15 de setembro de 2019
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coluna Econômica

Uma leitura enviesada dos dados regionais

Publicado por: Lauro Veiga Filho / Postado em 15 de setembro de 2019
Economistas, consultores e analistas em geral buscam desagregar dados econômicos para oferecer uma visão mais precisa e acurada da conjuntura

Economistas, consultores e analistas em geral buscam desagregar dados econômicos para oferecer uma visão mais precisa e acurada da conjuntura, de forma a embasar prognósticos que tenham um mínimo de consistência (ainda que previsões e apostas no futuro, como é da natureza das projeções em geral, sejam uma atividade de alto risco, muito especialmente quando economistas, consultores e analistas são “externamente motivados”, quer dizer, orientam suas análises segundo interesses de grupos ou de setores específicos).

Por isso, causam certa estranheza as conclusões expressas pelo Banco Central (BC) na mais recente edição de seu boletim regional, divulgado na sexta-feira passada, 16. Não pelos números trazidos pelo relatório, mas pela leitura um tanto enviesada feita pela autoridade monetária acerca dos dados regionais compilados pela própria instituição. Parece mais um caso em que o todo supera a soma das partes.

Diz o BC, já na abertura do boletim: “A evolução dos indicadores de atividade sugere possibilidade de retomada do processo de recuperação da economia”. Uma recuperação intuída, ao que parece, do mero fato de que a atividade econômica já teria enfrentado um período suficientemente longo de baixo crescimento e frustração de expectativas que, daqui em diante, ela somente poderia crescer – o que parece ser mais um desejo do que uma perspectiva concreta.

Não por isso, na sentença seguinte, prossegue o boletim: “Regionalmente, observou-se, na margem, maior convergência nas trajetórias de indicadores de atividade no curto prazo, refletindo processo generalizado de acomodação. Nesse cenário, a economia em todas as regiões segue operando com alto nível de ociosidade dos fatores de produção e diversas medidas de inflação subjacente se encontram em níveis confortáveis”. Traduzindo: a economia nas regiões brasileiras parou de crescer (acomodou-se, na retórica do BC) e aponta número alto de máquinas paradas nas fábricas e níveis elevados de desemprego, tanto que a inflação continua muito bem-comportada.

Assim é se lhe parece

Seria possível inferir, a partir daquele segundo postulado, que, se as economias regionais pararam de crescer, a ociosidade nas indústrias é alta e milhões de trabalhadores não conseguem emprego (ou tratam de sobreviver na economia informal, sem qualquer proteção nem direitos trabalhistas) que a economia brasileira vai igualmente mal, sem melhora nas perspectivas para o curto e médio prazos. Mas, como visto, não é esta a avaliação apresentada pelo BC. Pior: é esta avaliação que tem sido um dos pontos alegados pela instituição para demorar mais do que o desejável para iniciar a nova rodada de cortes nos juros básicos e ainda sugerir que aquelas taxas demorarão ainda para atingir os níveis que até o mercado (ora vejam) considera “razoáveis” diante da estagnação no lado real da economia.

Balanço

·   O índice de atividade desenvolvido pelo BC para funcionar como uma espécie de “indicador antecedente” do Produto Interno Bruto (PIB) apresentou franca desaceleração entre os trimestres encerrados em fevereiro e maio, recuando respectivamente 0,1% e 1,0% na média de todo o País (o que não parece um indício de crescimento à frente).

·   As únicas exceções, se é que se pode aplicar esse tipo de classificação quando se tratam de números tão baixos, ficam por conta das regiões Sul e Nordeste (neste caso, com muita complacência). Na primeira região, o índice saiu de um recuo de 0,2% para um avanço muito moderado de 0,2% entre os trimestres terminados em fevereiro e maio deste ano.

·   A economia nordestina, que havia encolhido 0,5% no trimestre entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, sofreu recuo em ritmo menos intenso, de 0,2%, no trimestre entre março e maio deste ano.

·   No Norte do País, a economia deixou para trás uma elevação de 1,0% e passou a apresentar recuo de 0,3% naqueles mesmos trimestres. O Centro-Oeste, que já havia avançado apenas 0,1%, caiu 0,5%. No Sudeste, que concentra a maior fatia do PIB nacional, a atividade econômica passou de um incremento de 1,1% para quase estagnação no trimestre março-maio de 2019, numa variação de 0,1% frente aos três meses imediatamente anteriores.

·   A taxa de desemprego avançou em todas regiões entre o último trimestre de 2018 e o primeiro deste ano, saindo de 11,7% para 13,1% no Norte; de 14,3% para 15,3% no Nordeste; de 8,5% para 10,8% no Centro-Oeste; de 12,1% para 13,2% no Sudeste; e de 7,3% para 8,1% no Sul (a mais baixa entre as regiões).

A produção industrial desabou 9,1% no Norte, caiu 1,2% no Nordeste e 1,3% no Centro-Oeste, recuando 0,3% no Sudeste. Em outra exceção, o Sul anotou crescimento de 2,1% (sempre na comparação entre o trimestre março-maio deste ano e o trimestre anterior). 

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