07 de abril de 2020
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coluna Econômica

Depois de decepcionar em 2019, economia continua desaquecida

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 07 de abril de 2020
Ligeiro aquecimento observado no trimestre final do ano não teve força suficiente para trazer alguma melhora relevante para os números do PIB| Foto: Divulgação

O mercado começou a pressentir o “cheiro de queimado” já no começo do segundo semestre do ano passado. Àquela altura, os indicadores disponíveis já apontavam um avanço muito tímido para a atividade econômica em 2019, até mais modesto do que os números finais que viriam a ser anunciados meses mais adiante pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As apostas do mercado financeiro para a variação do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, na mediana das previsões (quer dizer, nas estimativas mais frequentes mencionadas pelos agentes consultados pelo Banco Central), haviam descido de 2,60%em meados de janeiro para qualquer próxima a 0,80% por volta de julho. Foram sendo revisadas semana a semana até encerrar dezembro em 1,17% – taxa um tanto distante do otimismo relevado nos meses iniciais do ano passado.

Numa curta e rápida divagação, “aposta” no caso é o termo mais apropriado para descrever as estimativas construídas pelos departamentos econômicos de bancos, financeiras e corretoras, porque esse tipo de projeção, assim como as previsões no mercado de juros, rende lucros e perdas igualmente milionárias a cada movimento dos mercados.

Digressão concluída, de volta à vaca fria. O desempenho da economia em 2019 decepcionou apenas aqueles mais entusiasmados defensores da política econômica em curso. O ligeiro aquecimento observado no trimestre final do ano, puxado pelo consumo das famílias (que apresentou avanço de 2,1% frente ao mesmo trimestre de 2018), não teve força suficiente para trazer alguma melhora relevante para os números do PIB. Ajudaram, no caso, a liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), a partir de setembro, (embora parte dos recursos tenha sido desviada para o pagamento de dívidas) e a melhora nas condições e na oferta de crédito. Os juros básicos, na média do ano, observa o IBGE, recuaram de 6,4% em 2018 para 6,0% e o valor total das concessões de empréstimos com recursos livres aumentaram a uma taxa anual de 24%, o que tem contribuído para elevar o endividamento das famílias.

O que vem pela frente

Ao final das contas, o PIB experimentou variação de apenas 1,1% em 2019, levemente inferior à taxa de 1,3% registrada tanto em 2017 quanto em 2018. Para entender o tamanho do problema, mesmo apresentando variação de 1,7% no quarto trimestre de 2019 (na comparação com igual trimestre de 2018), o PIB do período, a valores ajustados, equiparou-se aos níveis registrados no primeiro trimestre de 2013. Mais do que isto, os indicadores neste começo de 2020 mostram uma economia ainda debilitada, sem capacidade de reagir a taxas mais vigorosas, necessárias para reduzir efetivamente o desemprego e acelerar as contratações em setores que oferecem empregos mais qualificados e pagam salários mais elevados. Desde fevereiro, para complicar o cenário, paira sobre a economia a ameaça do coronavírus, conforme já analisado neste espaço nas edições dos dias 2 e 3 deste mês.

Balanço

·   Nas estimativas de Luka Barbosa e Matheus Felipe Fuck, da equipe de macroeconomia do Itaú Unibanco, os resultados do PIB no final de 2019 deixaram uma “herança estatística” de 0,8% para 2020. Isso significa que, mesmo que a economia não cresça nada ao longo do ano, o resultado final ainda seria uma elevação de 0,8%.

·   Para a dupla, os dados do primeiro trimestre deste ano indicam uma desaceleração da atividade econômica, de intensidade ainda incerta. “No entanto, acreditamos que a atividade econômica continuará em um processo moderado de aceleração impulsionado pelo crescimento do crédito privado, que afeta o consumo e o investimento. O risco negativo para esse cenário é o desempenho pior da economia global devido à epidemia do novo coronavírus”, ponderam.

·   Ainda não é possível dimensionar os efeitos do vírus sobre a atividade econômica no Brasil, já que não se pode descartar ainda a hipótese de uma rápida contenção da epidemia em escala global, o que ajudaria a desafogar a economia e o comércio internacionais. A ação coordenada dos bancos centrais, com a esperada adesão do BC brasileiro, igualmente poderá mitigar os estragos.

·   Concretamente, o que se tem por enquanto é uma desaceleração não desprezível do investimento doméstico. Obviamente, a “tese” do crescimento sustentado pelo setor privado, nesta área, não parece ter sustentação nos dados. No último trimestre de 2019, o investimento caiu 3,3% em relação ao terceiro trimestre recuou 0,4% frente aos três meses finais de 2018. No ano, que qualquer forma, registrou-se avanço de 2,2% (taxa que reflete o comportamento mais favorável nos primeiros meses do ano, no entanto).

·   A taxa de investimento em relação ao PIB oscilou de 15,2% para 15,4% entre 2018 e 2019, praticamente 26% abaixo dos 20,9% registrados em 2013, recorde na série iniciada em 2000.

·   A indústria de transformação enfrenta uma crise particular, mantendo-se literalmente estagnada em 2019 (avanço de 0,1% frente 2018). Os números vieram levemente melhores no encerramento do ano, com variação de 0,3% (quase nada) em relação ao terceiro trimestre e de 1,1% diante do quarto trimestre de 2018.

·   A fatia ocupada pelo setor de transformação industrial no PIB desabou de 17,4% em 2005 para apenas 11,0% no ano passado, abaixo dos 11,4% anotados em 2018. A queda de 1,1% no PIB da indústria extrativa, motivada pela retração na produção de minério de ferro, ajudou a segurar o desempenho da indústria em geral, que registrou variação de apenas 0,5% em 2019.

 

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