coluna Giramundo

O lado certo da guerra da Síria, que completa dez anos neste 15 de março

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em 15 de abril de 2021
Com quase 400 mil mortos e 11 milhões de refugiados, o conflito sírio ainda não está totalmente resolvido | Foto: Christiaan Triebert/Flickr

Marcelo Mariano*

No início de 2017, fiz um trabalho voluntário com refugiados no Egito. Conheci um sírio, com quem conversei bastante sobre a vida em seu país. Em dado momento, ele me perguntou qual lado da guerra eu achava ser o certo, e não tive coragem de dizer.

Há exatos dez anos, no dia 15 de março de 2011, começava a guerra da Síria. Com quase 400 mil mortos e 11 milhões de refugiados, o conflito ainda não está totalmente resolvido. Será que, em meio a toda essa tragédia, existe mesmo um lado certo?

Eu achava que sim. Na verdade, tinha certeza que sim. A cada notícia que saía na imprensa, reforçava minhas convicções. Para mim, estava tudo muito claro. Até que um refugiado sírio perguntou a minha opinião.

É difícil dizer de quem esses 11 milhões de refugiados fugiram. De uma ditadura, acusada por organismos internacionais de cometer crimes contra a humanidade? De grupos da oposição, hoje em dia composta majoritariamente por terroristas, que perseguem qualquer um que não siga suas orientações extremistas? Ou um pouco de cada?

Eu sabia a cidade de origem do refugiado sírio que me fez a pergunta e, por isso, dava para imaginar o que o levou a deixar tudo para trás. No entanto, fiquei só na imaginação. Nunca o perguntei especificamente sobre isso. Afinal, a guerra, para quem a viu de perto, é um tema difícil, e esse não era o propósito do meu trabalho ali.

Não tive coragem de dar minha opinião porque, dependendo do que ele pensava, poderia criar um mal-estar. “E se ele for um defensor ferrenho do lado que eu acho errado?”, imaginei em menos de um segundo. Como brasileiro, distante da guerra, seria, no mínimo, uma grande indelicadeza.

Mas eu dei uma resposta. “Não existe lado certo”, afirmei com tanta convicção que também acreditei. A sua reação foi de espanto. Logo pensei que teria criado o mal-estar de qualquer jeito, já que ele deveria apoiar algum dos lados e certamente esperava uma resposta minha no mesmo sentido.

“Eu concordo com você”, disse o refugiado. O espanto, nesse momento, foi meu. “As pessoas”, ele continuou, “querem defender um lado ou outro, mas não veem que todos estão errados. Acho que nunca encontrei um estrangeiro que pensa como você”.

Ele estava coberto de razão. Em uma guerra como a da Síria, dificilmente há um lado certo. A tragédia é tão grande que é impossível apontar só um culpado. Aliás, existe, sim, um lado certo: a população civil, que se vê cercada por diferentes lados errados.

Eu aprendi a lição e mudei de opinião. Agora, sempre que analiso um conflito a partir do conforto da minha casa em Goiânia, lembro desse diálogo. E hoje, após dez anos de uma triste guerra, lembro desse diálogo também como homenagem àqueles que mais sofreram.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia e vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori). Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

 

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