13 de novembro de 2019
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coluna Econômica

Mais pobres ampliam dependência de doação e produção própria para assegurar a renda

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 13 de novembro de 2019
Coluna jornalista Lauro Veiga Filho

A participação de doações, da produção própria e de trocas de bens e produtos no rendimento total das famílias com renda de até dois salários mínimos (R$ 1.908 a valores de 2018) avançou de 20,6% para 27,5% no intervalo entre as edições de 2007/2008 e 2017/2018 da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). Os números, divulgados no início do mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram uma perda relativa de importância dos rendimentos do trabalho na renda total daquelas famílias, com sua fatia sendo reduzida de 54,9% para 46,8%.

Em parte por efeito da crise que atingiu em cheio o mercado de trabalho e fez disparar o desemprego, essa redução proporcional deixou as famílias com rendimentos de até dois salários mais dependentes de programas sociais de transferências de renda (que incluem programas sociais dos governos, aposentadorias e pensões, entre outras formas de transferência) e do que o IBGE classifica como “rendimentos não monetários” – ou seja, toda e qualquer forma de renda assegurada por trocas (de serviços e produtos), doações (nem sempre em dinheiro vivo) e a produção (geralmente de alimentos) para o próprio sustento.

A mudança pressupõe um aumento na insegurança física e emocional daquelas famílias, diante das incertezas trazidas pelos novos formatos de rendimento definidos em boa parte pela crise recente, além de um empobrecimento relativo, levando consequentemente a uma menor propensão a assumir riscos e compromissos com despesas adicionais. Um temor certamente agravado pela dificuldade de retornar ao mercado de trabalho e pelo desemprego ainda acima dos números observados antes da crise.

O lado mais positivo

O dado positivo na comparação entre as duas mais recentes edições da POF está no aumento nominal mais vigoroso no rendimento total das famílias com renda de até dois salários mínimos. Na média geral, o rendimento médio de todas as famílias goianas aumentou 121,5% entre aqueles dois períodos, saindo de R$ 2.485 para R$ 5.503,99. A variação, que não desconta o efeito da inflação sobre a renda, foi mais intensa entre as famílias com ganhos mensais de até dois salários mínimos. Neste caso, o rendimento médio por família avançou de R$ 567,34 para R$ 1.332,87, num avanço de 134,9%. Para as famílias com rendimento médio acima de 25 salários mínimos (mais de R$ 23.850), a renda média avançou 81,5% (de R$ 21.940,41 para R$ 39.823,24 por mês). O desempenho mais recente da economia sugere que essa diferença entre as duas classes de renda familiar deve ter sido construída durante os anos de bonança na economia, quando os indicadores de emprego e renda foram mais favoráveis.

Balanço

·   A contribuição dos rendimentos não monetários parece ter sido mais decisiva para a variação mais intensa no rendimento médio das famílias de mais baixa renda. Na média, sempre de acordo com os dados da POF, a renda atribuída a doações e à produção para o próprio consumo saltou 216% em uma década, saindo de R$ 116,89 para R$ 367,11 ao mês.

·   Para comparação, o rendimento médio do trabalho, ainda entre famílias com ganhos mensais de até dois salários mínimos, anotou incremento de 100,2% ao avançar de R$ 311,50 para R$ 623,72.

·   No lado mais rico, reunindo 45.104 famílias, os rendimentos assegurados pela “variação patrimonial” (venda de imóveis, heranças, ganhos com aplicações financeiras) quase três vezes, subindo de R$ 2.962 para R$ 8.766, num aumento de 196%. Sua participação na renda total dessas famílias cresceu de 13,5% para 22,0%.

·   Os rendimentos do trabalho cresceram mais modestamente, apresentando variação de 84% (de R$ 13.887 para R$ 25.555, em valores arredondados). Sua participação no total igualmente cresceu de 63,3% para 78,0%.

·   Entre as famílias com rendimentos de até dois salários, a participação somada das transferências de renda e de rendimentos não monetários superou a metade da renda total média, subindo de 44,7% para 50,7%. Para as famílias de renda mais alta, considerando as mesmas fontes, a participação caiu de 20,7% para 11,5% – especialmente porque as aposentadorias e pensões perderam importância relativa, saindo de 15,6% para 5,3%.

·   Embora a renda média dos menos favorecidos tenha apresentado maior variação no intervalo analisado, a má distribuição dos rendimentos continua sendo uma chaga. No período 2017/2018, 18,1% das famílias goianas tinham rendimento de até dois salários mínimos e receberam apenas 4,4% da renda total. Na pesquisa anterior, as famílias de baixa renda respondiam por 22,7% do total de famílias e tiveram 5,2% dos rendimentos totais.

Na edição de 2007/2008, a pesquisa mostrou que 2,2% das famílias tinham rendimento médio acima de 25 salários mínimos, mas abocanhavam 19,4% da renda total. Uma década depois, apenas 1,92% das famílias passaram a receber 13,9% da renda. 

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