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As bombas do bem de Joe Biden e a política externa americana para o Oriente Médio

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em 01 de abril de 2021
Mesmo sem apoio de todos os parlamentares democratas, Joe Biden realizou o primeiro bombardeio de seu mandato | Foto: Gage Skidmore/Flickr

Marcelo Mariano*

Pouco mais de um mês após tomar posse, o presidente americano, Joe Biden, realizou seu primeiro bombardeio. Os alvos foram “infraestruturas usadas por grupos militantes apoiados pelo Irã no leste da Síria”, segundo o Pentágono.

A ação é considerada uma resposta aos recentes ataques de milícias iraquianas pró-Irã contra os Estados Unidos no Iraque. No entanto, não houve apoio nem mesmo entre parlamentares democratas.

O senador Tim Kaine, que, em 2016, concorreu a vice-presidente na chapa com Hillary Clinton, disse que "uma ação militar ofensiva sem a aprovação do Congresso não é constitucional quando não há circunstâncias extraordinárias".

O deputado democrata Ro Khanna, por sua vez, lembrou que Biden, agora, é o “sétimo presidente americano consecutivo a ordenar ataques no Oriente Médio”. Seu antecessor, Donald Trump, também realizou, em 2017, um bombardeio contra a Síria e, à época, foi criticado pela atual porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki.

"Qual é a autoridade legal para os ataques? Assad é um ditador brutal. Mas a Síria é um país soberano", escreveu Psaki no Twitter. Depois do bombardeio de Biden, a deputada democrata Ilhan Omar, que não concordou com a ação, resgatou a publicação em tom irônico: “Boa pergunta”.

O bombardeio foi, de fato, ilegal e violou a soberania da Síria. Biden pode ter, para alguns, um discurso bonito, de respeito aos direitos humanos, por exemplo. Não há, contudo, bombas do bem. Ele precisa ser criticado, assim como Trump foi e como será qualquer outro que cometer tais atos.

Aliás, Biden tem uma postura em política externa muito mais intervencionista do que Trump. Como senador e, posteriormente, vice de Barack Obama, o democrata apoiou a participação americana em vários conflitos no Oriente Médio.

Em um mundo com a China cada vez mais ativa, esta região não terá a mesma prioridade geopolítica para os Estados Unidos que teve no passado. Porém, o envolvimento americano no Oriente Médio nos últimos anos foi tanto que será impossível deixá-lo de lado.

O principal ponto desta relação é o acordo nuclear iraniano, que Trump abandonou. Biden quer retomá-lo, mas o Irã pede a retirada imediata das sanções. Se não houver uma decisão até o meio do ano, a situação pode se complicar.

O Irã terá eleições presidenciais. A linha mais moderada, que está no poder, quer negociar. A linha mais linha dura, que quer retomar o poder, tende a dificultar as negociações. Se esta última vencer, os rumos devem mudar.

A relação com a Arábia Saudita também é importante. Biden endureceu o tom com o príncipe herdeiro e líder de facto do país, Mohamed bin Salman – também conhecido pela sigla MBS –, diferentemente de Trump, que era muito próximo dele.

O governo americano simplesmente o excluiu dos contatos bilaterais e, agora, conversa diretamente com o rei Salman – pai de MBS –, mas que, aos 85 anos, já não tem mais as mesmas condições de antes para governar o país.

Biden quer mostrar, pelo menos no discurso, que se preocupa com os direitos humanos, sistematicamente violados na Arábia Saudita. Retirou os Estados Unidos da coalizão liderada pelos sauditas no conflito do Iêmen e divulgou um relatório sobre a morte do jornalista Jamal Khashoggi que prejudica MBS.

No final do governo Trump, os Estados Unidos intermediaram acordos que oficializaram relações diplomáticas entre Israel e quatro países árabes – Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos.

Com a Arábia Saudita, ainda não houve acordo – talvez esteja cedo para um movimento desse tamanho. Mas o governo saudita, que mantém diálogo com Israel nos bastidores, com certeza deu o aval para as negociações – até porque, entre os interesses, está a contenção do Irã, seu principal rival regional.

Embora Biden adote um postura mais dura do que Trump em relação à Arábia Saudita, nada indica que esses acordos – nem as estratégicas para conter o Irã – estejam em risco. Os sauditas, afinal, são parceiros estratégicos.

O presidente americano ainda não conversou com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, mas Israel também seguirá como um importante aliado americano no Oriente Médio.

Biden, em resumo, quer a volta do velho normal, ou seja, os Estados Unidos mais intervencionistas em assuntos mundiais – inclusive no Oriente Médio –, agora sem a imprevisibilidade de Trump. Nesse ponto, ninguém deve esperar grandes surpresas nos próximos quatro anos.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia e vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori). Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

 

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