20 de setembro de 2019
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coluna Econômica

Produção brasileira de potássio desaba 48% e agrava dependência a importações

Publicado por: Lauro Veiga Filho / Postado em 20 de setembro de 2019
Desde o começo da década, a importação aumentou 74,0%, saltando de 6,040 milhões para 10,507 milhões de toneladas (8,76% a mais do que em 2017). Foto: Divulgação

Num momento de relações comerciais conflituosas entre as duas maiores economias do planeta e de tensões geopolíticas acirradas por impropérios e agressões gratuitas disparadas pelo ocupante de ocasião da cadeira presidencial, com nítido viés ideológico, as ameaças ao agronegócio não estão associadas apenas a eventuais bloqueios comerciais. Como assinalado em trabalhos e pesquisas diversas, o salto na produção brasileira de grãos nas últimas décadas deveu-se, em larga medida, ao uso mais intensivo de tecnologia, refletido, por exemplo, no consumo recorde de fertilizantes ao longo da década.

Nesse “pacote”, o potássio cumpre papel estratégico nos ganhos de produtividade operados pelo campo e, nesta área, a apelo a ataques ideológicos poderá render muito mais do que apenas dissabores ao País. Há uma delicada questão geopolítica por trás da produção e oferta globais do mineral, já que as maiores reservas estão concentradas na Bielorrússia, Rússia e no Canadá –países que concentram praticamente todo o comércio mundial de potássio. E o Brasil não só é o segundo maior consumidor, mas também o primeiro importador de cloreto de potássio, assinala Cristiano Veloso, dono da Verde AgritechPlc., empresa brasileira criada por ele na Inglaterra em meados da década passada e listada na Bolsa de Valores de Toronto desde 2007.

No ano passado, a produção brasileira de cloreto de potássio destinado à adubação dos solos sofreu baixa de 29,05%, caindo de 484,877 mil para 343,996 mil toneladas, o que representou ainda um tombo de 48,21% na comparação com 2010 (quando o País chegou a produzir 664,214 mil toneladas, segundo estatísticas da Associação para a Difusão de Adubos). Desde o começo da década, a importação aumentou 74,0%, saltando de 6,040 milhões para 10,507 milhões de toneladas (8,76% a mais do que em 2017). A relação entre a produção doméstica e o consumo, que havia alcançado 10,5% em 2010, baixou para 5,8% em 2015 e despencou para apenas 3,5% no ano passado, tornando ainda mais evidente a extrema dependência brasileira nesta área.

Esses “comunistas”...

Estima-se que a Rússia responda por pouco mais de 40% do suprimento do fertilizante para o Brasil. “Se os russos decidirem restringir a oferta ou elevar o preço do potássio, o Brasil para”, afirma Veloso, no que pode parecer mesmo certo exagero retórico. Na verdade, os riscos de uma queda vertiginosa nas produtividades médias das lavouras, na hipótese de um bloqueio russo, não deveriam ser menosprezados. “O potássio é uma commodity estratégica e, na sua ausência, as produtividades todas iriam para baixo”, reforça. Não deixa de haver alguma ironia em tudo isso, considerando-se o atual momento político no Brasil e os frequentes ataques desferidos contra tudo que possa ser identificado minimamente como algo “de esquerda”. 

Balanço

·   O consumo de cloreto de potássio alcançou nova marca histórica no ano passado ao se aproximar de 9,801 milhões de toneladas, num avanço de 3,08% em relação a 2017, quando as entregas do fertilizante ao consumidor final haviam atingido 9,508 milhões de toneladas.

·   Desde o começo da década, enquanto a produção interna despencava, as entregas acumularam um avanço de 55,37% (saindo de 6,308 milhões de toneladas em 2010).

·   As despesas com importações do cloreto de potássio cresceram proporcionalmente menos, em função da queda dos preços internacionais do minério, especialmente após o colapso do mercado internacional, em 2013, com o fim do cartel formado pelas empresas Uralkali, da Rússia, e Belaruskali, da Bielorrússia, que juntas respondiam por quase metade do comércio global de fertilizantes potássicos.

·   Entre 2010 e 2018, as importações cresceram de US$ 2,204 bilhões para US$ 3,095 bilhões, num avanço de 40,45%. Os preços médios de importação, ao contrário, encolheram praticamente 41% nos mesmo intervalo.

·   No ano passado, na comparação em 2017, no entanto, os preços voltaram a subir, em alta de quase 19%, o que fez a despesa com importações avançar 29,4% (saindo de US$ 2,392 bilhões).

·   Há outro fator estratégico no setor, o que torna o balanço entre oferta e demanda mais delicado. A partir de 2014, por conta do bloqueio econômico promovido pelas potências ocidentais, lideradas pelos Estados Unidos, numa reação internacional à intervenção Russa na Ucrânia, a agricultura russa passou a assegurar a autossuficiência alimentar do país, tornando a Rússia ainda em exportadora líquida de grãos para o resto do mundo.

·   Os russos são atualmente os maiores exportadores globais de trigo, com produção estimada neste ano em 81,0 milhões de toneladas, das quais 37,8 milhões deverão ser destinadas ao mercado externo. Essa autossuficiência assegura aos russos uma posição estratégica no tabuleiro global. 

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