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coluna Econômica

Custos sobem moderadamente, mas preços de milho e soja disparam

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 12 de julho de 2020
Os movimentos observados nos mercados agrícolas, de qualquer forma, sugerem mais uma safra de ganhos entre polpudos e ainda bastante razoáveis para os produtores - Foto: Reprodução.

Lauro Veiga 

A queda mais recente do dólar, em combinação com a tendência de baixa nas cotações internacionais das principais commodities agrícolas, empurrou ligeiramente para baixo os preços do milho e da soja nos primeiros dias de junho. Esses valores, no entanto, mantêm-se fortemente acima dos níveis observados em igual período do ano passado, com exceção para o algodão. Os movimentos observados nos mercados agrícolas, de qualquer forma, sugerem mais uma safra de ganhos entre polpudos e ainda bastante razoáveis para os produtores, reforçando as análises que antecipam um desempenho para o campo na contramão de todo o restante da economia, duramente atingida pela crise sanitária.

O indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, para os preços do milho e da soja registra altas de 43,9% e de 41,7% na média mensal de maio deste ano em comparação com o mesmo mês do ano passado. No primeiro caso, os preços saíram de R$ 34,84 para R$ 50,12 por saca, recuando levemente na média dos três primeiros dias de junho, quando o indicador para os preços registrados pelo milho na BMF&Bovespa atingiram R$ 49,43. Ainda assim, esses valores correspondem a alta de 30,5% frente aos três dias iniciais de junho de 2019, quando a saca do grão havia alcançado R$ 37,89.

Entre os dias 1º e 3 deste ano, a cotação da saca de soja no Paraná, Estado escolhido como referência para o cálculo do indicador de preços do centro de estudos, chegou a R$ 100,37 frente a R$ 103,34 na média de maio, apontando queda de 2,87%. Mas, na comparação com o começo de junho do ano passado (R$ 76,10), a soja ainda acumula salto de 31,9%. O algodão, ao contrário, subiu 2,2% entre maio e os primeiros dias deste mês, com a arroba da pluma saindo de R$ 87,57 (média dos 31 dias de maio) para R$ 89,52. A comparação com igual intervalo de 2019 é menos favorável, apontando redução de 4,45% (em relação aos valores médios de R$ 93,69 alcançados então pela arroba).

Custos

Considerando os custos operacionais das lavouras, estimados pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), milho e algodão apresentam altas muito próximas de 7,6%, diante de uma variação inferior a 0,5% para a soja, favorecida pela queda de 4,8% no custo dos macronutrientes utilizados na adubação da cultura. Considerando os preços médios registrados pelo Imea na semana passada, apenas o algodão apresenta um balanço que parece à primeira vista negativo. O custo operacional por arroba da pluma está previsto em R$ 84,44 diante de um preço ao produtor na faixa de R$ 83,30. O descompasso pode ser apenas aparente, já que 30,2% da safra 2020/21 já haviam sido negociados pelos produtores a preços médios mais elevados. Para comparação, até maio do ano passado, apenas 15,4% da produção esperada já haviam sido negociados.

Balanço

·   A despeito do recuo mais recente observado para os preços aos produtores, o milho promete margens ainda substanciais, asseguradas ainda pela antecipação na fixação de preços de venda do grão e de compra de insumos. Até o final de maio deste ano, quase 29,5% da produção prevista para a safra 2020/21 haviam sido negociadas antecipadamente com tradings e indústrias. Em 2019, no mesmo período, ainda não havia sido registrada qualquer prefixação.

·   Na semana passada, conforme o Imea, os preços da saca do milho chegaram a R$ 36,72, o que se compara com o custo operacional projetado em menos de R$ 23,00 por saca. A antecipação dos negócios com a próxima safra, insuflada pela escalada do dólar, permitiu que os produtores fixassem preços de venda superiores à média observada mais recentemente, o que tende a assegurar preços médios de venda mais elevados do que os atuais, com margens igualmente mais favoráveis.

·   A soja apresenta o cenário mais confortável. Não só a produção tende a ser elevada, aproximando-se de 131,0 milhões de toneladas, a se confirmarem as previsões do Itaú Unibanco, como o balanço entre preços e custos deverá trazer as margens para níveis acima das médias históricas.

·   Os custos operacionais da oleaginosa deverão se aproximar de R$ 58,00 por saca em Mato Grosso, maior produtor de soja do País. Para comparação, a mesma saca chegou a ser cotada a R$ 93,87 no encerramento da semana que passou, conforme o Imea. Como a prefixação de preços foi três vezes maior até o final de maio, a possibilidade de que esses produtores tenham firmado valores médios muito próximos ou até mais elevados para a safra 2020/21 deve ser considerada, o que ajudaria a turbinar as margens.

·   Em números, até o final do mês passado os produtores da região já haviam negociado 37,25% da produção esperada, diante de 12,35% em maio de 2019. Mais uma vez, a venda acelerada da safra a ser colhida apenas em 2021 foi incentivada pela desvalorização do real, que compensou largamente a queda dos preços em dólares no mercado internacional, tornando a soja brasileira mais competitiva lá fora.

·   Para concluir, a coluna abre parênteses para um quase desabafo em relação ao comportamento recente dos tais “mercados”. Não chega a ser surpresa a ausência de racionalidade naquelas plagas e os números mais atuais reafirmam um total desligamento em relação ao lado real da economia, sem mencionar a mais completa falta de senso moral, ético e humanitário (o que não se poderia mesmo esperar de atores alimentados pela ambição e pela necessidade de produzir lucros a qualquer custo). Os preços das ações disparam numa espécie de celebração macabra dos mercados num momento em que as mortes pelo novo Coronavírus superam a marca dos milhares por dia.

 

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