07 de abril de 2020
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coluna Econômica

Crédito para famílias dispara e dívida cresce mais do que a renda

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 07 de abril de 2020
Queda das taxas de juros abriu espaço para que as famílias também trocassem dívidas mais caras por novos empréstimos a custos relativamente mais baixos| Foto: Divulgação

O avanço de certa forma vigoroso das novas contratações de empréstimos e financiamentos com recursos “livremente” contratados entre o setor financeiro e pessoas físicas vem trazendo os efeitos colaterais esperados, com alta do endividamento das famílias e maior comprometimento da renda disponível com o pagamento de juros e amortizações. Os dados mais recentes do Banco Central (BC) mostram que as novas concessões de crédito para as famílias experimentaram salto de 25,3% entre 2018 e 2019, subindo de R$ 1,645 trilhão para quase R$ 2,062 trilhões. Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), a fatia dessas operações avançou de 23,9% para 28,4%. O comportamento do crédito ajuda a explicar a elevação de 1,8% no consumo das famílias em 2019 (de qualquer forma, em desaceleração frente ao incremento de 2,1% observado na passagem de 2017 para 2018).

O consumo das famílias corresponde a um dos componentes do PIB pelo lado da demanda, acompanhado pelos investimentos, que murcharam nos três meses finais de 2019 (embora tenham acumulado ao longo de todo o período elevação de 2,2%), e pelos gastos dos governos, que recuaram 0,4% nos 12 meses do ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A queda das taxas de juros abriu espaço para que as famílias também trocassem dívidas mais caras, contratadas lá atrás, quando os juros eram ainda mais salgados, por novos empréstimos a custos relativamente mais baixos.

Mas a consequência, especialmente durante 2019, foi um aumento no endividamento e na parcela da renda das famílias destinada a pagar juros e amortizações, embora em níveis menos intensos do que aquele observado para o aumento nas concessões (que correspondem aos novos empréstimos contratados). O endividamento saiu de 42,51% para 45,05% da renda total disponível das famílias entre dezembro de 2018 e igual mês do ano passado, maior percentual desde dezembro de 2014 (45,27%). Nessa medida de renda (massa salarial ampliada disponível), o BC inclui os rendimentos totais recebidos pelos trabalhadores como renumeração por seu trabalho, pensões e aposentadorias e benefícios de proteção social (a exemplo do auxílio a idosos de baixa renda) e desconta os pagamentos obrigatórios ao Imposto de Renda e à Previdência Social.

Descompasso

Essa massa de rendimentos saiu de R$ 3,221 trilhões em 2018 para R$ 3,407 trilhões no ano passado, variando 5,78%. O aumento da renda foi muito inferior à variação registrada para o saldo da dívida das famílias no mesmo período. Numa estimativa da coluna, que considera os percentuais de endividamento aferidos pelo BC e o valor da massa de renda disponível, o saldo devedor subiu de R$ 1,369 trilhão para R$ 1,535 trilhão, em alta de 12,1%. Há um nítido descompasso entre renda e dívida. Entre 2017 e 2019, o saldo devido pelas famílias cresceu 20,75% (saindo de R$ 1,271 trilhão em 2017) enquanto a renda avançou 10,46%. Comparado ao valor nominal do consumo das famílias anotado pelo IBGE na construção do PIB, a dívida saiu de 29,94% para 32,57% entre 2017 e 2019.

Balanço

A fatia da renda disponível destacada pelas famílias para pagar juros e as “prestações” (amortizações) de sua dívida cresceu igualmente, mas em menor velocidade – o que reforça a possibilidade de as pessoas físicas terem renovado dívidas “velhas” com a contratação de novos empréstimos a custos mais favoráveis, além de acrescentar dívidas “novas” ao saldo devedor.

O valor da renda comprometida com o pagamento de juros e amortizações elevou-se de R$ 609,46 bilhões em 2017 para R$ 673,53 bilhões no ano passado, em alta de 10,51%. Na verdade, o grosso desse avanço deu-se na comparação com 2018, quando a fatia da renda desviada para o pagamento de dívidas havia alcançado R$ 611,29 bilhões. Assim, entre 2018 e 2019, esse comprometimento aumentou 10,18%.

Em termos proporcionais, num cálculo que leva em conta as taxas médias divulgadas pelo BC, o percentual da renda comprometida com pagamento de juros e prestações de dívidas, que havia recuado de 19,76% em 2017 para 18,98% em 2018, voltou a avançar no ano passado, para 19,77%.

Considerando apenas a taxa registrada em dezembro de cada ano, o comprometimento avançou de 19,0% para 20,2% entre 2018 e 2019, atingindo a maior taxa para o mês desde dezembro de 2016 (20,62%).

Mantido esse ritmo, num cenário de baixo crescimento e desemprego ainda elevado, o comportamento da dívida das famílias e, mais relevante, do percentual da renda comprometida com seu pagamento pode trazer preocupações adicionais, diante do seu potencial para afetar as possibilidades de retomada do consumo e, portanto, da própria economia.

Durante a semana, o Instituto Internacional de Finanças (IIF) igualmente revisou suas projeções para a economia global e para os principais países em função do coronavírus (Covid-19), reforçando os riscos para a atividade econômica no Brasil. O nível de incertezas na economia mundial elevou-se drasticamente desde o começo da epidemia, relacionadas especialmente a como se dará o desenvolvimento do vírus e os reflexos sobre o setor econômico, ressalta a instituição.

Apesar da insegurança e provavelmente por causa dela, o IIF reduziu as perspectivas de crescimento do mundo de 2,6% em 2019 para 1,0% neste ano, o maior baixo desde a crise de 2008/2009. As previsões para os Estados Unidos e a China foram rebaixadas de 2,0% para 1,3% e de 5,9% para 4,0% respectivamente – números abaixo das previsões antecipadas pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

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