10 de dezembro de 2019
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coluna Econômica

Bancos e empresas podem gastar quase R$ 21,4 bilhões a mais com dívida externa

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 10 de dezembro de 2019
Por Lauro Veiga. / Foto: Reprodução.

O impacto da desvalorização recente do real frente ao dólar tende a ampliar os desembolsos de bancos e empresas no próximo ano para amortizar a dívida externa a vencer no período. Ao longo de 2020, aqueles setores da economia terão que amortizar alguma coisa ao redor de US$ 72,154 bilhões, de acordo com previsões do Banco Central (BC), dos quais US$ 13,050 bilhões devidos pelos bancos, mais US$ 24,106 bilhões na conta das empresas (privadas e públicas) e outros US$ 34,998 bilhões relativos a operações realizadas entre empresas (geralmente de um mesmo grupo econômico).

Considerando uma taxa de câmbio média na faixa de R$ 4,14 nos primeiros 26 dias deste mês, com base no acompanhamento diário feito pelo BC, as amortizações poderão consumir qualquer coisa em torno de R$ 298,67 bilhões do caixa disponível de bancos e empresas. Na média dos cinco primeiros meses deste ano, quando a cotação do dólar girou ao redor de R$ 3,84, o desembolso poderia ter sido praticamente R$ 21,4 bilhões mais baixo. Dito de outra forma, o gasto em reais com as amortizações da dívida em dólar tende a ser 7,7% mais elevado, se mantida a cotação média do dólar observada até aqui.

Obviamente, parte dessas operações poderá ser “rolada”, quer dizer, “adiada” mais para frente, por meio da troca de dívida “velha” por outra mais nova e de maior prazo. Isso com certeza aliviaria as pressões sobre o caixa de bancos e empresas. Como exercício matemático, no entanto, aquele tenderia a ser o impacto sobre o caixa nos 12 meses do próximo ano. Além disso, a boa gestão financeira recomenda que operações contratadas em moeda estrangeira estejam devidamente cobertas pela contratação de “hedge” (proteção, literalmente). Mas, em tempos de dinheiro muito barato no exterior e possibilidades de ganhos aqui dentro(agora muito menores, devido à redução na diferença entre os juros internos e externos), nunca se é possível saber o tamanho dos riscos e da exposição assumida por aqueles setores em relação a compromissos internacionais.

Incerteza, a regra desse jogo

Note, raro leitor e rara leitora, que a coluna não utilizou o câmbio do dia para fazer esse tipo de cálculos, lembrando que a moeda norte-americana fechou a terça-feira muito próxima de R$ 4,24 (“recorde” nominal, como tem insistido a grande imprensa). Isso porque não faria muito sentido levar em consideração o “preço” do dólar em uma única rodada de transações nos mercados à vista e futuro para projetar como seus pagamentos serão afetados um ano à frente. Na média das “apostas” do mercado, bancos e corretoras projetam uma cotação em torno de R$ 4,00 por dólar no próximo ano. A se confirmar, o custo das amortizações em reais ficaria muito próximo dos valores estimados tomando como referência a taxa de câmbio média observada entre julho e novembro deste ano (R$ 4,02), mas ainda acima dos R$ 277,28 bilhões calculados com base na cotação média observada entre janeiro e maio passados (numa conta aproximada, perto de R$ 12,8 bilhões a mais). Ainda assim, previsões sobre o câmbio são, na maioria das vezes, complicadas quando não impraticáveis dado o tamanho das incertezas à frente.

Balanço

·   Embora o Brasil caminhe para anotar um déficit próximo a 3,0% do Produto Interno Bruto (PIB) nas transações com o restante do mundo neste ano, retornando aos níveis de 2015, a dívida externa bruta (se descontar as reservas internacionais, que continuam a superar o tamanho dessa dívida) tem se comportado modestamente. O saldo da dívida saiu de US 320,612 bilhões em dezembro de 2018 para US$ 326,842 bilhões em outubro, na previsão do BC, indicando variação de 1,94%.

·   Mas a dívida de curto prazo, a vencer em 12 meses, apresentou elevação de 9,8% no mesmo período, passando de US$ 66,844 bilhões para US$ 73,386 bilhões – um incremento explicado pelo maior “apetite” dos bancos pela contratação de empréstimos de curto prazo no mercado internacional.

·   De fato, a dívida de curto prazo do setor financeiro nacional (excluído o BC) saltou 20,7% desde dezembro passado, avançando de US$ 50,618 bilhões para US$ 61,095 bilhões, o que significou 81,1% de toda a dívida de curto prazo contratada pelo Brasil.

·   Diante dessa evolução mais recente, os compromissos de curto prazo passaram a responder por 22,45% da dívida externa bruta, o que se compara com 20,85% em dezembro de 2018 e 16,2% no fechamento de 2017.

·   A dívida total dos bancos aumentou 23,6% neste ano, até outubro, subindo de US$ 102,272 bilhões para US$ 126,453 bilhões, pressionada igualmente pelo incremento de 26,5% no saldo dos compromissos de longo prazo contratados pelo setor financeiro (que foram elevados de US$ 51,654 bilhões para US$ 65,358 bilhões).

·   Em sentido contrário, os demais setores da economia, incluindo empresas dos setores público e privado, reduziram a dívida total em 16,2%, de US$ 143,221 bilhões para US$ 120,075 bilhões (um “ajuste” de US$ 23,146 bilhões). Muito provavelmente, a queda deve ter sido influenciada pela política de desinvestimento e redução de dívidas da Petrobrás, que tem mesmo antecipado o pagamento de compromissos externos que venceriam apenas mais à frente.

De qualquer forma, a redução foi intensa, proporcionalmente, na dívida de curto prazo, que baixou de US$ 16,128 bilhões para US$ 12,243 bilhões, num corte de 24,1%. O endividamento externo de longo prazo das empresas caiu 15,2% no período, saindo de US$ 127,093 bilhões para US$ 107,832 bilhões. 

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