06 de setembro de 2020
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Em meio à pandemia, “riqueza” financeira aumenta R$ 450,0 bi

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 06 de setembro de 2020
A dívida das empresas e das famílias atingiu novo valor histórico em junho, embalada principalmente pelo avanço do endividamento em moeda estrangeira| Foto: Reprodução

A dívida das empresas e das famílias atingiu novo valor histórico em junho, embalada principalmente pelo avanço do endividamento em moeda estrangeira – neste caso, explicado em grande parte pela escalada do dólar nos primeiros meses deste ano. A contrapartida foi um crescimento ainda mais vigoroso da “riqueza financeira”, quer dizer, da soma total das aplicações em caderneta de poupança, em títulos públicos e privados e em quotas de fundos de investimento. Se há correlações possíveis entre esses dados, uma delas sugere que os donos do dinheiro têm conseguido ampliar sua riqueza, num ritmo superior à dívida acumulada ao longo do segundo trimestre deste ano, em plena pandemia. Mas, claro, a culpa é dos servidores públicos, que ganham muito e gastam demais.

Entre março e junho deste ano, a dívida total das famílias e das empresas aumentou 2,51%, ao avançar de R$ 6,174 trilhões para R$ 6,328 trilhões, saindo de 84,2% para praticamente 88,0% do Produto Interno Bruto (PIB). Houve um acréscimo de R$ 154,70 bilhões no saldo daquela dívida no trimestre analisado. Perto de 85,0% desse acréscimo está relacionado ao crescimento de 7,7% no saldo da dívida externa daqueles setores, que saiu de R$ 1,699 trilhão para quase R$ 1,830 trilhão. Convertida ao valor médio do dólar, a dívida em moeda estrangeira apresentou variação muito próxima de 1,2%. Mas, em reais, a alta foi turbinada pela variação de 6,41% acumulada no período pela moeda norte-americana.

A soma de todas as aplicações financeiras avançou de R$ 6,897 trilhões em março para R$ 7,347 trilhões em junho, alcançando novo recorde e crescendo 6,52%. A “riqueza financeira”, que já havia cruzado em abril a barreira dos 100% do PIB, passou a representar 102,13% do total de riquezas geradas pelo lado real da economia, participação que se compara aos 94,04% registrados em março.Em meio à crise, enquanto milhões perdem seus empregos, milhares de pequenos negócios fecham as portas definitivamente e a economia desmancha, os donos do dinheiro conseguem acumular um patrimônio financeiro maior do que tudo o que é produzido pela economia real, aquela que trabalha e produz.

Três vezes mais

Na comparação entre as novas dívidas contratadas pelas famílias e pelas empresas com o fluxo de novos investimentos no mercado financeiro, a diferença chega a quase três vezes. Afinal, os donos do dinheiro engordaram suas aplicações em mais R$ 449,574 bilhões em apenas três meses. O valor corresponde a 6,25% do PIB estimado pelo Banco Central para junho deste ano, perto de R$ 7,194 trilhões (obviamente, numa aproximação que considera o PIB acumulado em 12 meses até junho deste ano). Não chega a surpreender que a variação observada entre o final do primeiro trimestre e o último mês do trimestre seguinte tenha representado mais da metade (53,6% na ponta do lápis) de todo o aumento acumulado em 12 meses pelo saldo de todas as aplicações no mercado financeiro.

Balanço

·   Em 12 meses, tomando junho do ano passado como referência, as riquezas financeiras passaram de R$ 6,508 trilhões (92,34% do PIB) para os atuais R$ 7,347 trilhões, crescendo 12,89% (ou seja, mais R$ 838,959 bilhões, algo como 11,66% do PIB). As contribuições mais relevantes para esse desempenho vieram do salto de quase 27,0% no estoque de recursos estacionados em títulos privados emitidos pelo sistema financeiro nacional (bancos, financeiras, corretoras e outras instituições), do aumento nas aplicações em quotas de papéis públicos e privados alocados em fundos de investimentos diversos e da tradicional caderneta de poupança.

·   A carteira de títulos privados avançou de R$ 1,701 trilhão para R$ 2,155 trilhões, num acréscimo de R$ 454,065 bilhões – o que correspondeu a 54,12% do incremento observado para o estoque total de aplicações financeiras. Esse tipo de aplicação passou a responder por 29,3% do total frente a 26,1% em junho de 2019.

·   Os fundos observaram alta mais discreta em seu saldo de investimentos, numa variação de 5,19% entre junho de 2019 e igual mês deste ano (R$ 3,376 trilhões para R$ 3,457 trilhões). Como respondem por uma fatia mais gorda do total da “riqueza financeira” (pouco mais de 47,0%), a variação em valores absolutos atingiu R$ 175,169 bilhões, numa contribuição de 20,9% para o crescimento geral.

·   O saldo das cadernetas apresentou elevação de 17,33%, saindo de R$ 804,275 bilhões para R$ 943,638 bilhões (quer dizer, R$ 139,363 bilhões a mais). Isso significou perto de 17,0% do aumento acumulado pela “riqueza financeira” total.

·   Em termos proporcionais, as operações compromissadas (realizadas mediante o compromisso de recompra) lastreadas em títulos privados registram o segundo maior aumento, com alta de 25,4% (de R$ 58,920 bilhões para R$ 73,754 bilhões). Mas foram o destino de apenas 1,0% dos recursos destinados aos donos do dinheiro para aplicações financeiras.

·   A dívida ampliada de empresas e famílias, que contempla o saldo de empréstimos e financiamentos, a dívida externa e outros títulos de dívida privada (debêntures, promissórias, certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio), aumentou 16,8% entre junho do ano passado e o mesmo mês deste ano (de R$ 5,417 trilhões para R$ 6,328 trilhões, com R$ 911,0 bilhões a mais). Em relação ao PIB, a dívida saiu de 76,9% para 88,0%.

·   A dívida externa contribuiu com pouco mais de 56,0% para a variação observada no período, já que saiu de R$ 1,317 trilhão para R$ 1,830 trilhão (aproximadamente R$ 512,2 bilhões a mais, num salto de quase 40,0%). Em grande medida, o aumento está relacionado ao salto de 34,7% na cotação média do dólar entre junho de 2019 e igual período deste ano.

·   A segunda maior contribuição veio das dívidas bancárias, que avançaram de R$ 3,387 trilhões para R$ 3,714 trilhões, em alta de 9,6% (ou R$ 326,50 bilhões).

 

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