da tarifa externa comum praticada pelo Mercosul, seria desastrosa em vários sentidos, mas especialmente para a criação de tecnologia, para a inovação e a geração de empregos aqui dentro.

O conceito por trás da integração às “cadeias globais de valor” está em geral associado ao processo de redistribuição de estágios da produção de uma empresa entre vários países ou de terceirização dessas etapas para parceiros externos, na descrição de Cristina Reis. Esse debate esteve em voga na primeira metade da década, mas a falta de crescimento havia interrompido as discussões.O ministro dos mercados recoloca o debate, mas a discussão deveria ser mais qualificada, levando-se em consideração fatores estratégicos e os interesses maiores do País. “Conduzida estrategicamente, a maior participação do País nas cadeias globais de valor tem potencial para elevar a capacidade técnica produtiva e sofisticar a matriz industrial”, observa Cristina Reis.

Mas a inflação já caiu

Cristina lembra ainda, em entrevista recente, que uma das justificativas para a abertura do mercado brasileiro a bens e serviços importados, qual seja o barateamento desses produtos para o consumidor, parece nitidamente deslocada num momento em que a inflação caminha para completar o terceiro ano consecutivo abaixo do centro da meta inflacionária. Num outro tipo de formulação, o combate à inflação pode, atualmente, prescindir inteiramente de “ajuda externa”, vale dizer, da entrada de bens importados e mais baratos. O escancaramento do mercado, neste momento, traria mais distorções e problemas do que propriamente soluções para a economia brasileira e suas empresas.

Balanço

·   Entre armadilhas e riscos ao longo do caminho da pretendida integração, a economista observa: “Se um país se engajar nas cadeias globais apenas por meio de atividades que adicionam pouco valor, é provável que pouco contribua para o desenvolvimento econômico, ou até mesmo o prejudique, considerando seus impactos negativos em termos de dependência tecnológica, heterogeneidade estrutural (setor exportador com maior produtividade e salários do que os outros setores da economia), vulnerabilidade externa, consequências ambientais e sociais”, comenta a economista.

·   O ideal, prossegue ela, “seria que os governos almejassem que suas empresas participassem das cadeias de valor global seletivamente e com soberania, de acordo com os objetivos de desenvolvimento”.Vale lembrar que as cadeias lideradas por empresas transnacionais respondem por 80% dos fluxos internacionais de mercadorias e serviços e de investimentos estrangeiros diretos, o que dá uma ideia da dimensão do poder global dessas corporações.

·   Em sua tese de doutorado, Cristina Reis já havia defendido que o “aprofundamento tecnológico, seja através da melhoria da qualidade da tecnologia e dos produtos já existentes ou através da mudança de atividades pouco para muito intensivas em tecnologia, é importante para sustentar o crescimento das exportações”. Para que esse processo beneficie também setores não exportadores, num efeito de “transbordamento”, favorecendo a elevação da renda per capita e da produtividade em geral da economia, será preciso contar com “investimento e intensificação tecnológica”.

·   O engajamento impensado e sem uma clara estratégia de desenvolvimento pode levar a uma subordinação à lógica das grandes corporações que dominam o mercado global, produzindo resultados nocivos para o desenvolvimento futuro e para a preservação de um parque industrial complexo e diversificado.

·   Mas isolar-se também não parece ser uma alternativa promissora, lembra Cristina Reis. “Quando um país fica de fora dos segmentos de vanguarda da economia internacional, o isolamento pode redundar em atraso tecnológico e eventualmente perda de mercados. Não necessariamente queda de exportações, mas provavelmente deterioração nos termos de troca.”

Como os principais mercados do País são a China e os Estados Unidos, num comércio centrado em produtos primários, “seria básico, neste momento, retomar a integração comercial e produtiva na nossa própria região (maior importadora de manufaturas brasileiras), antes que percamos espaço para concorrentes como a China”, sustenta Cristina. 

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