07 de abril de 2020
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coluna Econômica

Alta (enganosa) dos anúncios de investimentos em Goiás em 2019

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 07 de abril de 2020
Se todos os anúncios já divulgados por aqui fossem de fato implantados, Goiás teria fábricas de aviões, armas e munições, motocicletas e muito mais montadoras de veículos| Foto: Divulgação

A depender de como são divulgadas e, especialmente, analisadas, estatísticas podem levar a leituras mais inflamadas do que os dados sugerem, para o bem ou para o mal. Em primeiro lugar, sempre é de bom-tom lembrar que anúncios de projetos podem ou não ser concretizados ao longo do tempo. Se todos os anúncios já divulgados por aqui fossem de fato implantados, apenas para relembrar exemplos recentes, Goiás teria fábricas de aviões, armas e munições, motocicletas e muito mais montadoras de veículos. Por isso mesmo, como segundo lembrete, esse tipo de anúncio corresponde a uma declaração de intenção, não raras vezes sustentada pela assinatura de termos de compromisso com o governo estadual.

Assim, as séries de estatísticas levantadas e veiculadas pela Rede Nacional de Informações sobre o Investimento (Renai), do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), podem refletir uma tendência, um momento específico ou um ciclo na economia, mas não significam que os investimentos anunciados de fato deverão ocorrer. Seja como for, os dados de 2019 devem ser vistos ainda com maior cautela. No ano passado, os anúncios de investimento coletados pela Renai, em parceira com secretarias estaduais de desenvolvimento econômico e federações regionais da indústria (por meio da rede de Centros Internacionais de Negócios), apresentaram forte incremento na comparação com 2018, subindo de US$ 1,401 bilhão para US$ 1,549 bilhão, numa alta de quase 10,6%.

Analisado a certa distância, sem visão mais crítica, o dado parece extremamente favorável num momento de baixo crescimento econômico, desemprego elevado e máquinas ociosas na indústria. O fato é que praticamente dois terços daqueles investimentos, algo como US$ 1,019 bilhão (ou 65,8% do total), foram anunciados pela Saneamento de Goiás S.A.(Saneago) e serão investidos nos próximos cinco anos em projetos de ampliação e melhoria dos sistemas de abastecimento de água e de tratamento de esgotos.

Forte baixa

Excluída a Saneago, que não havia anunciado projetos em 2018, na contabilidade da Renai pelo menos, os demais setores comunicaram em 2019 a previsão de investir US$ 530,151 milhões nos próximos anos, o que corresponderia a uma retração de 62,2% frente ao ano anterior, em meio a polêmicas desgastantes envolvendo os principais protagonistas do setor empresarial, setores da Assembleia Legislativa e o governo do Estado. Adicionalmente, pouco mais de 58% do valor anunciado nos 12 meses de 2019 dizem respeito a uma única operação, divulgada pela CMOC Brasil, subsidiáriada China Molybdenum (CMOC), que prevê investir US$ 308,483 milhões na expansão de suas operações em Catalão, onde explora nióbio e fosfato.

Balanço

·   As perspectivas para o investimento em 2019 foram afetadas, em Goiás, ainda pelo desempenho fortemente negativo do setor público estadual, que concentrou praticamente todo o arrocho nos seus gastos naquela rubrica ao longo do exercício passado.

·   Como já divulgado neste espaço, os investimentos do governo desabaram de R$ 1,185 bilhão para R$ 527,535 milhões entre 2018 e o ano passado, encolhendo 55,47% (ou seja, R$ 657,065 milhões a menos). O dado considera os valores pagos pelo Estado e ainda investimentos inscritos em restos a pagar processados e não processados igualmente pagos.

·   Considerando os valores liquidados, etapa na execução orçamentária que antecede o desembolso efetivo, e sem incluir restos a pagar, o investimento atingiu em 2019 o menor nível desde 2001, em valores atualizados com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A prestação de contas do governo relaciona a liquidação de R$ 359,670 milhões em investimentos no ano passado, num tombo de 68,2% frente a R$ 1,132 bilhão registrados em 2018.

·   A valores de dezembro de 2019, para comparação, o investimento liquidado – critério utilizado pelos governos estaduais para aferir seu desempenho fiscal até 2017 – havia alcançado R$ 693,39 bilhões em 2001. Esse número chegou a despencar para R$ 452,9 milhões em 2012 e avançou até R$ 3,040 bilhões em 2014, o mais elevado da série, representando 14,6% da receita corrente líquida.

·   As contratações do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) em Goiás entraram em forte baixa a partir de setembro, revertendo a estabilidade virtual observada até o mês imediatamente anterior, quando as contratações ainda apontavam variação de 1,27% diante dos oito primeiros meses de 2018.

·   Entre janeiro e setembro de 2019, dado mais recente divulgado, o total de contratações do FCO para o Estado atingiu R$ 2,195 bilhões, o que representou redução de 5,47% frente a igual intervalo do ano anterior, já que o volume de contratações havia somado R$ 2,322 bilhões em números arredondados.

·   Também entre janeiro e setembro, as consultas encaminhadas por empresas goianas ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desabaram 24,72% frente aos mesmos nove meses de 2018, saindo de R$ 1,566 bilhão para R$ 1,179 bilhão – o valor mais baixo desde 2003, quando, nos mesmos nove meses, as consultas haviam alcançado R$ 964,40 milhões, em valores não atualizados.

 

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