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coluna Econômica

A retomada (quando vier) tende a ser muito lenta, mostra histórico recente

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 10 de julho de 2020
Perspectivas de uma saída mais tranquila ou mais traumática da crise dependerá das ações e políticas que os governos adotarem nesta fase| Foto: Divulgação

As estimativas continuam escorrendo freneticamente das planilhas para o noticiário econômico, sinalizando uma crise mais dramática do que a imaginada inicialmente pelos mercados, mas também por analistas e economistas de diversas vertentes do pensamento econômico. Em meio aos sinais de uma grave retração da atividade econômica diante da duração ainda indeterminada da pandemia, já houve quem se arriscasse a prever que a retomada, em algum ponto do futuro, poderá ser relativamente rápida, a se considerar o tamanho do tombo anunciado.

As perspectivas de uma saída mais tranquila ou mais traumática da crise dependerá, o que parece evidente, das ações e políticas que os governos adotarem nesta fase, da rapidez em sua implantação efetiva e de altas doses de coordenação e de cooperação entre os governos e entre esses e o setor privado. O Brasil já tropeçou nos dois últimos pontos. Houve certa demora na definição das medidas e há dúvidas em relação à capacidade de atender a tempo às faixas da população mais vulnerável que estão fora dos cadastros oficiaise de programas públicos de transferência de renda e ainda ao total de trabalhadores informais, ao mesmo tempo em que os Estados têm tomado decisões de forma isolada, sem uma coordenação racional.

O histórico recente não parece recomendar as apostas numa reação mais substancial da economia assim que encerrada a crise. Mesmo porque há grande probabilidade de a retração se prolongar muito além dos dois a três meses considerados pela equipe econômica ao desenhar o pacote de socorro a bancos, empresas e às famílias. O mais provável é que esse pacote tenha ainda que ser reforçado mais à frente.

Retomando o fio da meada, os indicadores dos setores de serviços, varejo ampliado (classificação que inclui as concessionárias de veículos e motos, lojas autopeças e de material de construção, além de todo o varejo convencional) e da indústria mostram que a economia sequer conseguiu retomar os níveis anteriores à recessão de 2015/2016 e, no caso da produção industrial, os resultados ainda estavam abaixo daqueles alcançados antes da greve dos caminhoneiros, em maio de 2018.

Previsões revisadas

Notoriamente, a economia já enfrentava sérias dificuldades para imprimir um ritmo mais vigoroso aos negócios em geral e não há motivos, até aqui, para supor que essa capacidade venha a ser retomada na sequência de uma crise que ameaça produzir um tombo inédito no Produto Interno Bruto (PIB) em apenas um ano. Mesmo com toda a ajuda do setor público, as estimativas mais recentes sinalizam a perspectiva de que a retração possa atingir 5,0% neste ano, na projeção mais recente do Banco Mundial, com algumas consultorias já trabalhando com estimativa de perda de 6%. Na média das previsões do mercado financeiro, coletadas pelo Banco Central (BC) e reunidas no relatório Focus, o setor espera queda de 2,0% para este ano na média das estimativas. No final de março, os prognósticos indicavam recuo de 0,59%.

Balanço

·   As vendas do varejo ampliado, a despeito da reação observada depois da recessão, vinham desacelerando neste começo do ano estavam, em fevereiro, 7,2% abaixo do seu melhor momento, registrado em agosto de 2012. Da mesma forma, no setor de serviços, persistia uma redução de 11,1% frente a novembro de 2014, quando havia sido anotado o pico para a atividade na série mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

·   A produção da indústria chegou a fevereiro com queda de 2,4% em relação a abril de 2018, um mês antes da greve dos caminhoneiros, que paralisou o abastecimento em todo o País. Na comparação entre os trimestres encerrados em fevereiro deste ano e em mais de 2011, o IBGE anotava uma retração de 16,6% para o setor. A crise de agora, numa diferença central em relação à recessão anterior, atinge a oferta (produção de bens e serviços) e a demanda, o que explica as previsões muito mais negativas.

·   No relatório divulgado no domingo (“A economia nos tempos da Covid-19”), o Banco Mundial recomenda que os países atuem em diversas frentes para evitar um desastre ainda maior, providenciando liquidez para o setor financeiro, reforçando substancialmente a ajuda aos mais vulneráveis e adotando políticas de sustentação do emprego (e, portanto, da renda).

·   Mesmo assim, será difícil evitar que o PIB caia perto de 4,6% na América Latina e no Caribe, com baixas de 6,0% para México e Equador (países que demoraram mais a reagir ao coronavírus) e retrações de 5,2% e de 5,0% para Argentina e Brasil. O enfrentamento da pandemia e de seus efeitos sobre a economia, acrescenta o economista chefe do banco para a região, Martin Rama, “exigirá políticas coerentes e direcionadas em uma escala raramente vista antes”.

·   Considerando as medidas já anunciadas pelo governo federal, um grupo de economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) projeta redução de 5,2% para a massa salarial (recorde desde o início da série em 2003), com fechamento de 6,0 milhões de empregos, desemprego de 17,8% (era de 11,6% no trimestre terminado em fevereiro deste ano) e queda de 3,4% para o PIB, num cenário base. Sem as medidas, o tombo na massa salarial poderia atingir 10,3%.

·   No caso de um agravamento da crise, com prolongamento das medidas de isolamento social, a massa salarial pode encolher 13,8%, refletindo tombo de 13,5% na população ocupada, o que estaria mais próximo de uma retração de 7,0% no PIB. O desemprego, nesta hipótese, saltaria para 23,8%, lançando mais 12,6 milhões de pessoas na desocupação e deixando desempregados perto de 24,9 milhões de brasileiros.

 

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