13 de novembro de 2019
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coluna Econômica

O Brasil que dá certo e ainda consegue produzir inovação(com apoio público)

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 13 de novembro de 2019
Ideia inicial foi motivada pela publicação de um relatório setorial do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre o setor de biomassa

A ideia inicial foi motivada pela publicação de um relatório setorial do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre o setor de biomassa, nos tempos em que a instituição ainda conseguia pensar o País e os diversos setores da economia numa visão de mais estratégica e de longo prazo. A partir dali, o doutor em química analítica e ambiental Luiz Fernando Mendes e o sócio Leonardo Zambotti Villela, mestre em biotecnologia, decidiram apostar no conceito de microbiorrefinaria destinada à produção de bioprodutos a partir de resíduos da produção agrícola, criando em março de 2014 a Bioativos Naturais.

A empresa surgiu como incubada dentro do Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), entidade gestora da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de São Paulo da Universidade de São Paulo (USP/Ipen). A ideia era processar biomassas renováveis, incluindo microalgas, para a obtenção de bioprodutos de alto valor agregado, utilizando tecnologia de fluidos sub e supercríticos integrados. A técnica, na verdade, foi desenvolvida na Alemanha ainda nos anos 1970, mas vinha sendo aplicada apenas em plantas de grande porte, com custos mais altos.

Quando qualquer substância é submetida a pressão e temperaturas elevadas, ela atinge o que se chama na química de estado supercrítico, quando não há mais distinção entre as fases líquida e gasosa. Os equipamentos disponíveis para isso, todos estrangeiros, relata Mendes, custariam em média R$ 4,8 milhões, tornando economicamente inviável o escalonamento do projeto. Por isso, os dois cientistas começaram a pesquisar, buscaram a ajuda da professora Maria Ângela Meireles, da Unicamp, hoje sócia da Bioativos, e desenvolveram o equipamento que tornou possível colocar o projeto de pé. Tudo isso com apoio e recursos do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Apoio à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do edital Sesi Senai de Inovação. No total, a empresa recebeu uma injeção de quase R$ 4,0 milhões nos últimos quatro anos.

Bioprodutos

Atualmente, a empresa está instalada em uma área de 1,0 mil metros quadrados em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, onde está também o seu centro de pesquisa, desenvolvimento e inovação.A tecnologia desenvolvida pelo grupo permite processar mais de 20 tipos de biomassa e a primeira fornada de bioprodutos deve chegar ao mercado em 2020, a partir do tratamento e processamento de algas, gengibre, lúpulo, camomila, bagaço de cana, cravo, café verde, cebola e cúrcuma (açafrão), entre várias outras biomassas. Mendes destaca que a ideia é trabalhar com matérias primas que não são aproveitados pelo agronegócio, de forma a não influir nos preços especialmente de produtos destinados à alimentação, de forma a “atender ao conceito da nova bioeconomia, que é a economia pós-petróleo”.

Balanço

·   A planta da Bioativos passará a oferecer bioprodutos a indústrias dos setores de alimentação e bebidas, química fina e fármacos e também de cosméticos, obtidos a partir de um processo sustentável, que não gera resíduos e, portanto, não agride o meio ambiente.

·   Com uso de gás carbônico como solvente líquido (em regime de circuito fechado, o que significa dizer que o CO2 será reutilizado no processo e não retornará à atmosfera), água e etanol, num sistema de temperatura e pressão controladas, a empresa produzirá óleos vegetais, incluindo desde aromas para aplicação na indústria de perfumes, óleos essenciais, uma resina especial extraída do lúpulo, que permitirá reduzir os custos de produção de cervejas artesanais e também da bebida industrializada.

·   As microalgas, que consomem parte do CO2, permitirão a extração de bioprodutos de alto valor comercial, a exemplo de ácidos graxos, carotenoides e astaxantina, proteínas, aminoácidos e carboidratos.

·   As pesquisas realizadas pelo time da Bioativos permitiram ainda desenvolver um meio de cultura inovador e de custo baixo para a criação de microalgas, que acelera seu crescimento. Esse meio está sendo patenteado pela empresa e pela Fapesp, que apoiou todo o processo também nesta fase.

·   A intenção não é produzir microalgas, mas licenciar, por meio de contrato e compromisso de sigilo, para que outras empresas, talvez alemãs ou israelenses, produzam a biomassa que entrará no processo da Bioativos como matéria prima.

Isso deverá acelerar a produção de astaxantina, o mais poderoso antioxidante presente na natureza, de acordo com Mendes, mas vendida a preços que se aproximam de US$ 10,0 mil o quilo. Além disso, perto de 99% do produto hoje disponível no mercado utiliza derivados de petróleo como matéria prima, inclusive na astaxantina utilizada em criatórios de salmão – é a substância que assegura a cor tradicional do peixe.

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