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coluna Econômica

Tudo bem na indústria goiana? Nem tanto. Só quatro setores cresceram

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 12 de julho de 2020
Em Goiás, os setores de produção de alimentos, biocombustíveis e bens farmoquímicos e farmacêuticos respondem por quase dois terços do valor da transformação industrial| Foto: Divulgação

A indústria goiana registrou em abril o segundo melhor desempenho entre todas as demais regiões acompanhadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como mostra a edição mais recente da pesquisa regional da produção industrial, divulgada ontem. Houve avanços de 2,3% na passagem de março para abril deste ano e de 0,4% na comparação com abril do ano passado. Os números destoam tanto do desempenho da indústria como um todo no País quanto da tendência esperada para tempos de isolamento social e pandemia. Na verdade, no entanto, o comportamento pode ser explicado em função da própria estrutura da indústria goiana, com influência ainda de fatores transitórios e das medidas de afastamento social, ainda que isso possa parecer um tanto paradoxal.

Antes, uma anotação de caráter mais geral: as perdas foram generalizadas, tanto de março para abril quanto em relação a abril de 2019, preservando apenas Pará e Goiás. A queda na produção foi intensa no Nordeste (retração de 29% de março para abril e de 33,1% frente a abril de 2019), assim como nos Estados do Sul e do Sudeste, com destaques negativos para São Paulo (-23,2% e -31,7% naquela mesma ordem), e Paraná (-28,7% e -30,6%).

Em Goiás, como já conhecido, os setores de produção de alimentos, biocombustíveis (biodiesel e etanol) e bens farmoquímicos e farmacêuticos respondem por quase dois terços do valor da transformação industrial (na verdade, o percentual chegava, em 2017, dado mais recente do IBGE, a 61,55% do valor total da produção, de forma mais simplificada). Foram exatamente esses setores que lideraram a elevação da produção em abril e, não por coincidência, foram setores classificados como essenciais e que sofreram menores restrições para continuaroperando.

Inadimplência camuflada

Evidentemente, quando a coluna se refere a “menores restrições” estas estão relacionadas à menor severidade das medidas de afastamento naquelas áreas, já que o impacto da queda da renda e do poder de consumo das famílias, especialmente com o avanço do desemprego, ainda não foi integralmente percebido e tenderá a ser mais severo nos meses seguintes. As demissões tendem a avançar diante da retração da demanda, das perdas de renda para as famílias e da queda vertical no faturamento das empresas, que correm riscos crescentes de encerramento de suas atividades na medida em que os recursos prometidos pelo governo não estão chegando. Parece prevalecer, por enquanto, uma espécie de “moratória consentida” e ainda não totalmente visível seja pelas dificuldades impostas pelo isolamento, seja porque há a percepção de que quaisquer medidas mais drásticas de execução de dívidas poderiam levar à derrocada tanto de credores quanto de devedores.Tudo considerado, não há certezas de que os números relativamente mais animadores em abril deverão se repetir em maio.

Balanço

·   A pesquisa do IBGE traz dados desagregados por setor de atividade apenas na comparação anual. A variação de 0,4% observada em abril, frente a igual mês do ano passado, além de modesta, veio na sequência de quatro meses com resultados negativos para a produção em Goiás (-3,4% em dezembro de 2019; -1,0% em janeiro deste ano; -1,5% em fevereiro; e -1,2% em março, sempre em relação a iguais períodos do ano imediatamente anterior).

·   Parte substancial daquele avanço veio da alta de 4,0% na produção de bens alimentícios (que havia se mantido estagnada em março, depois de desabar 8,1% em fevereiro).

·   O salto de 39,3% registrado pela produção da indústria extrativa, sob influência da maior produção de fosfato, calcário, minério de cobre e brita, surge na sequência para explicar o desempenho positivo de toda a indústria (lembrando que o setor de extração representa 5,11% do valor produzido por toda a indústria goiana).

·   A terceira maior contribuição veio da indústria de biocombustíveis, embora o crescimento neste setor tenha sido de 8,8% frente a abril de 2019. A influência sobre o resultado final da indústria foi menor, comparativamente ao setor de alimentos, porque os biocombustíveis participam com 12,89% do valor da produção.

·   Um dos problemas para o setor é que as vendas não têm acompanhado o crescimento da produção, o que tende a gerar aumento de estoques, levando, em algum momento, mesmo a um ritmo mais lento na operação das indústrias. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a produção goiana de biodiesel recuou 6,87% entre março e abril, saindo de 75,339 milhões para 70,601 milhões de litros, o que significou alta de 8,37% frente a abril de 2019 (64,742 milhões de litros).No acumulado entre janeiro e abril, a produção cresceu 7,52% (de 247,855 milhões para 266,5 milhões de litros).

·   No caso do etanol, com o começo da safra 2020/21, a produção saltou 254% de março para abril, chegando a 316,885 milhões de litros (2,62% mais em relação a abril de 2019). Um salto meramente sazonal, já que o setor estava em período de entressafra até março. Nos primeiros quatro meses deste ano, a produção aumentou 13,51% (de 450,970 milhões para 511,892 milhões de litros). Mas as vendas de etanol hidratado desabaram 31,0% entre abril do ano passado e o mesmo mês deste ano (de 143,590 milhões para 99,089 milhões de litros), acumulando recuo de 10,16% nos quatro meses iniciais deste ano, frente a igual intervalo de 2019.

·   O consumo de etanol anidro deve ter caído também, considerando-se uma redução de 18,3% nas vendas de combustíveis em geral apenas em abril.

·   A produção de medicamentos, em outro efeito indireto da pandemia, aumentou 6,7% em abril (mas acumula variação de somente 0,4% no primeiro quadrimestre).

·   A produção de veículos tombou 98,2% em abril e ficou negativa em 37,1% no primeiro quadrimestre. As indústrias de outros produtos químicos (adubos e fertilizantes) e de minerais não metálicos (bens e insumos associados à construção civil) sofreram perdas em abril de 25,4% e de 14,6% respectivamente.

 

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