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Dívida externa de curto prazo bate recorde e se aproxima de US$ 80 bi

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 13 de julho de 2020
Na comparação com 2018, registrou-se avanço de 19,6% e, nos últimos dois anos, os dados da instituição apontam um salto de 55,86% – um avanço liderado principalmente pelo setor financeiro| Foto: Divulgação

A dívida externa de curto prazo do Brasil, com vencimento em 12 meses, atingiu U$ 79,935 bilhões em dezembro do ano passado, valor mais alto na série histórica do Banco Central (BC), iniciada em 1971. Na comparação com 2018, registrou-se avanço de 19,6% e, nos últimos dois anos, os dados da instituição apontam um salto de 55,86% – um avanço liderado principalmente pelo setor financeiro. Com juros lá em baixo no mercado internacional e larga oferta de recursos no sistema financeiro global, ainda que o câmbio continue sendo uma variável de risco, bancos preferiram acelerar a contratação de operações de curtíssimo prazo no mercado externo, obviamente, repassando esses recursos a tomadores no Brasil a custos mais elevados.

A série estatística do BC mostra a dívida contratada em moeda estrangeira em operações de curto prazo saindo de US$ 51,287 bilhões em 2017 para US$ 66,844 bilhões no ano seguinte, crescendo 30,33% e alcançando na sequência aqueles quase US$ 80,0 bilhões. Em dois anos, portanto, foram acrescidos ao saldo daquela dívida algo como US$ 28,648 bilhões. A relação entre compromissos de curto prazo e a dívida externa bruta variou de 16,16% em 2017 para 20,85% em 2018 e aproximou-se de 24,70% no ano passado, o percentual mais elevado em 28 anos. Em 1991, a dívida de curto prazo representava 24,95% da dívida externa bruta total, o mais alto desde o começo dos anos 1970.

Apenas para comparação, a relação havia flutuado entre 17,9% e 13,3% durante 1982 e 1983, em plena crise da dívida externa, que derrubou uma a uma as economias dos países então considerados em desenvolvimento, a começar pelo México, que declarou moratória de sua dívida externa na época, levando na sequência praticamente todas as economias latino americanas. Quando o Brasil quebrou novamente e teve que se socorrido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), no final da década de 1990, a dívida de curto prazo representava apenas 11,34% da dívida externa bruta.

Outros tempos

São cenários, evidentemente, muito diversos. No início da década de 1980, o País não tinha dólares sequer para pagar as importações de petróleo. No final dos anos 1990, as reservas cobriam 57% das importações e representavam qualquer coisa ao redor de 15,1% da dívida externa bruta (então próxima de US$ 241,47 bilhões). Até o fechamento de 2019, as reservas, então ao redor de US$ 356,88 bilhões, seriam suficientes para pagar quase duas vezes o valor das importações e cobriam com sobras toda a dívida, restando um “troco” ainda de US$ 50,4 bilhões, o que ainda deixava o País na confortável situação de credor líquido no mercado internacional. Isso não significa que o avanço do endividamento de curto prazo não gere preocupação e deva ser menosprezado, ainda mais quando se considera que a equipe econômica parece decidida a reduzir as reservas internacionais do País para níveis ainda não muito nítidos. A soma desses dois fatores poderá se tornar, mais à frente (e mantida a tendência em curso), em fonte de problemas, tornando a economia brasileira mais vulnerável a turbulências externas.

Balanço

·   Os bancos haviam contratado, até dezembro, uma dívida de US$ 67,523 bilhões com vencimento em até 12 meses (perto de 84,5% da dívida externa total de curto prazo). Comparada a 2018, quando somava US$ 50,618 bilhões, a dívida aumentou 33,4% e passou a acumular variação de 44,25% em dois anos.

·   Os demais setores da economia, excluídos os setores público e financeiro, reduziram o endividamento externo de curto prazo em 23,3% na passagem de 2018 para 2019, de US$ 16,128 bilhões para US$ 12,365 bilhões. Este valor, no entanto, ainda era 83,15% mais alto do que em 2017 (US$ 4,367 bilhões).

·   A dívida externa bruta cresceu muito moderadamente, acumulando variação inferior a 2,0% entre 2017 e 2019 ao passar de US$ 317,305 bilhões para US$ 323,593 bilhões (comparando ao seu ponto mais elevado na série, registrado no final de 2014, com US$ 352,821 bilhões, a dívida esteve 8,28% mais baixa no final do ano passado).

·   Esse avanço mais do que modesto é explicado pela redução de 8,41% na dívida de longo prazo, que encolheu de US$ 266,018 bilhões em 2017 para US$ 243,657 bilhões no ano passado. Comparada a 2018, a dívida de longo prazo ficou praticamente 4,0% menor, com baixa de US$ 10,111 bilhões (considerando o saldo de US$ 253,768 bilhões registrado em dezembro daquele ano).

·   Ainda em 2019, o saldo da conta de transações correntes, que registra exportações e importações de bens e serviços, pagamento de juros e amortizações da dívida externa, remessas de lucros e dividendos e outros compromissos do País com o restante do globo, ficou negativo em US$ 50,762 bilhões, crescendo 22,2% em relação ao déficit de US$ 41,540 bilhões registrado em 2018.

·   Foi o pior resultado desde o rombo de US$ 54,472 bilhões realizado em 2015. A piora resultou diretamente de uma queda de 25,7% no superávit da balança comercial do Brasil, que baixou de US$ 53,047 bilhões para US$ 39,404 bilhões. O déficit na balança de serviços recuou 1,61%, para US$ 35,141 bilhões.

·   O investimento externo no País manteve-se praticamente estável em US$ 78,559 bilhões (numa variação de 0,51% em relação a 2018, quando havia somado US$ 78,163 bilhões).

·   Como nota preocupante, o País conseguiu “rolar” (adiar) apenas 28,13% dos compromissos externos vencidos em dezembro, com a taxa situando em 80,44% nos 12 meses do ano passado. Isso significa dizer que os recursos que entraram de fora não foram suficientes para cobrir os pagamentos vencidos, levando o País a usar suas reservas para honrar todas as amortizações devidas. 

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