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coluna Econômica

“Riqueza” financeira supera 101% do PIB e dívida privada bate novo recorde

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 10 de julho de 2020
Avanço manteve ritmo acelerado enquanto a economia real desmanchava, com queda de 1,5% para o PIB no primeiro trimestre frente ao trimestre anterior| Foto: Divulgação

Os efeitos da pandemia mexeram com rotinas e práticas dos donos do dinheiro no País, mudando ligeiramente o perfil das aplicações escolhidas para assegurar os ganhos dos rentistas em tempos de crise e juros em queda inédita. Em contrapartida, a alta do dólar elevou a dívida das empresas e das famílias para os níveis mais elevados na série histórica de estatísticas do Banco Central (BC) nesta área. A “riqueza financeira” – ou mais apropriadamente o conjunto de investimentos estacionados na caderneta de poupança, em títulos públicos e privados e em cotas de fundos de investimento – subiu para valores igualmente históricos em abril, quando as medidas de isolamento atingiram o seu pico (até aqui). No total, aquelas aplicações haviam somado R$ 7,438 trilhões, avançando 0,95% em relação a março deste ano e 7,01% na comparação com abril de 2019, incluindo haveres de pessoas não residentes no País, mas aplicados por aqui (e que vêm murchando neste ano).

O avanço manteve ritmo acelerado enquanto a economia real desmanchava, com queda de 1,5% para o Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre frente ao trimestre anterior e previsões de uma retração também inédita de 14,0% no segundo trimestre, na comparação com igual período do ano passado, conforme a edição de ontem do relatório Focus, divulgado pelo mesmo BC. O saldo dos trilhões de reais estacionados em investimentos financeiro sem abril correspondeu a 101,93% do PIB, estimado pelo BC em R$ 7,297 trilhões para o período de 12 meses encerrado em abril deste ano. Para comparação, em abril do ano passado, o estoque de aplicações financeiras havia alcançado pouco mais de R$ 6,950 trilhões, equivalendo a 99,52% do PIB (ainda na estimativa do BC). Em março deste ano, a relação havia alcançado 100,4% do PIB, com saldo de R$ 7,368 trilhões em valores arredondados.

O saldo do crédito ampliado contratado por empresas não financeiras e pelas famílias, da mesma forma, avançou 1,79% na saída de março para abril deste ano, crescendo 17,78% em 12 meses, para R$ 6,281 trilhões, algo como 86,1% do PIB. Em março, a dívida ampliada daqueles setores já havia alcançado 84,2% do PIB, somando R$ 6,171 trilhões. No quarto mês de 2019, com a dívida aproximando-se de R$ 5,333 trilhões, a relação com o PIB somava 76,4%.

O outro lado

A contraparte da “riqueza financeira” privada está expressa no endividamento do setor público. Vale dizer, os ganhos acumulados pelos rentistas no País são obviamente extraídos de algum lugar – e saem do orçamento público, em sua dimensão financeira. Embora essa seja uma conta negligenciada por economistas e analistas econômicos em geral. A dívida bruta do governo geral (União, Estados, municípios e suas estatais) vem registrando crescimento proporcional ao longo deste ano, turbinado ainda pela necessidade de ampliação de gastos para o enfrentamento da crise sanitária (uma medida correta e que tem elevado o endividamento público em todo o planeta, sem exceções). Em abril do ano passado, aquela dívida somava pouco menos de R$ 5,380 trilhões, representando 78,8% do PIB, e subiu 6,17% até abril deste ano, para R$ 5,818 trilhões, algo como 79,7% do PIB. Como se observa, a “riqueza financeira” não apenas cresceu muito mais, como passou a ser maior do que todas as riquezas geradas pela economia ao longo de um ano.

Balanço

·   O aumento do crédito ampliado de março para abril e ainda no acumulado dos quatro primeiros meses deste ano foi quase todo impulsionado pelo crescimento da dívida contratada em moeda estrangeira, refletindo a alta média de 37,6% acumulada pelo dólar entre abril do ano passado e o mesmo mês deste ano e de praticamente 35,0% entre janeiro e abril deste ano.

·   Convertida em reais, a dívida externa das empresas não financeiras e das famílias, conforme dados do BC, saltou 32,82% entre dezembro de 2019 e abril deste ano, saindo de R$ 1,421 trilhão para pouco menos de R$ 1,806 trilhão, num acréscimo de R$ 446,1 bilhões. Essa variação foi responsável por 81,33% de todo o aumento experimentado pelo estoque do crédito total ampliado contratado por aqueles segmentos no período. O aumento, neste caso, chegou a 9,57% (de R$ 5,733 trilhões para R$ 6,281 trilhões), correspondendo a R$ 548,5 bilhões a mais.

·   A contribuição foi mais relevante na variação mensal. O volume total do crédito ampliado elevou-se 1,79% de março para abril, acrescentando R$ 110,50 bilhões à dívida. A parcela em moeda estrangeira desse crédito avançou 6,30%, o que significou R$ 107,0 bilhões adicionais na dívida externa (ou seja, 96,83% do incremento observado para todo o saldo do crédito).

·   No lado da “riqueza financeira”, ou seja, dos saldos investidos em papéis públicos e privados e ainda na tradicional caderneta de poupança, houve fuga de investidores estrangeiros e alguma realocação entre as diversas formas de multiplicação dessa riqueza. O valor dos chamados “haveres de não residentes”, na classificação do BC, sofreu queda de 5,60% de março para abril, caindo de R$ 497,388 bilhões para R$ 469,556 bilhões, o que, por sua vez, representou baixa de 10,41% desde abril do ano passado (saindo de R$ 524,113 bilhões).

·   Em 12 meses, portanto, os investidores estrangeiros reduziram suas aplicações financeiras em R$ 54,557 bilhões. Mais da metade dessas perdas (precisamente 51,01%) ocorreram de março para abril deste ano, com redução equivalente a R$ 27,832 bilhões em apenas um mês.

·   O saldo das aplicações em títulos federais igualmente sofreu perdas, caindo 5,87% em relação a março (para R$ 431,831 bilhões) e 8,70% em 12 meses. Esse dado, isoladamente, não pode ser configurado como uma “fuga” real de investidores de títulos públicos federais, até porque as operações compromissadas com títulos federais (ou seja, quando o Tesouro assume o compromisso de recompra futura dos papéis vendidos em algum momento no passado recente) saltou 10,69% frente a março, passando a acumular elevação de 3,38% em 12 meses.

·   O saldo das cotas de fundos de investimento, que incorporam papéis privados e federais em sua composição, recuaram 0,78% de março para abril, chegando a R$ 3,404 trilhões (com elevação de 3,70% em 12 meses). As aplicações em títulos privados avançaram 5,68% no mês e saltaram 21,9% em 12 meses (para R$ 2,030 trilhões).

 

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