22 de agosto de 2019
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coluna Econômica

O “efeito Argentina” sobre as exportações do Brasil e sobre a produção da indústria

Publicado por: Lauro Veiga Filho / Postado em 22 de agosto de 2019
Efeitos da crise argentina já têm sido percebidos por aqui, especialmente na queda das vendas externas de automóveis de passeio.

Em meio ao clima de “terrorismo econômico” abertamente fomentado pelos mercados (não sem a contribuição insana de seu vizinho mais à direita), a economia argentina parece se desfazer mais uma vez. Na verdade, a crise vem de antes, muito antes, aliás, de serem abertas as urnas das eleições primárias, que indicaram evidente favoritismo da chapa de oposição às próximas eleições naquele país. Seus efeitos já têm sido percebidos por aqui, retratados na queda das exportações e, em especial, no tombo observado nas vendas externas de automóveis de passeio, com impactos diretos sobre a produção industrial brasileira.

Esse desempenho muito negativo explica, ainda que parcialmente, a apatia revelada pela produção industrial nos últimos meses, com novo esfriamento observado nos dados mais recentes da pesquisa mensal da produção industrial conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nada sugere que a atividade econômica na Argentina venha a oferecer alguma forma de refresco daqui para frente. Pelo contrário, as expectativas são de nova retração no Produto Interno Bruto (PIB).

Como recapitula Bráulio Borges, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV)e economista-sênior da área de macroeconomia da LCA Consultores, o colapso econômico da Argentina pegou os mercados – que apostavam nas políticas liberalizantes e de austeridade fiscal do governo Macri – de calças nas mãos. “Para se ter uma referência, até abril ou maio do ano passado, as projeções de consenso indicavam crescimento de 3,0% para a economia argentina em 2018 e algo perto desse mesmo percentual em 2019. Ao final, o PIB mergulhou 2,5% no ano passado e deve cair em torno de 1,5% neste ano”, afirma Borges.

Na mesma linha, Leonardo Costa, da LCA Consultores, afirma que “a marcante piora econômica argentina teve influência nada desprezível na frustração do crescimento doméstico em 2018 e continua a representar um fator de contenção da atividade neste ano”. Ele pondera, no entanto, que a deterioração progressiva das expectativas econômicas domésticas ao longo do primeiro semestre “parece mais associada a fatores internos do que a fatores externos à nossa conjuntura”.

Área externa

De acordo com Borges, praticamente um quarto das exportações brasileiras de produtos manufaturados e 79% das vendas externas de automóveis tiveram o mercado argentino como destino até o ano passado. Os dados sofreram alterações neste ano, sempre para baixo, mas continuam refletindo uma dependência relativamente elevada da indústria automobilística do Brasil em relação ao mercado argentino, obviamente quando se consideram as vendas externas do setor. Entre janeiro e julho deste ano, as vendas de automóveis de passageiros produzidos aqui dentro para o exterior sofreram baixa equivalente a um terço, aproximadamente, saindo de US$ 3,40 bilhões em 2018 para pouco mais de US$ 2,30 bilhões (mais precisamente, uma retração de 32,3%, com perdas de algo em torno de US$ 1,10 bilhão).

Balanço

·   A Argentina desempenho papel decisivo naqueles resultados. Nos primeiros sete meses do ano passado, o país vizinho foi destino de 78,72% de toda a exportação brasileira de automóveis, somando US$ 2,677 bilhões. Mas o número murchou para US$ 1,339 bilhão no mesmo período deste ano, num tombo de praticamente 50% (US$ 1,338 bilhão a menos). Isso representou 58,21% das exportações totais de automóveis de passageiros pelo Brasil.

·   Na soma de todos os produtos exportados pelo País, embora a participação argentina tenha se limitado a 4,6% no acumulado entre janeiro e julho, a contribuição negativa, no caso, foi bem mais relevante. Entre 2018 e 2019, sempre considerando o mesmo intervalo, as exportações brasileiras sofreram baixa de 4,65%, saindo de US$ 136,342 bilhões para US$ 130,0 bilhões, em números redondos.

·   O Brasil deixou de exportar algo como US$ 6,342 bilhões, como mostram aqueles dados. As vendas para a Argentina desabaram 40% na mesma comparação, baixando de US$ 9,977 bilhões (7,32% do total exportado pelo País) para US$ 5,986 bilhões (4,60% do total). Neste caso, as perdas atingiram pouco mais de US$ 3,991 bilhões, o que correspondeu a 62,9% da redução acumulada pelo total das exportações brasileiras no período.

Uma parcela relativamente grande dessa queda veio das exportações somadas de automóveis de passageiro, veículos de carga, tratores, motores, partes e peças para veículos e pneus. A retração nesta área chegou a 51,55%, com as exportações encolhendo de US$ 4,737 bilhões para US$ 2,295 bilhões (ou seja, praticamente US$ 2,442 bilhões a menos, o que explicou 61,17% da redução anotada pelo total das exportações brasileiras para aquele mercado). 

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