27 de setembro de 2020
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“Ajuste” nas contas externas reflete os efeitos da crise no mercado interno

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 27 de setembro de 2020
O “ajuste” em curso neste ano, no entanto, pode ser classificado como “espúrio”, porque reflete predominantemente os efeitos negativos trazidos pela crise sanitária sobre o nível da atividade econômica| Foto: Reprodução

Pelo quarto mês consecutivo, a conta de transações correntes do País fechou no “azul”, numa tendência pouco usual, superada apenas pelo período entre 2003 e 2006, quando as estatísticas do Banco Central (BC) registram uma sequência de meses com saldos positivos nesta área. Em 2005, num exemplo, o saldo nas transações correntes foi positivo em todos os 12 meses. O bom desempenho do período foi impulsionado principalmente pelo avanço das exportações de mercadorias, que acumularam elevação de 128,2% em quatro anos, o que foi acompanhado por incremento de 91,6% nas importações. O saldo comercial, na medição feita pelo BC, saltou 274,5%.

O “ajuste” em curso neste ano, no entanto, pode ser classificado como “espúrio”, porque reflete predominantemente os efeitos negativos trazidos pela crise sanitária sobre o nível da atividade econômica. Antes de prosseguir, apenas para deixar o registro, a conta de transações correntes inclui exportações e importações de bens e mercadorias, despesas com serviços em geral, a exemplo de gastos com viagens internacionais, fretes, pagamento de royalties por uso de tecnologias importadas, aluguel de equipamentos, e ainda remessas de lucros e dividendos, entre outros itens.

Tudo considerado, em julho, o País registrou um saldo positivo de US$ 1,628 bilhão nessa conta, o melhor resultado para o mês desde julho de 2006, quando o superávit havia sido de US$ 3,007 bilhões.Nos sete meses iniciais deste ano, no entanto, numa tendência recorrente quando se trata do setor externo do País, o resultado ficou negativo em US$ 11,798 bilhões, num tombo de praticamente 62,0% em relação a igual período de 2019, quando o rombo havia atingido US$ 30,988 bilhões.

A queda, no entanto, veio acompanhada de uma retração 10,2% nas importações de bens (de US$ 105,848 bilhões para US$ 95,098 bilhões) e da redução de 41,4% nos gastos com serviços, que passaram de US$ 20,860 bilhões para US$ 12,232 bilhões.

Fuga de investimentos

Igualmente afugentado pela crise, o investimento direto no País caiu praticamente pela metade entre julho de 2019 e o mesmo mês deste ano, encolhendo de US$ 5,328 bilhões para US$ 2,685 bilhões – pior desempenho para um mês de julho desde 2016. Na recessão que ainda marcou aquele ano, saíram do País US$ 103,334 milhões na conta dos investimentos. Em sete meses, dólares de estrangeiros investidos no País somaram US$ 25,527 bilhões, o que se compara com US$ 36,475 bilhões no mesmo período de 2019, indicando baixa de 30,0%. Enganam-se aqueles que deixam levar pela verborragia do superministro. O investimento estrangeiro continua em baixa e a comparação trimestral parece ser a medida mais indicada para demonstrar isso.

Balanço

·   Entre maio e julho deste ano, o investimento direto no Brasil somou US$ 10,380 bilhões, o que representou queda de 26,4% em relação aos US$ 14,1 bilhões registrados nos mesmos três meses de 2019. Um dos problemas com esse tipo de estatística é que ela não consegue capturar o que de fato foi investido em expansão de fábricas, instalação de novas máquinas e equipamentos e na abertura de novas empresas, que poderiam ampliar a capacidade de produção em toda a economia, gerar mais empregos e renda.

·   O investimento em participação no capital, que poderia ser um indicador no sentido desejado, inclui a compra de ações ou de empresas inteiras por grupos estrangeiros, sem que isso represente o acréscimo de um mísero parafuso a mais na capacidade de produção doméstica. De qualquer forma, esse tipo de investimento caiu de forma ainda mais pronunciada, despencando de US$ 17,491 bilhões para US$ 7,429 bilhões nos três meses entre maio e julho deste ano – um tombo de 57,5%.

·   Na conta de serviços, o déficit (receitas menos despesas) desabou de US$ 10,047 bilhões entre maio e julho de 2019 para US$ 4,707 bilhões neste ano, encolhendo 53,2%. Ou seja, uma diferença a menor de US$ 5,340 bilhões. Essa “diferença” contribuiu para a troca de sinais na conta de transações correntes nos mesmos períodos, saindo de um déficit de US$ 14,323 bilhões para um saldo positivo de US$ 6,070 bilhões (uma “virada” equivalente a US$ 20,393 bilhões).

·   A balança comercial, considerando apenas exportações e importações de mercadorias, apresentou contribuição ligeiramente mais relevante. A diferença entre vendas e compras externas experimentou salto de 57,4% ainda entre os dois trimestres analisados, saindo de US$ 10,497 bilhões para US$ 16,527 bilhões (os números aferidos pelo BC diferem da estatística de comércio exterior divulgada pelo Ministério da Economia porque excluem mercadorias que deixam o País, mas não mudam de proprietário).

·   O salto no caso foi resultado muito mais de uma redução vigorosa das importações, que baixaram de US$ 47,902 bilhões para US$ 37,171 bilhões, registrando queda de 22,4%. As exportações recuaram 8,05%, de US$ 58,399 bilhões para US$ 53,699 bilhões.

·   Na conta de serviços, mais uma vez, o estrago produzido pela crise doméstica volta a ganhar destaque nos números que apontam retração de 37,4% nas despesas líquidas (quer dizer, gastos menos receitas) com frete, que baixaram de US$ 615,577 milhões para US$ 385,556 milhões, e viagens de negócios (onde o déficit desabou 91,5%, de US$ 955,124 milhões para US$ 80,977 milhões).

·   Os gastos líquidos com aluguel de equipamentos fabricados no exterior, na mesma linha, caíram 27,9%, de US$ 4,248 bilhões para US$ 3,064 bilhões.

·   As estatísticas do BC registram ainda a contribuição relevante da queda nas remessas de lucros e dividendos para a melhora no saldo da conta de transações correntes. Na soma de remessas relacionadas a lucros e dividendos gerados pelas assim chamadas atividades produtivas e àqueles produzidos na especulação com ações e títulos, esse tipo de despesa despencou praticamente 77,9% no trimestre maio a julho, caindo de US$ 8,522 bilhões em 2019 para US$ 1,885 bilhão neste ano (quer dizer, US$ 6,637 bilhões a menos, o que significou quase um terço do “ajuste” na conta de transações correntes em igual período).

 

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