coluna Giramundo

As referências internacionais de Bolsonaro no mundo pós-Trump (parte 1)

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em 15 de março de 2021
Confira a primeira edição da coluna Giramundo, por Marcelo Mariano | Foto: Isac Nóbrega/PR

Marcelo Mariano*

Na última sexta-feira, dia 12 de fevereiro, o presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos, Robert Menendez, enviou uma carta ao presidente Jair Bolsonaro em um tom ameaçador.

Menendez disse que, se Bolsonaro não condenar a invasão do Capitólio, ocorrida no dia 6 de janeiro, as relações entre Brasil e Estados Unidos podem ser prejudicadas. Na carta, o senador americano também criticou o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil, e a primeira embaixada brasileira foi inaugurada em Washington, D.C. Historicamente, nossas relações com os americanos sempre foram relativamente boas. Houve momentos de maior alinhamento. Outros, de maior independência.

“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, disse, nos primeiros anos do regime militar, o então ministro das Relações Exteriores, Juraci Magalhães. Este, sem dúvida, foi um dos principais momentos de alinhamento entre os dois países.

Por outro lado, também durante o regime militar, o Brasil buscou uma política externa mais independente, especialmente com Ernesto Geisel a partir de 1974, quando, no contexto de Guerra Fria, o governo brasileiro se aproximou até mesmo de países do bloco comunista.

Com Trump, Bolsonaro teve um grande aliado – pelo menos no discurso –, apesar de não ter recebido uma visita sequer do agora ex-presidente americano e de ainda não estarem muito claras as vantagens adquiridas pelo Brasil – seguimos fora da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo.

Sem Trump, Bolsonaro fica isolado no cenário internacional. Atualmente, não temos boas relações com os nossos principais parceiros comerciais, como China, Argentina e países importantes da União Europeia, como França e Alemanha.

Esses países precisam mais do Brasil do que o Brasil precisa deles, alguns poderiam argumentar. Vale lembrar, então, que os produtos que vendemos não têm muito valor agregado e, por isso, poderiam ser substituídos, a médio prazo, por outros mercados fornecedores – a China, que pensa mais a longo do que a curto prazo, já está de olho na soja produzida em solo africano.

Com Biden, o Brasil pode sofrer pressão ambiental, tendo em vista o discurso do presidente americano durante a campanha. Na verdade, porém, ainda é cedo para dizer exatamente como será a relação entre os dois países.

Em linhas gerais, a minha aposta é que o Brasil não será, como nunca foi, uma grande prioridade dos Estados Unidos – o Brasil, por sua vez, sempre teve os Estados Unidos entre suas prioridades. Nem mesmo na América Latina somos prioridade.

Para os Estados Unidos, o México e a questão migratória como um todo são mais importantes que o Brasil. Cuba e Venezuela também. E até mesmo a Colômbia, já que o governo americano considera as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) um grupo terrorista e, portanto, está inserida, mesmo que em uma escala menor na comparação com outros países, no contexto de combate ao terrorismo.

Diante desse cenário – em que o Brasil não tem mais um aliado na Casa Branca –, quais serão, afinal, as referências internacionais de Bolsonaro no mundo pós-Trump? A parte 2 deste texto, a ser publicada na coluna da próxima-segunda feira, dia 22 de fevereiro, trará a resposta.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia e vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori). Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

 

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