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coluna Econômica

A economia, a imprensa e o ministro no mundo da fantasia

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 08 de agosto de 2020
Pelo menos a parte do País que não precisa correr atrás da subsistência, nem se preocupa com a superlotação dos leitos de UTI, reforçada por uma imprensa que se considera especializada, a economia deixou a sua pior fase| Foto: Reprodução

O noticiário econômico, as falas do superministro dos mercados, de seu ajudante de ordens à frente do Banco Central (BC) e a quase euforia no mercado financeiro, num momento em que a pandemia avança firmemente, atingindo altos escalões do Planalto, sugerem que o País parece ter entrado em modo fantasia. Bom, pelo menos a parte do País que não precisa correr atrás da subsistência, nem se preocupa com a superlotação dos leitos de UTI. Para essa turma, reforçada por uma certa imprensa que se considera especializada, sim, a economia deixou para trás sua pior fase, venceu o fundo do poço e engrena rumo a uma retomada inescapável, como se fora seu destino manifesto e estivesse escrito nas estrelas.

E bastaram, para isso, alguns números que, se refletem alguma coisa, mostram apenas uma situação de penúria econômica – e nem por isso deixaram de ser festejados pela turma da bufunfa e pelos inquilinos do momento na Esplanada dos Ministérios.O dado mais recente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), por exemplo, mostra um salto espetacular no número de veículos, caminhões, ônibus, motos e implementos rodoviários emplacados em junho. Foram 194,35 mil unidades na soma geral, num aumento de 93,54% em relação às 100,42 mil unidades emplacadas em maio.

O emplacamento de automóveis, então, muito mais do que dobrou no período, saindo de 44,138 mil para 102,40 mil unidades, numa alta de 132,0%. Irrefutáveis, os números. Não fosse um pequeno e significativo“porém”. Antes da pandemia e ao longo do primeiro semestre do ano passado, as vendas do setor, na média, vinham flutuando em torno de 300,0 mil e 320,0 mil ao mês. Ou seja, como todo o “reforço” observado em junho, o mercado ainda representa pouco mais de um terçodo total vendido pelas concessionárias no segundo trimestre do ano passado.

Enganação

Recontando a história do princípio. Em janeiro e fevereiro, o mercado já demonstrava certo desaquecimento, com os emplacamentos acumulando baixa de 1,27% em relação ao primeiro bimestre de 2019, passando de 599,19 mil para pouco menos de 591,60 mil unidades. Entre fevereiro e março, quando as medidas de distanciamento entraram em vigor (lá pela segunda metade do mês), os emplacamentos sofreram queda de 14,9%, de 293,16 mil para 249,39 mil, e desabaram para 89,692 mil unidades em abril, num tombo de 64,0%. Com alguma liberalização nos mercados, as vendas subiram praticamente 12,0% em abril e, na sequência, apresentaram aquele salto espetacular. Lembrando: na comparação com junho do ano passado, o mercado encolheu 38,58% e encontra-se ainda 33,7% abaixo dos níveis registrados em fevereiro, que nem chegou a ser um mês muito positivo para o setor.

Balanço

·   Para tirar dúvidas, já que os dados mensais em geral podem apresentar comportamento instável, sem definir tendências, o volume total de emplacamentos no segundo trimestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2019, nas estatísticas da Fenabrave, mostram uma retração de 62,1%. Entre abril e junho do ano passado foram emplacados 1,014 milhão de veículos, diante de apenas 384,463 mil nos mesmos três meses deste ano. Ou seja, o mercado deixou de vender quase 630,0 mil unidades.

·   No caso dos automóveis, o tombo foi de 67,3% (de 569,10 mil para 186,03 mil), enquanto o mercado de caminhões e de veículos leves, somados, encolheu pela metade (de 125,24 mil para 62,142 mil unidades).

·   No mercado de trabalho, segundo o acompanhamento semanal feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD Covid-19), o total de ocupados manteve-se estagnado em 83,479 milhões de pessoas na semana entre os dias 7 e 13 de junho. Na verdade, registrou-se o fechamento de 254,0 mil vagas em relação à semana anterior (-0,3%). Em três semanas, no entanto, foram perdidos 1,298 milhão de empregos, numa redução de 1,53%.

·   O número de desempregados, nas mesmas três semanas, aumentou 18,1%, saindo de 10,037 milhões para 11,854 milhões, o que significou um acréscimo de 1,817 milhão de pessoas sem qualquer tipo de ocupação. A taxa de desemprego avançou de 10,6% para 12,4% entre as semanas de 17 a 23 de maio e de 7 a 13 de junho.

·   Somando o total de desempregados e aquelas pessoas que não haviam procurado emprego na semana anterior à da pesquisa, mas gostariam de trabalhar, tem-se um contingente de 38,578 milhões, o que corresponde a 22,7% das pessoas com 14 anos ou mais (a chamada população economicamente ativa). Na semana inicial da pesquisa, entre os dias 3 e 9 de maio, esse número havia sido de 36,869 milhões de pessoas (21,7% da população em idade de trabalhar), o que demonstra um avanço de 4,6% (quer dizer, 1,709 milhão a mais).

·   A demanda por carga geral encerrou junho com retrocesso de 35,72% em relação ao mesmo período do ano passado e o ritmo de queda tem se mantido acima dos 30% desde o final de maio, segundo acompanhamento da NTC&Logística.

·   Para completar, num estudo da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o consumo de energia em todo o sistema integrado nacional sofreu quedas de 12,1%, de 10,9% e de 4,7% em abril, maio e junho (1º a 26), frente a iguais períodos do ano passado. Nos 26 primeiros dias de junho, as indústrias de veículos, têxteis e de manufaturados em geral reduziram o consumo em 48,0%, 42,0% e 21%. Exceções, a indústria de alimentos conseguiu não cair, repetindo o consumo de 2019, e o setor de saneamento consumiu 3,0% a mais em junho.

 

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