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coluna Econômica

“Otimista”, Banco Central revisa previsão e espera tombo de 6,4%

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 12 de julho de 2020
Enquanto o mundo desaba ao redor, o presidente do BC, Campos Neto, acha exageradas as previsões mais pessimistas para o Produto Interno Bruto (PIB)| Foto: Divulgação

A pandemia afetou vidas e rotinas em praticamente todos os aspectos. Na economia, todos os parâmetros de análise vêm sendo revisados em todo o mundo e o Brasil não deveria ser exceção. Mas o Banco Central (BC) ainda insiste em recorrer a referências colhidas ao longo de crises anteriores para tentar de alguma forma antecipar o futuro imediato, a exemplo do que se pode observar no relatório trimestral de inflação divulgado ontem e na entrevista concedida à imprensa pelo presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, na sequência.

Enquanto o mundo desaba ao redor, o presidente do BC acha exageradas as previsões mais pessimistas para o Produto Interno Bruto (PIB), acredita que as medidas emergenciais tenderão a evitar perdas mais dramáticas, parece crer ainda que a dinheirama injetada pelo BC nos bancos de alguma forma ainda chegará às pequenas e médias empresas e sugere que a “política monetária” (quer dizer, os juros) tem sido “estimulativa” – vale dizer, os cortes adotados até aqui sobre os juros básicos estariam operando para estimular a atividade econômica ou ao menos para impedir uma retração mais drástica.

Não deixa de ser surpreendente,de certa forma, que o BC, diante dessa leitura da realidade, tenha revisado fortemente para baixo suas projeções para o PIB brasileiro neste ano. Campos Neto acha “muito pessimista” a previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que ousou estimar um tombo de 9,1% para o PIB brasileiro. Parece considerar “natural” a retração de 6,4% agora apontada por sua equipe. Até há poucas semanas, as projeções do BC, nada animadoras, ainda consideravam a possibilidade de crescimento zero neste ano, na verdade, uma estagnação na sequência de dois anos muito recessivos e mais três anos de crescimento na faixa de 1,0% ao ano. Na prática, ao longo de meia década, a economia encolheu ou praticamente não registrou avanços.

Persistência

Esses números já indicavam uma economia doente, com baixíssima capacidade de reação mesmo depois de a recessão ter elevado fortemente a capacidade ociosa nas fábricas e no mercado de trabalho, expressa dolorosamente no total de 13,4 milhões de desempregados no começo de 2019. Explica-se. Em tese, essa situação tornaria menos complicada uma recuperação mais acelerada, já que haveria espaço para crescer sem pressionar os preços e gerar inflação. Bastaria reativar as máquinas paradas, recontratando os trabalhadores então sem ocupação ou lançados na informalidade. Para isso, claro, seria preciso injetar algum ânimo na demanda, o que não ocorreu. Em um complicador adicional, a equipe do senhor Paulo Guedes persiste em sua visão fiscalista e limitada da economia, amarando as possibilidades de uma recuperação mais rápida do que a ocorrerá quando toda a crise sanitária tiver sido debelada. Até lá, o mais provável é que o País continue alternando ciclos mais rigorosos de isolamento social e de liberação das atividades, de forma a evitar o colapso de todo o sistema de saúde, o que significa dizer que a economia deverá igualmente alternar altos e baixos.

Balanço

·   Portanto, além de mudar a vida de todos, a pandemia tornou inoperantes os termômetros regularmente utilizados para tomar a temperatura da economia. Ainda assim, o BC reconhece, no relatório divulgado ontem, que o PIB deverá experimentar mergulho histórico, mas seguido de “recuperação gradual nos dos últimos trimestres do ano, repercutindo diminuição paulatina e heterogênea do distanciamento social e de seus efeitos econômicos”.

·   Como parecem mostrar exemplos já observados em outros países que partiram para uma liberação precipitada dos mercados, os riscos de uma segunda onda não são negligenciáveis, o que significa dizer que essa “recuperação gradual” não deve e não pode ser tomada como um fato da realidade. Os riscos e as incertezas são ainda muito elevados, como o próprio BC chega a reconhecer.

·   Na revisão agora apresentada, a queda do PIB deverá ser puxada, pelo lado da demanda, por um tombo de 13,8% nos investimentos, lembrando que a previsão anterior da instituição indicava redução de 1,1% em relação a 2019, depois de terem crescido 2,2% naquele ano.

·   A retração vigorosa do investimento está relacionada, sim, à ausência de crescimento ao longo do ano, mas também à falta de perspectiva de uma retomada próxima da atividade. Ao tomar a decisão de investir, as empresas em geral avaliam não apenas o momento atual na economia, mas olham também para o que se espera que possa ocorrer nos meses e anos seguintes. Sem alguma perspectiva de melhoras à frente, projetos de investimento tendem a ser adiados, senão cancelados.

·   O PIB da indústria de transformação, ainda na projeção do BC, tende a desabar 12,8% entre 2019 e 2020, com estagnação para a indústria extrativa. Para relembrar, a indústria de transformação vinha de uma variação de apenas 0,1% no ano passado (na prática, uma estagnação virtual).

·   Para a construção, espera-se queda de 6,7%, o que se compara com a “projeção de recuo de 0,5% feita em março, repercutindo comportamento de maior cautela das famílias e dos empresários do setor, além de diminuição no ritmo de algumas obras pela necessidade de adoção de protocolos especiais para prevenir contágio pelo novo coronavírus”, anota ainda o relatório.

·   No setor de serviços, com a redução de 10,8% esperada para o comércio, a queda deverá ser de 5,3%. Na contramão, o PIB da agropecuária poderá avançar 1,2%, quase repetindo o resultado de 2019.

 

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