18 de janeiro de 2020
GOIÂNIA-GO
{{tempo.temperatura}}°

coluna Econômica

A degradação da qualidade do emprego, queda da exportação e da produtividade

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 18 de janeiro de 2020
Análises recentes apontam que há estreita correlação entre a crise na indústria com consequente retração da participação do Brasil no mercado global de bens manufaturados| Foto: Divulgação

Alguns indicadores têm sido fonte de preocupação e vêm alimentando o debate econômico sobre o futuro imediato e de longo prazo do País. Ainda que fundamental, essa discussão, no entanto, parece ocorrer longe das trincheiras firmadas pelo ultraliberalismo a partir de Brasília e à margem da política econômica adotada pelos atuais mandatários. Ao que sugerem análises e trabalhos recentes, parece haver estreita correlação entre a crise na indústria, gerada pelo ritmo aceleradoda desindustrialização, com consequente retração da participação do Brasil no mercado global de bens manufaturados; a deterioração do emprego e a tendência de queda na produtividade do trabalho, gerando um quadro de perda de substância e de dinamismo para a economia como um todo e uma incapacidade notória de atingir novos estágios de desenvolvimento, com maior sofisticação produtiva e incorporação de setores mais intensivos em tecnologia.

Nesta semana, utilizando dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostrou que a fatia do Brasil nas exportações de manufaturas em todo o mundo encolheu de 0,81% para 0,62% entre 2008 e 2018 (e deve ter caído um pouco mais em 2019 diante da queda de 11,1% registrada pelas vendas externas de bens manufaturados). O Brasil perdeu posições no setor porque suas exportações cresceram menos do que as de outras economias emergentes.

Enquanto China, Índia e México experimentaram taxas anuais de crescimento das exportações de manufaturados de 5,6%, 5,3% e 4,5%, pela ordem, as vendas externas brasileiras nesta área avançaram a um ritmo de anual de 1,9% ao ano entre 2008 e 2018. Problemas de competitividade e de produtividade, avalia o Iedi, estariam por trás desse retrocesso (assim como os anos de valorização do real frente ao dólar, tornando muito mais difícil para as empresas brasileiras competirem lá fora). A participação dos manufaturados na pauta brasileira de exportações, que havia sido de 44% em 2008, baixou para 34% em 2018 (e não parece ter saído do lugar no ano passado).

Incertezas

Na Carta do Ibre publicada na edição deste mês da revista Conjuntura Econômica, Luiz Guilherme Schymura, diretor doInstituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas(Ibre/FGV), sugere uma correlação entre informalidade, produtividade e o clima de incerteza política ainda em cena. A incerteza, no caso, tornaria o cenário econômico mais turvo, retardando as decisões de investimento das empresas e refreando as contratações formais, com carteira assinada e direitos assegurados, na visão do economista. Nesse processo, registra-se um adiamento no retorno da formalização do emprego para além do que sugerem as médias históricas. Em geral, a informalização do emprego veio sempre associada ao aumento do desemprego. Neste momento, o que se verifica é uma retomada modesta do emprego, mas movida pelas contratações informais, afetando negativamente a produtividade do trabalho (notoriamente mais reduzida no setor informal da economia, onde as ocupações não oferecem maiores possibilidades de crescimento para as famílias, de forma mais restrita, e dificultam uma retomada mais vigorosa, numa visão mais ampla).

Balanço

·   Schymura recorre a dados dos colegas de Ibre, Fernando Veloso e Silvia Matos, que comandam o Observatório de Produtividade, que mostram queda de 5% para a produtividade na indústria entre 1995 e 2018, com avanço de apenas 6% no setor de serviços ao longo de 23 anos e um salto de 358% para a agropecuária (o dado compara a evolução das horas trabalhadas e do volume produzido por trabalhador em cada setor de atividade).

·   Em 2019, a produtividade do trabalho sofreu baixas de 1,0%, 1,6% e de 0,7% no primeiro, segundo e terceiro trimestres, respectivamente, sinalizando outro ano de resultados negativos.

·   Na série mais recente, o setor de serviços, que concentra, de acordo com Schymura, 70% das horas trabalhadas no País, passou a registrar números negativos desde 2014. Considerando seu peso na economia, os serviços constituem “o principal fator na péssima trajetória da produtividade brasileira desde 1995”, ressalta ele, com destaque (negativo) para os segmentos de transportes e "outros serviços", que respondem por quase 52% das horas trabalhadas no setor.

·   A menor produtividade, nos dados frios, explica-se pelo fato de o emprego estar crescendo mais do que a economia como um todo, aponta Schymura. Ele cita o economista Fernando Veloso neste ponto: “a geração de emprego na economia brasileira já está próxima do período anterior à recessão de 2014-16, mas as horas a mais trabalhadas não se converteram em aumento expressivo da produção”.

·   Para Schymura, aquele comportamento explica-se pelo fato de “que os empregos que estão sendo criados situam-se, na média, em setores e atividades muito pouco produtivos”, na maioria localizados no lado informal da economia, onde os “empregos em média (são) quatro vezes menos produtivos do que os do setor formal”.

·   Não se trata, aqui, de um demérito para o trabalhador: simplesmente, os setores que têm permitido alguma forma de ocupação não poderiam ser mais produtivos do que já são. Mesmo se quisessem e se o momento econômico permitisse, seria muito complicado encontrar empregos “mais produtivos” – a forma como a economia brasileira tem se estruturado nas últimas décadas vem excluindo crescentemente setores com maior sofisticação produtiva, maior uso de tecnologias (que poderiam acelerar a produtividade) e maior diversificação.

 

Seja o primeiro a comentar

Fazer comentário

Acesse sua conta para comentar, é rápido e gratuito.

Inscreva-se na newsletter e receba

conteúdo exclusivo

Digite aqui o que deseja pesquisar