29 de maio de 2020
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coluna Econômica

Coronavírus agrava crise na indústria, que acumula seis trimestres de perdas

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 29 de maio de 2020
Estatísticas trimestrais do IBGE mostram que a produção industrial acumula seis trimestres de quedas sucessivas, indicando uma retração muito próxima de 7,7% no período| Foto: Divulgação

Depois de derrapar em fevereiro, a produção industrial entrou em parafuso no mês seguinte, como já se podia antecipar, refletindo os primeiros efeitos da crise sanitária causada pela pandemia. As medidas de restrição e de isolamento social fizeram a demanda desabar a partir da segunda quinzena de março, o que bastou para decretar um tombo de 9,1% na produção do setor, na comparação com fevereiro, no pior desempenho desde maio de 2018 (-11,0%). Na comparação com março do ano passado, a redução foi de 3,8% – aparentemente menos intensa, mas marcando o quinto mês consecutiva de números negativos, o que apenas confirma que os problemas da indústria, agravados agora pela crise sanitária, são anteriores e demonstram a baixa capacidade de reação que o setor vinha demonstrando desde o final da recessão em 2016.

As estatísticas trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a propósito, mostram que a produção industrial acumula seis trimestres (um ano e meio, portanto) de quedas sucessivas, indicando uma retração muito próxima de 7,7% no período. O investimento segue em baixa, já que a produção de bens de capital (máquinas, equipamentos, caminhões e ônibus, entre outros segmentos) registrou o segundo trimestreconsecutivo de perdas, numa retração de praticamente 5,5% no período. Na comparação com setembro de 2013, quando havia alcançado seu ponto mais alto na série histórica do IBGE, a produção de bens de capital encolheu 44,8%. As expectativas de uma reação puxada majoritariamente pelo setor privado ainda neste ano, antecipadas pelo superministro dos mercados, senhor Paulo Guedes, se aproximam muito mais de um desejo sem fundamento concreto na realidade.

A edição mais recente da pesquisa do IBGE sobre a produção industrial apenas deixa explícito o que a maior parte dos economistas, analistas econômicos e consultores já vinha antecipando. Conforme reforça o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), as medidas de afastamento somente começaram a ser aplicadas de forma mais ampla na segunda metade de março, o que parece sinalizar perdas ainda mais severas em abril, como sugerem, por exemplo, os números mais recentes da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), entre outras indicações.

Abril vermelho

O licenciamento de veículos desabou 76% entre abril deste ano e o mesmo mês do ano passado, com tombo de 66% em relação a março deste ano. As importações em geral sofreram baixa de 12,1% na passagem de março para abril deste ano e ficaram ainda 10,7% abaixo dos níveis registrados em abril de 2019. A indústria de transformação reduziu suas compras em 11,01% comparando abril com o mesmo mês do ano passado. A indústria automotiva respondeu, em março, por 39,2% da queda de 3,8% anotada pela produção industrial em seu conjunto, novamente em relação ao terceiro mês de 2019. A produção de veículos chegou a baixar 16,2% nessa mesma comparação. Os números de licenciamento antecipam uma retração ainda mais severa ao longo de abril. Adicionalmente, as importações de veículos de passageiros e de carga sofreram baixas de 53,2% e de 59,4% frente a abril de 2019.

Balanço

·   Cinco setores de atividade explicaram em março pouco mais de 95,5% da redução observada para a produção industrial na comparação com março de 2019, todos eles de alguma forma relacionados com a demanda final das famílias e mais “intensivas em mão de obra” (ou seja, estão entre os segmentos que mais empregam). Esse dado reforça a outra dimensão da crise sanitária, revelada na retração do emprego e da renda.

·   Além das montadoras de veículos, as indústrias de bebidas, confecções e artigos de vestuário, couro e calçados e de minerais não metálicos (brita, areia, cimento e outras atividades relacionadas à construção civil) foram as que maior influência exerceram no tombo da produção da indústria como um todo.

·   A indústria de bebidas, que sofreu baixa de 18,8%, teve participação de 19,21% na queda geral, seguida pelo setor de vestuário, que encolheu nada menos do que 27,5% e teve influência de 14,47% na redução na produção de toda a indústria.

·   O setor de couro, calçados e acessórios, com retração de 26,7%, explicou 12,63% do tombo geral, enquanto a indústria de minerais não metálicos teve participação de 10,0% na retração geral, ao sofrer baixa de 10,6%.

·   O Iedi relembra que há “outros canais de impacto da pandemia” sobre a indústria e que igualmente têm prejudicado o desempenho do setor em seu conjunto. O instituto relaciona aqui o “forte aumento das incertezas”, o que leva como reflexo a uma retração dos empresários em suas decisões operacionais, assim como a dificuldade adicional de “acessar insumos, partes e componentes importados”.

·   Por isso mesmo, prossegue o Iedi, entre os setores mais penalizados pela crise estão ainda “aqueles organizados em cadeias com participação importante de fornecedores internacionais, que produzem bens cuja demanda exige a contratação de financiamentos e um nível maior de confiança em relação ao futuro”.

·   O setor de bens intermediários acumula seis trimestres de perdas, acumulando retração de aproximadamente 11,0%. Por suas conexões com toda a cadeia de bens industriais e sua importância relativa, esse comportamento muito negativo, acrescenta ainda o Iedi, apenas confirma “o fato de que não é de agora que a indústria como um todo enfrenta problemas”.

 

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