25 de fevereiro de 2020
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coluna Econômica

FGV antecipa perspectiva de nova queda do saldo comercial neste ano

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 25 de fevereiro de 2020
No ano passado, como se recorda, o saldo entre vendas e compras no exterior atingiu US$ 46,657 bilhões, caindo 19,6% frente a 2018| Foto: Divulgação

A tendência para 2020 de um superávit comercial (exportações menos importações) ainda mais baixo do que aquele verificado em 2019 não pode ser descartada, aponta o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) na edição mais recente de seu Indicador de Comércio Exterior (Icomex), divulgado na semana que passou. No ano passado, como se recorda, o saldo entre vendas e compras no exterior atingiu US$ 46,657 bilhões, caindo 19,6% frente a 2018, encerrado com superávit de US$ 58,033 bilhões, e atingindo o menor valor desde 2015 (ano em que a diferença entre exportações e importações havia sido de US$ 19,512 bilhões).

A possibilidade nada remota de uma redução adicional no superávit comercial, principal fonte de dólares para alimentar as reservas internacionais do País, reforça as preocupações, já expostas por alguns economistas e analistas econômicos, em relação à política de torra dos dólares que o Brasil decidiu “poupar” desde o início da década de 2000. As reservas tornaram-se, desde então, a principal arma para enfrentar turbulências na economia internacional e evitar que o País voltasse a sofrer com crises sequenciais de falta de dólar, a exemplo das décadas de 1980 e 1990, quando o crescimento, os empregos e o bem-estar das famílias foram sacrificados simplesmente porque não havia recursos em moeda forte para fazer frente a todas as despesas do Brasil no exterior.

Desde julho do ano passado, a equipe econômica parece ter decidido que, afinal, o Brasil não precisa tanto de dólares assim, considerando-se os custos de manutenção daquelas reservas. Assim, entre o final de junho do ano passado (mais precisamente desde o dia 25 daquele mês) e o último dia 17 de janeiro, já invadindo o ano novo, o BC torrou nada menos do que US$ 33,353 bilhões, fazendo as reservas internacionais baixarem de US$ 390,510 bilhões para US$ 357,157 bilhões (uma redução de 8,54%).

Nem tão aloprados...

Ninguém estará suficientemente ensandecido para achar que reservas desse tamanho, algo como 19,4% do Produto Interno Bruto (PIB), ainda não são um ativo importante. Evidentemente que sim. Os dólares “estocados” pelo País para fazer frente a períodos de crise ainda são suficientes para pagar toda a dívida externa bruta, que somava US$ 326,897 bilhões em novembro do ano passado (e vinha em queda nos meses anteriores). A questão é que a combinação de torra de reservas e retração no superávit comercial pode levar a situações complicadas, ainda mais se a equipe econômica continuar a insistir na liquidação dessas reservas. A premissa adotada pelo ministro dos mercados e sua turma, além do mais, parece essencialmente equivocada, especialmente num cenário de riscos externos que poderão ser ainda exacerbados pela atuação de um presidente instável e personalista, que já deu mostras de uma opção pelo isolacionismo na relação com outras nações (trata-se, aqui, do presidente Donald Trump e não de seu títere latino).

Balanço

·   Ao contrário do senso comum, como demonstram os dados do próprio Banco Central, as reservas internacionais trouxeram lucros para o BC nos últimos dois anos, mais do que compensando as perdas realizadas entre 2008 e 2017. Um ganho que ajudou mesmo a cobrir as perdas da autoridade monetária em suas operações no mercado do dólar aqui dentro.

·   De fato, entre 2008 e 2017, com os juros internos na lua, os custos de captação do BC (quer dizer, a taxa média paga pela autoridade monetária para levantar dinheiro no mercado, multiplicada pelo volume das reservas) chegaram à estratosfera e superaram a rentabilidade das reservas, corrigidas pelas taxas de juros internacionais, muito próximas de zero (ou entre 1% e 2% ao ano, no máximo) nos principais centros financeiros globais desde a crise de 2008/2009.

·   Naqueles 10 anos, o BC teve que administrar um prejuízo líquido de R$ 70,865 bilhões com a gestão das reservas (resultado já convertido em reais pelo próprio BC em sua nota da política fiscal referente a novembro. Em 2018 e 2019 (com dados até 20 de dezembro e ainda preliminares), o resultado trocou de sinal, passando a indicar um lucro somado de R$ 193,901 bilhões. Na soma final, entre 2008 e 2019, o BC teve um ganho líquido, já descontados os custos de captação, de R$ 123,036 bilhões.

·   As operações de “swap” cambial (troca de dólares por reais), ao contrário, impuseram perdas entre R$ 39,178 bilhões (no conceito de caixa) e R$ 40,746 bilhões (pelo critério de competência, que considera a data de vencimento das obrigações cambiais), igualmente entre 2008 e 2019.

·   A redução dos juros, portanto, alterou o cenário e deveria exigir outro tipo de política para as reservas internacionais, que passaram a dar lucros para o BC. A queima dessas reservas contribuiu, no ano passado, para conter o avanço da dívida bruta do governo central. Mas deve-se ponderar se vale a pena sacrificar um “seguro” contra crises num mundo em turbulência apenas para obter reduções pontuais no endividamento do setor público.

 

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