22 de julho de 2019
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coluna Econômica

Crédito rural perde relevância e deixa de contratar R$ 143,4 bilhões em três safras

Publicado por: Lauro Veiga Filho / Postado em 22 de julho de 2019
o balanço das contratações realizadas no ano agrícola 2018/19, o volume tomado pelos produtores, incluindo na conta os agricultores familiares, girou em torno de R$ 175,8 bilhões

Além de apresentar crescimento modestíssimo no ano safra 2018/19, encerrado em junho deste ano, o crédito rural tem perdido relevância a cada ciclo como fonte de recursos para o setor agropecuário. Na verdade, toda a política de crédito rural deveria passar por uma reforma extensa, de forma a contemplar as necessidades reais de financiamento do setor, o que inclui a própria agricultura familiar. A intenção já antecipada de retirada do setor financeiro público do crédito em geral e do financiamento para o campo, particularmente, não deverá significar uma solução efetiva para o setor, que merece políticas diferenciadas, de resto, em todo o mundo (basta relembrar a extrema dificuldade de avançar nas negociações agrícolas com a União Europeia em função da proteção assegurada pelos governos do bloco europeu a seus agricultores).

A perda de relevância está explícita nos números oficiais, como se pode observar no relatório liberado ontem pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). No balanço das contratações realizadas no ano agrícola 2018/19, o volume tomado pelos produtores, incluindo na conta os agricultores familiares, girou em torno de R$ 175,8 bilhões, num avanço de meros 3,7% frente aos R$ 169,5 bilhões contratados na safra anterior. O avanço nominal mal consegue repor a inflação do período, o que pode ser tomado como um desempenho tímido, se não decepcionante (mesmo assim, recebeu tratamento festivo pelo ministério).

Não seria mesmo o caso de celebrar, até porque o valor contratado ficou novamente abaixo do total de recursos reservados no plano agropecuário para a safra recém-concluída. Tem sido uma constante nesta área há décadas, com raras exceções que apenas tornam mais evidente a tendência mais geral. Nas três últimas safras, os produtores deixaram intocados algo como R$ 143,4 bilhões, o que corresponde a dois terços de todo o orçamento destacado para financiar a safra de 2018/19, próximo a R$ 217,7 bilhões.

À espera de reformas

Parece óbvio, portanto, que há problemas no setor e estes não se limitam ao tamanho dos orçamentos fixados a cada safra (que, por sinal, avançaram muito pouco nos últimos anos). Se os recursos praticamente não crescem (ou crescem muito moderadamente, numa versão mais fidedigna) e ainda sobram ao final de cada safra, enquanto o setor recorre crescentemente a outros arranjos para financiar o plantio e a comercialização das colheitas, será preciso pensar em novas formas de financiar a agropecuária. Resta saber se há disposição dentro do governo para enfrentar a empreitada, conferindo maior capilaridade ao crédito e melhor distribuição, a custos adequados diante dos riscos a que naturalmente a agricultura se sujeita.

Balanço

·   No ciclo 2016/17, na soma da chamada agricultura “empresarial” e agricultura familiar (Pronaf), o campo teve à sua disposição perto de R$ 209,9 bilhões e contratou R$ 154,1 bilhões, deixando uma “sobra” de R$ 55,8 bilhões.

·   Na safra seguinte, o orçamento definido para o plano agropecuário foi elevado para R$ 215,3 bilhões, mas “apenas” R$ 169,5 bilhões foram sacados pelos produtores, que deixaram para trás perto de R$ 45,8 bilhões.

·   O governo passado havia definido um total de R$ 217,7 bilhões para o ciclo 2018/19 e, de novo, houve sobra de recursos, já que as contratações atingiram R$ 175,8 bilhões. Ficaram estacionados nos bancos alguma coisa ao redor de R$ 41,7 bilhões. Em apenas duas safras, foi como se os produtores não tivessem utilizado metade de todo o orçamento anual definido para o campo.

·   As linhas de investimento novamente foram destaque, com alta de 8,9% entre as safras 2017/18 e 2018/19. Os valores contratados subiram de R$ 40,069 bilhões para R$ 43,629 bilhões, representando 84,7% do volume de recursos disponível (R$ 51,511 bilhões).

·   A disposição para investir foi maior entre pequenos (+17%) e grandes produtores (+16%). Entre os médios, o investimento desabou 67%.

·   O crédito para custeio, comercialização e industrialização da safra avançou meros 2,25% (quer dizer, houve recuo em termos reais), saindo de R$ 129,452 bilhões para R$ 132,371 bilhões).

·   As contratações de recursos a juros subsidiados (controlados) encolheram 5,2% de R$ 128,324 bilhões para R$ 121,604 bilhões, enquanto o crédito a taxas de mercado aumentou pouco mais de 32%, saltando de R$ 41,197 bilhões para R$ 54,397 bilhões.

 

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