07 de abril de 2020
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coluna Econômica

Na “contramão” do Brasil. Países cortam taxas de juros (ainda mais)

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 07 de abril de 2020
Diante dos sinais de enfraquecimento da economia mundial, decorrentes da epidemia do coronavírus, o FED não hesitou em aplicar um corte adicional| Foto: Divulgação

Em seu mais recente comunicado aos mercados, o Banco Central (BC) já havia antecipado que a fase de redução das taxas básicas de juros chegou ao fim, num momento em que seus diretores se dividem entre os que acreditam que ainda havia espaço para novos cortes e aqueles que defendem o oposto – corrente, por sinal, vitoriosa até o momento. A esta altura, com os desdobramentos todos detonados pela emergência do coronavírus (Covid-19) e de seus efeitos sobre a saúde e ânimo das famílias, sobre investidores e a confiança dos mercados no futuro imediato da economia mundial e sobre o lado real das economias de forma mais ampla, talvez seja o momento de reconsiderar aquela decisão. E não seria exatamente uma revisão atabalhoada ou intempestiva, como mostra o exemplo do Federal Reserve (FED, o banco central dos Estados Unidos).

Diante dos sinais de enfraquecimento da economia mundial, decorrentes da epidemia do coronavírus, o FED não hesitou em aplicar um corte adicional e não programado de 0,5 ponto percentual nos juros básicos, reduzidos para um intervalo entre 1,0% e 1,25% ao ano (remuneração oferecida para quem investe em títulos do Tesouro norte-americano). O movimento do FED veio na sequência de um comunicado distribuído pelos ministros de finanças do chamado G-7, grupo que reúne os países mais ricos do planeta (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), antecipando a decisão de utilizar“todas as ferramentas políticas apropriadas para alcançar um crescimento forte e sustentável e para nos resguardar contra riscos econômicos”.

Além de “fortalecer e expandir os serviços de saúde”, considerando os impactos potenciais do Covid-19 sobre a economia global, os ministros do G-7 informaram estar “preparados para tomar ações, incluindo medidas fiscais (quer dizer, aumento de gastos e/ou redução de impostos)” como forma de reforçar a resposta ao vírus e “dar suporte à economia durante esta fase”. No mesmo comunicado, divulgado após teleconferência entre os ministros de finanças, o grupo antecipa que “os bancos centrais do G-7 continuarão cumprindo os seus mandatos, dando suporte à estabilidade de preços e ao crescimento econômico enquanto mantêm a resiliência do sistema financeiro”.

Ação conjunta

Como por aqui só se admite que o BC tenha mandato único, qual seja, preservar a estabilidade dos preços, a fala daqueles ministros parece soar um tanto heterodoxa. Mas este tem sido o tom das políticas econômicas e do debate econômico desde a grande crise de 2008/2009. Mais precisamente, desde quando acadêmicos e economistas perceberam que as medidas de arrocho fiscal na sequência da crise fizeram agravar seus efeitos e mergulhar alguns países num atoleiro ainda maior, impondo sacrifícios redobrados à sociedade. Não parece coincidência que a posição assumida pelo G-7 venha na sequência da divulgação, na segunda-feira, das primeiras projeções da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre os impactos do vírus, com recomendações de políticas praticamente na mesma direção das medidas antecipadas pelos países mais ricos.

Balanço

·   Da mesma forma, a teleconferência do G-7 coincide que os apelos da OCDE para ações coordenadas e em favor da cooperação entre os governos para enfrentar os efeitos do vírus sobre a saúde das pessoas e sobre a atividade econômica.

·   Até o momento em que a coluna estava sendo finalizada, os bancos centrais da Austrália e da Malásia já haviam anunciado redução de 0,25 nos juros básicos naqueles países, para 0,5% e 2,5% ao ano respectivamente. O banco central japonês, por sua vez, anunciou que manterá seu programa de compra de ativos no mercado como forma de injetar liquidez no sistema financeiro, numa tentativa ainda de estimular o aporte de recursos para empresas que eventualmente enfrentem dificuldades geradas na sequência do avanço dos casos de contaminação.

·   Além de medidas de afrouxamento de políticas monetárias ao redor do mundo (ou seja, redução de juros e aumento do crédito para evitar problemas mais graves nos bancos e nas empresas), a OCDE sugere, nas regiões onde as taxas de juros já se encontram em terreno negativo (a exemplo do próprio Japão e da Área do Euro), que os bancos centrais recorram a “medidas não convencionais”.

·   A recomendação pode ser entendida como um estímulo a emissões diretas de moeda, num ambiente nitidamente de inflação em baixa e economia sob risco.

·   Entre outras medidas, mencionadas na edição de ontem, incluindo o estímulo a ocupações temporárias, como forma de preservar empregos e renda, a OCDE recomenda a concessão de auxílio igualmente temporário às famílias, por meio de transferências diretas de dinheiro ou seguro desemprego a empregados sob licença temporária em função do vírus, e mesmo com a cobertura pelos governos de gastos com saúde causados pela doença.

·   Os governos devem igualmente assegurar níveis de liquidez adequados ao sistema financeiro e providenciar inclusive socorro a companhias com problemas de fluxo de caixa, “especialmente pequenas e médias empresas”, e assegurar que empresas saudáveis não sejam empurradas para a falência.

·   Segundo a OCDE, “devem ser consideradas” ainda medidas para reduzir ou adiar o pagamento de impostos, baixar o custo de energia para empresas das regiões mais afetadas. Medidas fiscais, destacadamente na área da saúde (mais gastos), igualmente deveriam compor o cardápio contra os impactos do vírus.

·   “Taxas de juros mais baixas e despesas mais reforçadas dos governos podem ajudar a estimular a confiança e na recuperação da demanda assim que o surto se amaine e as restrições a viagens sejam removidas”, considera a OCDE.

 

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