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Comportamento dos preços no final do ano mostra tendência de acomodação

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 02 de agosto de 2020
Tendência deve prevalecer em janeiro com redução nos preços das carnes e dos jogos de azar - Foto: Reprodução.

O ritmo de alta dos preços passou a registrar suave, mas firme desaceleração nas semanas finais de dezembro, conforme amplamente aguardado, sugerindo uma taxa de inflação ligeiramente menos pressionada do que a apresentada entre os últimos 15 dias de novembro e a primeira quinzena do mês seguinte. A tendência de acomodação deverá “invadir” janeiro, na exata medida de redução nas pressões exercidas pelos preços das carnes e dos jogos de azar, que chegaram a apresentar altas de 18,7% e de 37%, respectivamente, na medição pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) de dezembro (aferido entre os dias 12 de novembro a 11 de dezembro do ano passado). Os dois itens, conforme já divulgado, responderam por 59% na composição do índice geral apurado para aquele período.

A moderação na velocidade dos aumentos nos preços já podia ser observada nas medições semanais realizadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), responsável pelo cálculo e divulgação do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S). Na verdade, embora seja divulgado semanalmente, o índice reflete a variação dos preços em períodos de 30 dias, comparados aos preços médios coletados nas quatro semanas imediatamente anteriores, o que permite avaliar a tendência mais atual para a inflação.

O IPC-S havia saltado de -0,09% no final de outubro para 0,49% no encerramento de novembro, puxado pelos preços das carnes, dos jogos lotéricos e da energia elétrica. Neste último caso, seguindo a normalização do regime de chuvas e consequente recomposição dos reservatórios das usinas, a bandeira “vermelha”, com a imposição de uma taxa adicional de R$ 4,169 para cada 100 Kw de consumo, deixou de vigorar, abrindo espaço para quedas nas contas de luz.

Mas ainda persistiam os impactos da forte aceleração dos preços das carnes, liderada pela carne bovina, e dos jogos de azar. Essa combinação acabou elevando o IPC-S para 0,87% nos 30 dias encerrados em 15 de dezembro passado. Nos 30 dias de dezembro, no entanto, o IPC-S já havia recuado para 0,77% (ou seja, 0,10 pontos abaixo da taxa registrada duas semanas atrás). A tarifa da energia residencial, por exemplo, que havia subido 2,52% em novembro, recuou 3,43% nos 30 dias terminados em 22 de dezembro e passou a registrar queda de 5,32% em todo o mês de dezembro.

“Normalização”

Ainda em percentuais elevados, considerando-se a variação média de todos os preços na economia (e especialmente dos salários), os preços da carne bovina entraram em desaceleração, com a alta cedendo de 23,18% para 20,65% entre as quatro semanas terminadas respectivamente nos dias 22 e 30 de dezembro no caso do quilo docontrafilé; de 21,30% para 17,40% para o quilo da alcatra; e de 14,20% para 13,85% para a carne moída. A acomodação observada nos dados das exportações de carne bovina ao longo de dezembro reforça o cenário de “normalização” dos preços domésticos. Nas primeiras cinco semanas de dezembro, as vendas externas nesta área haviam experimentado baixa de 8,9% frente a novembro, na média diária apontada pelo Ministério da Economia.

Balanço

·   O número fechado para dezembro do IPCA, a ser divulgado pelo IBGE no próximo dia 10 de janeiro, uma sexta-feira, pode trazer “surpresas” mais favoráveis, o que tende a definir uma inflação próxima a 4,0% para todo o ano passado, índice ainda inferior ao centro da meta inflacionária de 4,25% estabelecida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para 2019.

·   O IPC-S da Fundação Getúlio Vargas (FGV) encerrou o ano em 4,11%, o que reforça a expectativa de uma inflação próxima a isso também para o IPCA.

·   A entidade divulgou também ontem sua pesquisa sobre os níveis da confiança empresarial em relação à situação atual e ao futuro próximo da economia, apontando alguma melhoria nos indicadores – o que tem sido percebido por comentaristas e pela imprensa em geral como a sinalização de uma retomada mais potente da atividade econômica.

·   Na verdade, trata-se de uma leitura bastante otimista dos números, para dizer o mínimo. O Índice da Situação Atual (ISA), que tenta aferir a visão das empresas entrevistadas em relação ao dia a dia da economia, saiu de 90,6 pontos em dezembro de 2018 para 94,5 pontos no mesmo mês do ano passado.

·   Já o Índice de Expectativas (IE) recuou ligeiramente entre os dois períodos, passando de 101,2 para 100,1 pontos, e sempre esteve à frente do ISA, movido aparentemente muito mais por um desejo de melhoras na economia do que por fatores mais concretos.

·   O Índice de Confiança (IC), que combina os dois indicadores anteriores, avançou de 95,9 para 97,1 pontos. Para entender o que esses números querem dizer, é preciso relembrar que, na escala definida pela FGV, índices acima de 100 pontos sinalizam otimismo em relação tanto à situação atual quanto à expectativa futura. Abaixo desse ponto, eles indicam pessimismo. Ao redor dos 100 pontos, sugerem um cenário neutro (nem otimista, nem pessimista).

·   Na série da FGV, aqueles indicadores não conseguiram mais superar a barreira dos 100 pontosdesde meados de 2013. O indicador de expectativa, de fato, esteve ligeiramente acima daquele nível entre o final de 2018 e o começo de 2019 e novamente em novembro e dezembro passados, indicando muito mais um cenário “neutro”. Parafraseando Cauby Peixoto, se a confiança subiu ninguém sabe ninguém viu (mas todos falam).

 

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