07 de abril de 2020
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coluna Econômica

Rendimentos do trabalho registra terceiro pior desempenho

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 07 de abril de 2020
O emprego ainda patina e seu crescimento continue sustentado principalmente pelo avanço de ocupações de menor qualificação - Foto: Reprodução

da Redação

Antes mesmo do fim do Carnaval, o emprego já parecia ter finalmente engrenado, abrindo o ano de forma positiva. Alvíssaras. Como diriam os mais “antenados”, só que não. Quer dizer, houve alguma melhora, embora o emprego ainda patine e seu crescimento continue sustentado principalmente pelo avanço de ocupações de menor qualificação, o que tem determinado, de outro lado, certa estagnação no rendimento médio real recebido pelos trabalhadores e um lento avanço, entre altos e baixos, para a massa de rendimentos (que vem a ser a soma de todos os salários pagos aos trabalhadores e outras formas de remuneração recebidas por pessoas ocupadas por conta própria e empregadores).

A evolução da massa de renda do trabalho pode ser uma boa medida para aferir a capacidade de consumo das famílias, que pode ainda ser turbinada pelo crédito (assunto para uma próxima coluna). Neste caso, as chances de uma retomada mais vigorosa da demanda podem estar sendo novamente adiadas. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNADC), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram uma variação real de 2,2% para a massa de rendimentos no trimestre encerrado em janeiro deste ano (cobrindo, portanto, também os meses de novembro e dezembro do ano passado) na comparação com igual período de 2018/2019.

A variação já exclui o efeito da alta da inflação sobre os rendimentos e indica um acréscimo de R$ 4,764 bilhões na massa salarial. Parece muito, mas não é tanto assim. Na verdade, trata-se da terceira pior variação para o mesmo trimestre em toda a série histórica do IBGE, iniciada em 2012. Só não foi pior do que nos anos de 2016 e 2017, quando a massa de rendimentos (sempre no trimestre até janeiro daqueles anos) sofreu baixas de 4,0% e de 0,8% respectivamente. Para comparar, entre novembro de 2018 e janeiro de 2019, a massa havia crescido R$ 6,089 bilhões, numa variação real de 2,9% em relação ao mesmo período de três meses terminado em janeiro de 2018. Feitas as comparações, pode-se concluir quo o acréscimo de quase R$ 6,1 bilhões foi praticamente 28% maior do que o valor agregado à massa de rendimentos no trimestre encerrado em janeiro de 2020.

Melhora aonde?

A esta altura parece bastante claro que vários fatores ajudaram a construir (ou desmontar, a depender do ponto de vista de quem analisa) o baixo crescimento da economia em 2019. Houve o desastre de Brumadinho, que atingiu em cheio a produção de minério de ferro. Houve a guerra comercial entre Estados Unidos e China, causando certo desaquecimento no crescimento global. A boçalidade em vigor em Brasília não ajudou a construir um ambiente favorável aos negócios. E a renda das famílias, mesmo crescendo mais do que aparenta avançar neste início de 2020, igualmente não foi um fator de impulso para a atividade econômica. Se os rendimentos agora crescem até menos do que lá, por que o resultado seria muito diferente do que se observou ao longo do ano passado? Agora, o novo fator de desequilíbrio tem sido a epidemia causada pelo coronavirus e pela onda de quase histeria que tem acompanhado o avanço do vírus pelo mundo. O mais provável é que a economia global (e a brasileira, por contaminação, literalmente) sofra e apresente resultados minguados nos primeiros meses do ano. A perspectiva de uma recuperação mais à frente ainda deve ser vista com alguma cautela, ainda que não possa ser descartada.

Balanço

·   De volta aos números da PNADC, a massa de rendimentos não cresce desde o trimestre setembro-novembro do ano passado, quando somou R$ 217,750 bilhões. Em parte, porque o rendimento médio real das pessoas ocupadas tem se mantido estagnado na faixa de R$ 2.361 há 12 meses. Registre-se que a queda da taxa de inflação no primeiro mês deste ano não parece ter favorecido uma reação dos salários reais, o que por si já seria um indicador da tibieza do mercado.

·   Em 12 meses, o total de pessoas ocupadas avançou 2,0%, passando de 92,291 milhões para 94,151 milhões, representando a abertura de 1,860 milhão de empregos. A população desocupada registrou baixa de 5,6% (de 12,625 milhões para 11,913 milhões). Mas isso significou que 712,0 mil pessoas saíram do desemprego, quer dizer, o equivalente a apenas 38,2% do total de novas ocupações criadas no período.

·   Detalhando os dados da pesquisa: naqueles 12 meses, a população em idade de trabalhar (com 14 anos e mais de idade) recebeu mais 1,605 milhão de pessoas, das quais 456,0 mil desistiram de conseguir emprego. O restante, um contingente de 1,149 milhão de pessoas, conseguiu uma colocação e o total de empregos gerados foi suficiente para abrigar 712,0 mil dos 12,625 milhões que estavam sem emprego no trimestre novembro de 2018 e janeiro de 2020.

·   Assim, o número de desocupados em janeiro deste ano baixou para 11,913 milhões de pessoas, um número elevado ainda, que corresponde a uma taxa de desemprego de 11,2% (frente a 12,0% no começo de 2019).

·   Mas para onde foram esses novos empregados? Perto de 41,4% deles (770,0 mil) conseguiram colocação em empregos sem nenhum registro oficial, sem direitos e sem benefícios. São empregados sem carteira no setor privado, em serviços domésticos e no setor público e ainda ocupados por conta própria e empregadores sem registro no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ).

·   Os empregos com carteira assinada avançaram 2,1% com absorção de 747,0 mil novos trabalhadores, representando 40,16% das novas ocupações. A indústria contratou mais 512,0 mil trabalhadores (crescendo 4,4%), numa contribuição de 27,53% para o aumento no total de ocupados.

·   A contribuição mais relevante veio dos serviços de menor qualificação, que passaram a empregar 39,923 milhões de pessoas (42,4% do total de ocupados, num avanço de 2,5% em 12 meses). Foram agregados àqueles segmentos perto de 962,0 mil novos contratados, ou seja, 51,72% do total de novas pessoas ocupadas.

 

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