06 de abril de 2020
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coluna Econômica

Paralisados, governo e equipe econômica menosprezam possíveis estragos da crise

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 06 de abril de 2020
Governos ao redor do mundo buscam adotar políticas sugeridas em relatório divulgado há uma semana pela OCDE| Foto: Divulgação

Os mercados pareciam respirar com algum alívio ontem, depois dos momentos de verdadeiro pânico vivenciados no dia anterior. As bolsas de valores subiram aqui e nos Estados Unidos, por exemplo, mas continuaram em baixa na Europa. O dólar recuou para algo em torno de R$ 4,64 (baixa de 1,77%) diante das intervenções maciças do Banco Central (BC), estimadas em alguma coisa da ordem de US$ 4,5 bilhões entre segunda-feira e ontem. A moeda norte-americana perdeu terreno na maior parte dos países emergentes (com exceção para o México), diante dos anúncios e/ou promessas de redução dos juros, maior injeção de crédito, socorro a empresas mais afetadas pela queda de receitas causada pelo surto do novo coronovírus, ajuda a trabalhadores afetados pela epidemia e até adiamento de impostos em diversos países – novamente, com exceção para a turma europeia, que tem preferido esperar por uma atuação mais firme do Banco Central Europeu via aumento da liquidez – dinheiro vivo – no setor financeiro.

Por aqui, entre a “supertranquilidade” do “superministro” e manifestações de cautela e temor de analistas e porta-vozes do mercado financeiro, o líder-mor prefere enxergar mais uma maquinação da imprensa contra seu governo – o que deveria deixar seus apoiadores nos mercados de cabelos em pé. Os governos ao redor do mundo buscam adotar, em grande medida, as políticas sugeridas em relatório divulgado há uma semana pela Organização para o Desenvolvimento e a Cooperação Econômica (OCDE), o clube de países ricos ao qual o governo brasileiro tanto sonha em pertencer. Esse mesmo governo e sua equipe econômica parecem paralisados, numa imobilidade que sugere muito sobre a sua (falta de) capacidade para reagir a crises.

Imobilidade

Acenar com as tais reformas, a esta altura, não parece exatamente uma solução para as dificuldades que se avizinham, diante dos sinais de forte desaquecimento da atividade econômica mundial. As reformas sugeridas – tributária, administrativa – têm foco no longo prazo, não resolvem problemas de agora e há sérias dúvidas se resolverão qualquer tipo de problema em qualquer momento.A equipe econômica precisa estabelecer uma política de curto prazo para aliviar os efeitos da desaceleração global sobre a economia brasileira. Se ainda é cedo para avaliar o tamanho desses estragos, visto que não se sabe ainda qual deverá ser a extensão do surto de coronavírus, talvez fique tarde demais para reagir quando esses impactos estiverem já plenamente estabelecidos.Pode-se antecipar, desde já, que o primeiro trimestre deverá ser crítico, para dizer o mínimo, não só pelo ataque virótico, mas também pela “guerra” não declarada entre Arábia Saudita e Rússia.

Balanço

·   O reino saudita antecipou que pretende colocar no mercado em abril algo como 12,3 milhões de barris por dia, nada mais, nada menos do que praticamente 25% acima do volume normalmente fornecido pelo país nos meses anteriores. O lado bom (?), como tem destacado o maior pensador econômico do Brasil desde as eleições de 2018, é que os preços vão cair.

·   Parece bom, não é? Petróleo barato ajuda a reduzir custos de combustíveis, mantém as taxas de inflação em baixa, o que favorece a renda de assalariados e de suas famílias. Mas a redução muito forte nos preços internacionais do barril, num momento de incertezas e turbulências, vai afetar a saúde financeira dos países exportadores do óleo e de seus derivados, gerando uma espécie de “choque do petróleo às avessas”.

·   Com dificuldades para gerar receitas, aqueles países vão igualmente reduzir investimentos e projetos de expansão, cortando encomendas de máquinas, equipamentos e serviços em escala global, ajudando a esfriar ainda mais a economia em todo o mundo e comprometendo as perspectivas futuras de aumento da produção de petróleo.

·   A esta altura, a equipe econômica já deveria estar trabalhando na construção de políticas compensatórias, de socorro a empresas de menor porte e que possam vir a enfrentar problemas de caixa. Assim como em programas para ampliação da oferta de crédito a custos mais baixos, inclusive para as famílias mais endividadas e que tenham sido mais atingidas pelo surto do coronavírus. O cardápio poderia contemplar, por exemplo, algum tipo de ação coordenada pelo BC e envolvendo os principais bancos públicos e privados para baratear o custo do dinheiro e evitar uma escalada da inadimplência.

·   Há caminhos para amenizar os efeitos da crise, mas estes exigem trabalho, coordenação e inteligência. Itens escassos nos gabinetes de Brasília.

·   Enquanto isso, a indústria parece ter conseguido respirar com algum alívio em janeiro (antes do coronavírus). A produção industrial, na medição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), anotou variação de 0,9% em relação ao mês imediatamente anterior, saindo de perdas de 1,6% e de 0,8% em novembro e dezembro. Mas recuou 0,9% sobre janeiro de 2019 (depois de cair 1,7% e 1,2% nos dois meses anteriores, comparando com novembro e dezembro de 2018). O alívio veio sobre uma base reduzida e ainda sugere baixa capacidade de reação do setor. Se o surto for debelado rapidamente, as perspectivas continuam sendo de crescimento apenas modesto.

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