05 de setembro de 2020
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Produção industrial chega ao oitavo mês consecutivo de queda

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 05 de setembro de 2020
A pesquisa mensal da produção industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra claramente que os problemas da indústria são anteriores à pandemia| Foto: Reprodução/ Agência Brasil

A pesquisa mensal da produção industrial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra claramente que os problemas da indústria são anteriores à pandemia, foram agravados pela crise, certamente, e os dados divulgados ontem não permitem vislumbrar melhoras significativas num cenário que já vinha ruim. A comparação com o mês imediatamente anterior mostra crescimento pela segunda medição consecutiva, mas, quando se considera igual período do ano anterior, a indústria acumulou, até junho, o oitavo mês consecutivo de perdas, somando ainda 10 baixas nos últimos 12 meses, o que significa dizer que a produção esteve a maior parte do tempo em terreno negativo, mesmo antes da Covid-19.

Depois de avançar 8,2% de abril para maio, a produção cresceu mais 8,9% em junho, na comparação com o mês anterior, mas havia sofrido perdas de 9,1% e de 19,2% em março e abril. Os dados de abril e maio foram revisados pelo IBGE, no primeiro caso, para pior, já que os levantamentos anteriores haviam indicado retração de 18,8%. No segundo, o número foi melhorado, depois de apontar elevação de 7,0%. Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a reação aos números extremamente negativos de março e abril teria sido influenciada pela “adoção de protocolos de segurança sanitária pelas empresas e da progressiva flexibilização do isolamento social por governos de muitas localidades”. Mas aponta dúvidas sobre a capacidade de o setor prosseguir nessa trajetória, afinal, aprodução já havia recuado 1,6% no primeiro trimestre deste ano e desabou19,4% no segundo, comparados a iguais períodos de 2019.

O Itaú BBA assume um tom levemente mais otimista em seu relatório mais recente sobre a indústria, sugerindo nova rodada de números positivos em julho na comparação com junho, pois dados preliminares sugerem uma maior utilização da capacidade instalada da indústria naquele mês. Mesmo se confirmada essa reação, o nível de ocupação de máquinas e equipamentos nas fábricas ainda se encontrava abaixo da taxa de utilização registrada em fevereiro. Seria preciso, portanto, um bom mais de vapor para que a indústria retomasse os índices anteriores à pandemia, que já nem eram tão positivos assim.

Riscos adiante

Todas as projeções até o momento deixam de lado o risco, ainda bastante presente, de uma recaída na infestação pela Covid-19, a exemplo do que se observa nos Estados Unidos. Ali, depois da reabertura da economia em diversos Estados, o número de casos e de mortes voltou a subir, alcançando níveis preocupantes e trazendo de volta a possibilidade de novo fechamento de lojas e fábricas (risco que não chegou a ser afastado mesmo quando os índices de contaminação pareciam sugerir um recuo do Sars-Cov-2). Sem uma coordenação nacional, com governadores e prefeitos submetidos a pressões crescentes e diante dos números elevados de casos de contaminação e de mortes, por aqui, não há garantias de que a indústria possa sustentar um ritmo de produção que só aparenta vigor quando relacionado ao verdadeiro desmanche ocorrido a partir de março, sobretudo nos setores de fabricação de bens duráveis.

Balanço

·   “Depois da paralisação de muitas linhas e unidades produtivas em abril, já era esperada alguma reação do setor nos meses subsequentes. A questão é saber qual o perfil da recuperação, se será consistente e forte o suficiente para recolocar rapidamente a indústria em uma situação equivalente àquela anterior à crise de Covid-19”, avalia o Iedi. Até o momento, acrescenta o instituto, “o sinal ainda relativamente fraco de aceleração da passagem de maio para junho e o padrão de baixíssimo dinamismo industrial antes mesmo do coronavírus justificam certa preocupação”.

·   A recuperação futura do setor estará condicionada, ainda na visão do instituto, a fatores “como o controle da pandemia, a reação da economia mundial (item obviamente fora do controle dos agentes brasileiros) e ao modo como serão retiradas as medidas emergenciais adotadas pelo governo no combate à crise”.

·   A extinção abrupta do auxílio emergencial ou sua redução a um terço do valor atual, conforme sugerido pela equipe econômica, tenderá a puxar o tapete de milhões de famílias que dependem desses recursos para apenas e somente assegurar sua sobrevivência, lançando a atividade econômica a uma crise de proporções ainda mais graves – e pior, agora sob o risco de uma convulsão social, já que o governo tem demonstrado extrema incapacidade de lidar com a crise sanitária, para dizer o mínimo.

·   Simulações não oficiais e ainda preliminares sugerem que o auxílio, recebido por quase 29,4 milhões de domicílios em junho (43,0% do total de domicílios), teria respondido por alguma coisa próxima a 16,0% da massa total de rendimentos efetivamente recebidos pelos trabalhadores. Seu fim traria uma retração proporcional para a renda das famílias, com impacto direto sobre o consumo, já que há baixas possibilidades de que o emprego venha a apresentar uma recuperação relevante até agosto, quando se enceraria o auxílio emergencial.

·   O cenário se agrava, retoma o Iedi, porque a indústria “pouco poderá contar com o setor externo para ganhar tração nos próximos meses”, pois o comércio internacional mantém-se “travado”, sob o impacto da pandemia em todo o mundo e ainda “sujeito a recentes tensões protecionistas” – vale dizer, até com acirramento das disputas entre EUA e a China, que protagonizam o que parece ser uma nova “guerra fria”, tendo como “campo de batalha” as novas tecnologias na área da comunicação.

·   Os dados do IBGE, mencionados pelo Iedi, mostram que o volume das exportações brasileiras de bens manufaturados caiu 13,1% em junho e despencou 19,0% no primeiro semestre, sempre em relação a idênticos períodos de 2019. Sem demanda doméstica e sem a opção do mercado internacional, torna-se mais complicada a situação da indústria.

 

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