28 de setembro de 2020
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Especulação turbina preços do milho, que sobem vigorosamente em agosto

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 28 de setembro de 2020
Numa nítida manobra especulativa, produtores, atravessadores e tradings têm retido o produto, causando alta acentuada num momento de procura mais intensa pelo grão no mercado interno| Foto: Reprodução

A perspectiva de safras recordes para milho e soja neste ano não foi suficiente para segurar os preços. No caso do milho, além da maior produção, o mercado tem sido pressionado pelo tombo nas exportações, que caíram quase pela metade em relação ao ano passado. Mesmo assim, numa nítida manobra especulativa, produtores, atravessadores e tradings têm retido o produto, causando alta acentuada num momento de procura mais intensa pelo grão no mercado interno. Apenas para reforçar, desde julho foram colhidas 74,9 milhões de toneladas na segunda safra de milho, o que significou 1,74 milhão de toneladas a mais do que no mesmo período do ano passado, numa produção recorde.

A soja segue trajetória inversa na área externa, com forte incremento dos embarques, liderados pela China, mas sustenta cenário semelhante em relação à oferta doméstica, que parece apresentar certa folga como decorrência de um aumento de pouco mais de 5,9 milhões de toneladas na produção colhida em 2020.Os levantamentos diários realizados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), apontam preços recordes ou próximos disso para o milho e a soja, com forte alta também para o arroz, reflexo, no caso, de uma demanda mais aquecida internamente e de uma produção virtualmente estagnada nos mesmos níveis desde o final dos anos 1990, como mostram os dados históricos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Os produtos de exportação, a exemplo da soja e do milho, têm recebido ainda o impulso da forte desvalorização do real frente ao dólar.

Nos dados do Banco Central (BC), a cotação da moeda norte-americana encerrou os primeiros 27 dias de agosto ao redor de R$ 5,46 na média do período, o que representou alta de 36,5% em relação ao mesmo mês do ano passado. Nas bolsas internacionais, os preços do milho e da soja em grão experimentaram forte recuperação depois de despencarem muito baixos por volta de março e abril deste ano, quando a safra brasileira estava desembarcando no mercado. Desde final de julho do ano passado, as cotações do milho chegaram a desabar 27,7%, atingindo 302,75 centavos de dólar por bushel no final de abril. Desde lá, no entanto, subiu 13,6% e chegou a 343,88 centavos ontem. Persistia, ainda, uma redução de 3,67% em relação ao mesmo período de 2019.

Para cima

Para a soja, a comparação anual mostra uma elevação de 9,53%, já que os preços para entrega futura do grão subiram de 859,00 centavos de dólar no final de agosto do ano passado para 940,88 centavos no fechamento de ontem. O preço externo do grão havia baixado 8,3% entre os últimos dias de julho do ano passado e o dia 16 de março deste ano, quando chegou ao seu nível mais baixo neste ano, para 824,62 centavos. Entre meados de março e o final de agosto, portanto, a cotação avançou 14,1%. Na comparação entre julho e agosto deste ano, a soja subiu 4,5% no mercado internacional, diante de uma alta de 5,8% para o milho.

Balanço

·   De acordo com o Cepea, os dados parciais de agosto, fechados até a sexta-feira passada, mostravam que os preços da soja em grão continuavam “renovando as máximas nominais” aqui dentro. O indicador criado pelo centro de pesquisas apontava, até ali, alta de 11,5% no mês, com a saca de 60 quilos atingindo R$ 132,80 em Paranaguá (PR). A valores não atualizados pela inflação, a cotação marcou novo recorde nominal em toda a série do Cepea, iniciada em março de 2006.

·   Atualizado com base no Índice Geral de Preços (IGP-DI) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o recorde foi registrado em setembro de 2012, quando o preço médio mensal alcançou R$ 139,20 por saca.

·   Na média observada no Paraná, de acordo ainda com o Cepea, o indicador anotou elevação de 13,9% frente à média registrada em julho, com a saca alcançando R$ 126,96. Um recorde nominal e, em termos reais (quer dizer, descontada a inflação), a cotação mais elevada desde setembro de 2012, quando a média mensal fechou em R$ 132,95. A despeito da valorização recente, os preços reais da saca de soja continuam abaixo do recorde de R$ 149,71 observado, para o Estado, em outubro de 2002.

·   Além da desvalorização da moeda brasileira diante do dólar, o que torna a soja proporcionalmente mais barata para compradores estrangeiros, a procura doméstica pelo grão mantinha-se firme, segundo a equipe de pesquisadores do Cepea. Neste cenário, começaram a ser registrados negócios envolvendo a venda antecipada de soja para entrega entre fevereiro e julho de 2022. Para os pesquisadores, esta seria uma ocorrência inédita no mercado da oleaginosa.

·   Em Mato Grosso, pouco mais de metade da safra de soja esperada para 2021 já havia sido comercializada. Neste mês, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) registrou a venda antecipada de 50,52% da produção prevista para 2020/21.

·   O indicador da Esalq para o milho apontou salto de 17,35% para os preços do grão em agosto na região de Campinas (SP), mesmo com a colheita da segunda safrapraticamente concluída, o que significou a entrada de 74,9 milhões de toneladas no mercado – um recorde histórico. O valor médio da saca do grão registrou R$ 59,60 no dia 21 passado, aproximando-se do valor real observado em março deste ano (R$ 60,36). Também em valores corrigidos pelo IGP-DI, o recorde foi alcançado em dezembro de 2007 (R$ 73,20 a preços de hoje).

·   No caso, de acordo com o Cepea, houve um movimento de retenção da produção pelos vendedores, que têm evitado fechar negócios à espera de maior alta para o grão, num nítido movimento especulativo num momento de maior procura por indústrias de ração e produtores de aves e suínos.

 

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