10 de dezembro de 2019
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coluna Econômica

Dinheiro mais barato, inadimplência em queda. E bancos resistem a baixar lucros

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 10 de dezembro de 2019
Taxas básicas atingiram níveis históricos de queda aproximando-se de 1,3% a 1,5% ao ano. Foto: Reprodução.

Os juros básicos atingiram níveis históricos de queda, com as taxas reais (depois de descontada a inflação) aproximando-se de 1,3% a 1,5% ao ano, a se considerar as expectativas do mercado para o Índice Nacional de Preços Ampliado (IPCA) para os próximos 12 meses. A inadimplência no sistema financeiro, nas operações contratadas a taxas “livres” (expressão que parece desconsiderar o poder de quase monopólio exercido pelos bancos nas transações com seus clientes regulares), desabou de 5,0% no começo de 2018 para 4,1% em outubro daquele ano e atingiu 3,9% em igual mês de 2019.

Confirmando seu poderio econômico, as taxas de juros na ponta, quer dizer, aquelas cobradas pelo setor ao emprestar dinheiro a empresas e consumidores, caem numa lentidão desgastante. Chegaram a 42,1% ao ano em fevereiro do ano passado, recuaram para 38,0% em outubro e, em seguida, para 35,6% em dezembro, apenas para sofrerem ligeira inflexão para cima no começo deste ano, alcançando 39,0% em março. Os juros vieram recuando modestamente dali em diante, fechando outubro em 35,9% (na média, já que os juros do crédito rotativo no cartão saíam, ainda em outubro, pela bagatela de 317,2% ao ano, algo assim como 119 vezes mais a inflação acumulada em 12 meses até a primeira quinzena de novembro).

O lento, quase imperceptível, repasse dos cortes na taxa básica para os juros nos balcões do sistema financeiro parece contrariar os “fundamentos” (queda nos custos de captação de recursos para os bancos, que atualmente têm acesso a um dinheiro mais barato para financiar suas operações; inadimplência sobre controle e mesmo em baixa). Mais do que isto, parece haver uma resistência dos bancos, típica de monopólios, a adequar suas “margens de lucro” à realidade do mercado. De fato, os chamados “spreads” (que correspondem à diferença entre custos de captação e os juros cobrados nos empréstimos e financiamentos), ainda no “mercado livre”, chegaram a 30,3% em outubro deste ano, frente a 29,6% em igual mês de 2018. Para relembrar, os “spreads” haviam recuado para 27,8% em dezembro.

Hora de acelerar

O crédito foi uma ferramenta importante para permitir que a economia enfrentasse os efeitos da crise global de 2008/2009, amortizando seu impacto sobre a atividade doméstica, sobre o emprego e a capacidade de consumo das famílias. Os excessos cometidos nos anos seguintes complicaram o cenário, numa conjuntura bem diferente da atual. Hoje, ao contrário, falta demanda e a economia derrapa. O crédito avança, mas não em velocidade suficiente para impulsionar os negócios de forma mais vigorosa.Na avaliação do Institutos de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), embora seja um “instrumento poderoso para o crescimento econômico”, o crédito poderia ser “mais efetivose empresas e consumidores estivessem mais confiantes em relação ao futuro e se os credores reduzissem suas margens, isto é, o chamado spread bancário”.

Balanço

· “O crédito é um instrumento poderoso para o crescimento econômico porque permite romper as limitações da renda corrente, viabilizando decisões de gasto de maior magnitude que vão mobilizar diversos setores e atividades produtivas, gerando assim mais emprego e mais renda”, reforça o instituto.

·  O efeito combinado dessa resistência dos bancos em revisar suas margens e da redução muito lenta e gradual dos juros na ponta dos empréstimos tem produzido uma expansão menor do que a desejada nas operações de crédito – processo que poderia ser acelerado se o dinheiro fosse mais barato para empresas e famílias.

· De uma forma ou de outra, a contratação de novas operações (ou as concessões de novos empréstimos)tem avançado. Na comparação com igual mês de 2018, descontada a inflação medida pelo IPCA, aponta o Iedi, registrou-se elevação de 11,9% nas concessões para empresas e de 16% para as famílias. “Assim, no agregado, as concessões totais avançaram 14,3% em relação a outubro de 2018”.

·   Numa tendência observada desde que esse tipo de operação voltou a experimentar algum crescimento, prossegue o instituto, “as operações junto às famílias dão sinais de que estão cada vez mais robustas. No caso do crédito corporativo, porém, além de registrar variações positivas com certo atraso, não tem conseguido ganhar velocidade adicional”, avalia o Iedi.

·   Considerando as variações acumuladas nos 10 meses iniciais de cada ano, as concessões totais avançaram 3,4% em 2017, outros 11,9% no ano passado e 12,9% neste ano (sempre em relação ao período entre janeiro e outubro do ano imediatamente anterior).

·   No caso das empresas, houve queda de 3,4% em 2017 e altas de 14,7% e 10,9% em 2017 e 2018, respectivamente, sugerindo certa desaceleração no ritmo de avanço. No caso das famílias, as concessões avançaram 8,9% (2017), 9,8% (2018) e 14,5% (2019).

Por uma mera questão “ideológica”, o governo tem segurado as operações de crédito com recursos direcionados (a exemplo do desmonte em andamento no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES). As concessões nesta área registram variação de apenas 3,7% nos 12 meses encerrados em outubro e avanço de 1,8% no acumulado do ano. Sem amarras “ideológicas”, a contribuição do setor para o crescimento poderia ser mais decisiva. 

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