30 de março de 2020
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coluna Econômica

Mercados acionam as sirenes do alarmismo para pressionar BC

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 30 de março de 2020
Mercado quer um pouco mais de cautela na condução da política de juros daqui em diante

Os números finais do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), na aferição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vieram acima do esperado em dezembro, o que já foi suficiente para que os mercados escalassem seu time de analistas e comentaristas encastelados na mídia para “recomendar” ao Banco Central (BC) um pouco mais de cautela na condução da política de juros daqui em diante. As sirenes do alarmismo foram acionadas e a autoridade monetária deveria então parar com essa história de reduzir os juros básicos e talvez até mesmo voltar a pensar em retomar algum arrocho na política monetária para evitar que o aumento atípico e passageiro de alguns preços no último mês do ano passado “contamine” toda a economia e traga de volta a temida escalada inflacionária.

Há claramente excessos nesse tipo de avaliação, que desconsidera o momento econômico atual e a tendência de rápida reversão daquelas altas, já em cena nas últimas semanas, como mostram os levantamentos de preços da Fundação Getúlio Vargas (FGV), responsável pelo cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S). Divulgado semanalmente, o índice reflete a variação dos preços em períodos de 30 dias, comparados aos preços médios coletados nas quatro semanas imediatamente anteriores, o que permite avaliar a tendência mais atual para a inflação, conforme já anotado neste espaço (O Hoje, 03/01/20). E o índice vem experimentando forte desaceleração, desabando de 0,87% nos 30 dias encerrados em 15 de dezembro passado para 0,57% no acumulado entre 8 de dezembro e 7 de janeiro.

O menor ritmo de alta dos preços que compõem o IPC-S tem sido determinado, entre outros fatores, pelas variações menos intensas nos preços dos alimentos (com destaque para as carnes), que chegaram a subir 2,56% ao longo das quatro semanas de dezembro e iniciaram janeiro com elevação de 2,30%. Nos mesmos períodos, as altas para alguns cortes de carnes perderam força, a exemplo do contrafilé, que havia subido 20,65% em dezembro e passou a anotar elevação de 11,43%. Os jogos lotéricos, que fecharam dezembro com aumento de 10,21%, subiram 2,85% nos 30 dias até o dia 7 de janeiro (o que significa dizer que passaram a recuar na primeira semana deste mês). As passagens aéreas, que igualmente haviam disparado no fim de ano, já demonstravam queda de 9,01% no início de janeiro.

Falta demanda

Há um erro gritante de avaliação dos analistas que viram na alta do IPCA de dezembro um sinal de alarme. A política monetária (quer dizer, as taxas de juros) deve ser acionada sempre que excessos de demanda ameacem levar os preços a altas descontroladas, acirrando a carestia. Os números divulgados nesta semana pelo IBGE mostram, ao contrário, uma crise persistente na indústria, que enfrenta dificuldades ainda de monta para sustentar a produção em crescimento, precisamente porque falta demanda. Neste cenário, aumentos pontuais de preços, como os ocorridos entre meados de novembro e dezembro do ano passado com as carnes (por conta da explosão das vendas para a China, tendência que não deve persistir ao longo dos próximos meses), com os jogos de azar (controlados pelo governo) e ainda com as passagens aéreas (sob pressão do aumento no fluxo de passageiros no fim de ano), tendem a ser revertidos sem estragos maiores para os índices de inflação e não se traduzem em uma tendência permanente de alta inflacionária.

Balanço

·   O IPCA de dezembro, projetado em 1,08% na média dos palpites do mercado financeiro, atingiu 1,15%, elevando a inflação acumulada em 12 meses para 4,31% (apenas levemente acima da meta inflacionária de 4,25% determinada para 2019).

·   Para comparar, na passagem de novembro para o final da primeira quinzena de dezembro (sempre considerando a taxa acumulada em 30 dias), o índice do IBGE havia experimentado elevação de 0,54 pontos de porcentagem, saindo de 0,51% para 1,05%. Na quinzena seguinte, a elevação ficou limitada a 0,1 ponto.

·   Mesmo essa desaceleração não foi o dado mais relevante apresentado pela pesquisa de preços do instituto. No IPCA-15 de dezembro (medido nas quatro semanas terminadas no dia 15 daquele mês), em torno de 72,4% do índice de 1,05% vieram de quatro itens ou grupo de produtos: carnes (com alta de 17,71%); passagens aéreas (4,35%); jogos de azar (36,99%); e combustíveis (1,76%). Somados, contribuíram com 0,76 pontos na formação do IPCA-15 de dezembro.

·   No fechamento de dezembro, os mesmos itens responderam por 74,8% do IPCA de 1,15% (numa contribuição de 0,86 pontos), com altas de 18,06% para carnes, de 15,62% para as passagens, 12,88% para os jogos e de 3,57% para os combustíveis. Descontados esses itens no cálculo do índice, a inflação não se moveu, estacionada em 0,29% nos 30 dias até 15 de dezembro e no acumulado ao longo das quatro semanas até o dia 31 do mês passado.

·   Incluindo apenas os preços de produtos e serviços mais influenciados pela demanda, nas contas do Itaú BBA, agora tomando os 30 dias do mês, registrou-se variação de 0,44% em dezembro e de apenas 2,7% nos 12 meses do ano passado (ou seja, perto de 1,55 pontos abaixo do centro da meta inflacionária).

·   Em dezembro ainda, perto de 58,7% dos itens pesquisados pelo IBGE apresentaram alta em alguma intensidade, acima dos 55,9% registrados em novembro, ainda conforme o Itaú BBA. Vale lembrar que 61,1% dos preços haviam subido em dezembro de 2018 e ainda assim a inflação ficou limitada a 0,15% naquele mês.

·   Numa projeção ainda preliminar, o banco estima uma variação de 0,26% para o IPCA em janeiro. Se confirmada, não só ficará abaixo do índice de 0,32% observado no mesmo mês de 2019 como seria a inflação mais baixa para o período desde o Plano Real.

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