29 de maio de 2020
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coluna Econômica

O lado real da economia derrete, mas BC alimenta seu mundo da fantasia

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 29 de maio de 2020
Ao avaliar o tal “balanço de riscos”, o Copom acredita mesmo que reformas e ajustes na área fiscal ainda são extremamente relevantes para assegurar a retomada “sustentável” da atividade econômica na saída da crise sanitária| Foto: Divulgação

Enquanto o lado real da economia enfrenta um processo literal de desmanche como consequência dos impactos iniciais da pandemia, o Banco Central (BC) e sua equipe de “sábios” parecem ter perdido definitivamente o contato com a “nave mãe”. Na reunião encerrada na quarta-feira, dia 6, quando decidiu reduzir a taxa básica de juros de 3,75% para 3,0% ao ano – a mais baixa já experimentada no Brasil, pelo menos em termos nominais –, o Comitê de Política Monetária (Copom), formado exclusivamente pela alta direção do BC, voltou à retorica de sempre – o ajuste fiscal ou o caos (como se o caos já não estivesse instalado no País).

Ao avaliar o tal “balanço de riscos”, com o qual a entidade afere os riscos adiante para o equilíbrio dos preços em geral, no “horizonte relevante para a política monetária” (quer dizer, nos próximos dois anos), o Copom acredita mesmo que reformas e ajustes na área fiscal (quer dizer, arrocho nos gastos públicos) ainda são extremamente relevantes para assegurar a retomada “sustentável” da atividade econômica na saída da crise sanitária. Em seu balanço, se de um lado a ociosidade na economia (fábricas e máquinas paradas, desemprego em escalada) tende a jogar a inflação para níveis inferiores ao esperado (e abaixo da meta inflacionária), de outro “políticas fiscais de resposta à pandemia que piorem a trajetória fiscal do País de forma prolongada, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco e gerar uma trajetória para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”.

Diante de considerações do tipo, cabe perguntar: em que mundo (de fantasia) vivem o presidente do BC e seus diretores? Quer dizer que as medidas de socorro a empresas e famílias, que sequer têm conseguido cumprir os objetivos propostos de amenizar os impactos da crise, poderão levar o País à ruína inflacionária? Os (parcos) recursos até agora destinados de forma extraordinária ao setor de saúde, para tentar salvar vidas, terão o poder de produzir um desastre inflacionário? Os custos em empregos, quebradeira de empresas, colapso do sistema de saúde e em vidas diante de uma atuação deficiente ou ineficaz não contam?

Bússola perdida

Do alto de sua torre de marfim, totalmente integrada ao mercado financeiro e à mais rasteira visão de política econômica, já abandonada nos grandes centros de produção do pensamento econômico mundial, os tecnocratas da economia perderam a bússola, perderam a noção ética e moral diante dos desafios impostos ao País pela pandemia. A inflação derrapa ladeira abaixo e a verdadeira ameaça hoje é de que a economia entre numa espiral deflacionária, para recorrer à uma imagem utilizada pela economista Mônica de Bolle. Mas os riscos para o BC e para a equipe econômica do senhor Paulo Guedes mantêm-se centrados numa improvável ameaça de alta da inflação, enquanto o País enterra seus mortos.

Balanço

·   Em abril, a produção de veículos atingiu o mais baixo volume desde que a indústria do setor começou a levantar e divulgar suas estatísticas em 1957. As vendas no mercado doméstico foram as mais baixas em duas décadas e as exportações desabaram. Talvez tenha sido, para o setor, o pior momento da crise. Talvez não.

·   Pode vir algum alívio em maio diante do tamanho tombo realizado em abril e também em função das medidas de relaxamento adotadas por vários Estados e cidades. Os riscos de uma recaída, com aumento nos casos de infecção e nas mortes, já que o País não parece ter alcançado o pico na crise da coronavírus, não podem ser negligenciados. E, neste caso, medidas de restrição mais duras poderão ser adotadas, o que significaria mais perdas históricas para toda a economia.

·   O licenciamento de veículos nacionais desabou 67,7% na passagem de março para abril, saindo de 146,46 mil para 47,368 mil unidades. A queda em relação a abril do ano passado, quando a indústria vendeu 205,774 mil veículos, a queda foi de 77,0%. A produção ficou limitada, no mês passado, a pífias 1.847 unidades, num tombo de 99% em relação a março (189,96 mil) e de 99,3% frente a abril de 2019 (267,56 mil veículos montados).

·   Entre fábricas e concessionárias, os estoques viraram o mês de abril em 237,0 mil unidades, o que corresponde a quatro meses de vendas se mantidos os níveis muito reduzidos observados até o momento, de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

·   Até o final de abril, as montadoras ainda mantinham praticamente o mesmo número de empregados registrados em março, em torno de 125,35 mil. Mas já anota a demissão de 4,8 mil trabalhadores na comparação com os 130,15 mil empregados em abril de 2019.

·   No release distribuído à imprensa, o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, mencionou a necessidade de, em primeiro lugar, “proteger a saúde dos funcionários” e ao mesmo tempo adotar medidas para evitar um colapso na vida do País. “Isso exige um engajamento coordenado de toda a sociedade e também do Estado brasileiro, com foco absoluto na saúde e na economia. Não é hora de ruídos políticos que só desviam as atenções do que realmente interessa à população brasileira no momento de uma crise sem precedentes”, afirmou, um dia depois de o presidente ter conduzido uma caravana de empresários ao Supremo Tribunal Federal (STF) para reclamar um afrouxamento nas medidas de contenção e de isolamento social.

 

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