18 de janeiro de 2020
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coluna Econômica

Mais de 80% das micro e pequenas empresas não conseguem pagar dívidas

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 18 de janeiro de 2020
"Principal desafio econômico do País é a aceleração e sustentação do crescimento, condição necessária para reduzir o desemprego e a pobreza", afirma Carlos Antonio Rocca

Os indicadores disponíveis até o momento sugerem um cenário de dificuldades persistentes para a maioria de micro e pequenas empresas, com discreta melhoria para as companhias de maior porte, o que chegou a estimular um avanço moderado do investimento no setor corporativo, considerando uma amostragem de 240 empresas de capital aberto (com exclusão das gigantes Petrobrás, Eletrobrás e Vale). O investimento das companhias com ações negociadas em Bolsa saiu de 2,16% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2018 para 2,65% no primeiro trimestre de 2019, recuando ligeiramente para 2,50% no trimestre seguinte, segundo o conjunto de dados mais recentes trabalhados pelo Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec), em parceria técnica e operacional com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe).

Aquele número havia sido pior, muito obviamente, atingindo apenas 1,10% no auge da recessão, em 2016. Mas mantém considerável distância dos 4,05% investidos em 2008, aproximando-se da taxa observada no começo da década passada – em 2010, o investimento das empresas de capital aberto havia correspondido a 2,61% do PIB. Nos últimos 10 anos, portanto, as empresas praticamente não saíram do lugar, quando se considera aquela relação. Em outro trabalho, também tomando como referência mais recente o segundo trimestre do ano passado, o Cemec aponta que 81,3% das pequenas e médias empresas não conseguem gerar caixa suficiente para pagar suas despesas financeiras, diante de um índice de 37,0% para as médias empresas e 17,5% das grandes empresas.

Adicionalmente, acrescenta o Cemec, como a taxa de investimento em todo o País continuava caindo até ali (e manteve-se baixa no terceiro trimestre), por exclusão, supõe-se que o incremento observado para as empresas de capital aberto expressaria muito mais uma realidade entre companhias de grande porte, com o restante das empresas reduzindo os investimentos – conclusão que se aplicaria igualmente ao conjunto das famílias.

Desafio

“O principal desafio econômico do País é a aceleração e sustentação do crescimento, condição necessária para reduzir o desemprego e a pobreza. O aumento da taxa de investimento privado é a chave para atingir esse objetivo. No cenário atual, o investimento público é limitado pela necessidade de ajuste fiscal, o espaço para ativar a demanda do consumo via crédito é restrito e várias condições externas adversas não ajudam as exportações. Nesse contexto, o investimento privado, condicionado também pelo ritmo que vier a ser dado na execução dos novos projetos de infraestrutura, é o principal determinante do crescimento nos próximos anos”, afirma a equipe do Cemec, liderada pelo economista Carlos Antonio Rocca.

Balanço

·   Em outros trabalhos, o Cemec chegou a identificar pelo menos dois fatores essenciais na tomada de decisões de investimento pelas empresas. Em primeiro lugar, observou-se que “os investimentos reagem de modo positivo quando a taxa de retorno do capital total investido (ROIC) supera o custo médio ponderado do capital (ROIC)”. Ou seja, quando o investimento permite que as empresas obtenham lucros maiores do que os custos que terão que enfrentar para financiar o mesmo investimento.

·   Por volta de meados da década passada, o custo médio do capital, influenciado pelas taxas de juros em vigor, girava ao redor de 11% a 13% ao ano, mas o retorno sobre o capital investido esteve sempre muito próximo ou acima de 15%, “pagando” com sobras todo o custo.

·   Esse cenário perdurou, com algumas exceções, até o final do período. Em 2010, o retorno havia alcançado 13,6% para um custo de 12,2%. Nos anos seguintes, a equação mudou de sinal e o custo passou sistematicamente a superar o retorno, desestimulando o investimento.

·   O retorno sobre o capital chegou a cair para 9,0% em 2017 diante de um custo médio ponderado de 11,6% ao ano para o dinheiro contratado pelas empresas para financiar o investimento. Naquele ano, o investimento chegou a 1,81% do PIB.

·   No ano seguinte, houve uma melhoria na taxa de retorno, que se elevou para 11,6%. Mas manteve-se ainda abaixo dos custos, que somaram 12,8%.

·   No segundo trimestre de 2019, a taxa de retorno havia perdido 1,2 pontos de porcentagem, recuando para 10,4%, diante de um custo médio ponderado de 11,8% para o capital contratado (recuo de 1,0 ponto de porcentagem). Houve uma ligeira deterioração, o que parece explicar igualmente o recuo do investimento (de 2,65% para 2,50% entre o primeiro e o segundo trimestres do ano passado).

O segundo fator identificado pelo Cemec está relacionado às expectativas de crescimento para os anos seguintes. Até então, as previsões apontavam avanço para a economia, mas a taxas ainda bastante modestas diante das demissões assumidas pela capacidade ociosa nas fábricas e pelo desemprego (situação que, em outras condições, poderia sancionar taxas mais ambiciosas de crescimento da economia, sem o risco de elevação das taxas de inflação). 

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