14 de setembro de 2020
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Em tempos de coronavírus, empresas do agronegócio apostam na tecnologia

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 14 de setembro de 2020
Com a suspensão do circuito de feiras e exposições agropecuárias, o aplicativo John Deere Conecta teve que reinventar seu modelo de negócios| Foto: Reprodução

O avanço do Sars-CoV-2 no País forçou a mudança de hábitos, rotinas e procedimentos também entre empresas do agronegócio, que passaram a direcionar esforços de seus respectivos times de tecnologia para desenvolver soluções mais adequadas aos tempos de pandemia. Lançado em maio passado, o aplicativo John Deere Conecta reflete esses novos tempos. Com a suspensão do circuito de feiras e exposições agropecuárias, a empresa teve que reinventar seu modelo de negócios, afirma Rodrigo Bonato, diretor de marketing de produto e ISG (grupo de soluções inteligentes) da companhia para a América Latina. A nova ferramenta, que roda em ambiente WEB e em sistemas operacionais IOS e Android, permite uma interação mais efetiva com o mercado e “consegue dar maior atenção ao cliente”, detalha.

Em menos de 30 dias, o aplicativo registrou em torno de 320,0 mil acessos e abrigou 2,6 mil chats, conectando o pessoal da indústria e produtores interessados em tirar dúvidas sobre máquinas e sua operação. Mais do que isso, o sistema foi transformado em verdadeira plataforma comercial, gerando a venda de 300 máquinas desde sua criação, comemora Bonato. As mudanças atingiram o relacionamento entre clientes e a área técnica da companhia. De acordo com ele, “mais de 85% dos atendimentos (na área de manutenção) foram solicitados por meio virtual e solucionados virtualmente, com economia de custos para os dois lados”.

As máquinas hoje em operação carregam sistemas digitais que descarregam dados sobre a operação a campo nas nuvens, com uso do sistema JDLink, por sua vez interligado ao Centro de Suporte a Operações da John Deere. Instalado no País há três anos, o centro oferece ao ciente acesso integral a todos os dados do maquinário e da operação agrícola. As regulagens necessárias e mesmo a manutenção preventiva podem ser realizadas remotamente, em tempo real, quando há conexão na fazenda. “Em um ano, mais de 13,0 milhões de hectares na América do Sul, dos quais 9,5 milhões no Brasil, já estão conectados”, sustenta Bonato. Na área de conectividade rural, a John Deere trabalha em parceria com a Trópico, responsável pela implantação de redes privadas de telecomunicação em banda de 250 megahertz.

Conectividade

Essencial para o avanço da digitalização no campo e para a consolidação de uma agricultura de precisão no País, a conectividade no setor deverá experimentar um salto nos próximos anos, prevê Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação. O cenário atual, no entanto, é menos animador. Segundo ele, em torno de 70% das propriedades rurais no Brasil não têm acesso à internet e muito menos conexão com a rede 4G. A melhor aposta para mudar essa realidade, antecipa ele, “são os satélites suborbitais, que envolvem custos mais baixos”, comparativamente às demais opções.Os sistemas inteligentes já embarcados em tratores e colheitadeiras produzem uma enorme quantidade de dados, prossegue Igreja, mas o agronegócio não tem demonstrado capacidade, até aqui, para “transformar esses dados em inteligência na tomada de decisões”, em parte pela baixa conectividade na fazenda. O processo de digitalização da gestão do negócio pode agravar desigualdades no setor, alerta ainda, pois “grandes produtores conseguem contratar os melhores técnicos e gestores, enquanto médios e pequenos enfrentam maiores dificuldades”. Por isso, afirma Igreja, as cooperativas poderão desempenhar “papel fundamental” nesta área ao facilitar o acesso daqueles segmentos às novas tecnologias.

Balanço

·   Hub dedicado à inovação aberta, instalado pela Raízen em Piracicaba (SP) há praticamente três anos, o Pulse abriga atualmente pouco mais de 28 startups, que produziram meia centena de projetos pilotos já testados ou em fase de avaliação pela usina. “Os resultados gerados nesse período superam em quase cinco vezes o valor do investimento. Fechamos mais de seis contratos com startups associadas ao projeto até o momento, alguns com resultados importantes já alcançados”, comenta José Massad, diretor de tecnologia da Raízen.

·   Entre esses, Massad destaca o caso da Aimirim, que desenvolveu uma solução de inteligência artificial que permite otimizar o consumo de vapor nas caldeiras, com economia de bagaço e redução de emissões. O sistema já opera em seis usinas do grupo e está em fase de implantação em mais duas. A PerfectFlight criou um sistema de gestão e acompanhamento de aplicações de defensivos com uso de drones, além de gerar relatórios interativos, facilitando a tomada tempestiva de decisões. Na Raízen, a aplicação atingeatualmente 417,0 mil hectares de cana.

·   Adquirida pela Syngenta desde 2018, a Strider também participou do hub e teve seu projeto adotado em 19 unidades da Raízen. A solução oferecida pela empresa utiliza tablets como plataforma para monitoramento da lavoura e o software permite gerenciar 18 tipos de amostras para identificação de pragas e até o acompanhamento da qualidade da cana no campo.

·   Criada em 25 de julho do ano passado, a Agro 10X registrou faturamento de R$ 25,0 milhões em seu primeiro ano de operações e mais de 1,0 milhão de doses de sêmen vendidas por meio da plataforma desenvolvida pelo veterinário Wagner Oliveira, dono da empresa. “Foram três anos para desenvolver o sistema, que classifico mais como um método inovador de vendas, totalmente digital, que permite conectar a indústria de inseminação e o consumidor final, além de gerar demanda no campo”, afirma.

·   Com sede em Uberaba (MG), a empresa conseguiu reunir em torno de sua plataforma “quatro entre as seis maiores indústrias do setor”, detalha Oliveira. Trata-se, na verdade, conforme ele, de uma “multiplataforma” de negócios, que inclui recursos do WhatsApp e do YouTube, além de plataformas do Google. Grupos de WhatsApp, formados por representantes comerciais das indústrias parceiras, técnicos especializados e produtores rurais, operam como salas de negócio virtuais, que aproximam vendedores e clientes. O grupo de técnicos dá suporte e responde a dúvidas dos produtores, que podem participar de palestras especificas on-line.

·   Em sua plataforma, Oliveira oferece um combo que inclui sêmen e protocolos de inseminação artificial em tempo fixo (IATF).O empresário espera aumentar as receitas em 50% no segundo ano de vida da empresa e estuda ampliar o portfólio com a inclusão do segmento de nutrição animal e venda de animais vivos.

 

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