coluna Giramundo

O dia em que eu quase fiquei encalhado no Canal de Suez

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em 29 de abril de 2021
Na última semana, o Canal de Suez, no Egito, ganhou as manchetes por conta de um navio que encalhou, travou o fluxo e segue causando um enorme prejuízo para o comércio internacional | Foto: Reprodução/Twitter

Marcelo Mariano*

As fronteiras sempre me fascinaram. Desde criança, quando trocava qualquer coisa para ler um atlas ou explorar o globo terrestre – meu brinquedo favorito.

Anos mais tarde, tive a oportunidade de cruzar algumas fronteiras. Mais do que passar de um país para outro, a melhor parte, para mim, é cruzar continentes.

Uma balsa do Marrocos, na África, para a Espanha, na Europa, via estreito de Gibraltar. Ou cruzar continentes sem sair do mesmo país, como em Istambul, na Turquia, onde passa o estreito de Bósforo, que separa a Ásia da Europa.

Na última semana, o Canal de Suez, no Egito, ganhou as manchetes por conta de um navio que encalhou, travou o fluxo e segue causando um enorme prejuízo para o comércio internacional.

O Canal de Suez é a fronteira entre África e Ásia. De todas as minhas travessias continentais, foi a mais tensa. A recompensa, por outro lado, fez valer a pena.

Eu estava no Cairo, a capital egípcia, e queria ir até Dahab, um paraíso no Mar Vermelho e ponto de partida para quem quer subir o Monte Sinai – não era o meu caso –, onde, segundo a tradição religiosa, Deus transmitiu os dez mandamentos para Moisés.

A viagem, de ônibus, teve problemas antes mesmo de começar. Não tinha comprado passagem com antecedência e, quando cheguei à estação, me informaram que os assentos estavam esgotados.

Eu não tinha outra opção de data para viajar. Tinha que ser naquele dia. Então, alguém na estação sugeriu pegar um ônibus, que saía um pouco mais tarde, para Sharm el-Sheik, outro paraíso – repleto de russos –, de onde poderia tomar um segundo transporte para Dahab.

Independentemente de o destino ser Dahab ou Sharkm el-Sheik, o trajeto passava pelo Canal de Suez e, consequentemente, cruzava a fronteira entre dois continentes. Era o que me animava para um dia inteiro dentro de um ônibus.

A questão é que essa região, a Península do Sinai – a parte asiática do Egito –, não é tão simples assim. Eu ia para o sul, mas, no norte, que é perto do túnel pelo qual eu passaria para cruzar o Canal de Suez, há grupos terroristas ativos, e o esquema de segurança é rigoroso.

No ônibus, eu e um amigo de Uberlândia éramos os únicos estrangeiros, com passaportes do Brasil, o que mais levanta suspeitas de falsificação porque, afinal, qualquer pessoa, de qualquer país, pode se passar por brasileiro.

Quando chegamos ao Canal de Suez, já de madrugada, um passageiro teve um ataque epilético. Eu nunca tinha presenciado esse tipo de situação e confesso que me assustei. Deu tudo certo, mas o clima ficou ainda mais tenso.

Na hora da revista, os policiais selecionaram alguns passageiros aleatoriamente, pegaram os documentos e mandaram descer com as bagagens. Eu e meu amigo, claro, estávamos no meio.

Com a cabeça para baixo e sem abrir a boca. Só podia se movimentar quando o policial pedisse para abrir a bagagem. Será que, ao meu lado, havia algum terrorista? Ou será que era dos brasileiros que eles desconfiavam?

De todas as minhas viagens, essa foi, de longe, a vez que mais senti medo. A sensação era de que algo estava prestes a dar errado. Mas, felizmente, não houve nada além das caras bravas dos policiais.

Ufa, não fiquei encalhado no Canal de Suez. Foi só um susto, um frio na barriga. Nada que tenha prejudicado o comércio internacional. E ainda bem que não dependi de uma escavadeira.

Já estava na Península do Sinai, palco de importantes guerras para a geopolítica do Oriente Médio – Israel chegou a anexar este território –, como em 1956 e 1967, duas ocasiões em que o Canal de Suez também ficou bloqueado.

Depois de uns dias em Dahab, hipnotizado com a água cristalina e a vista para as belas montanhas da Arábia Saudita do outro lado do Mar Vermelho, peguei um barco para a Jordânia. Meu destino final era Petra, uma das sete maravilhas do mundo.

No barco, um simples movimento com a cabeça alterava o país que estava diante dos meus olhos. Egito, Israel, Jordânia ou Arábia Saudita. Muitas fronteiras em pouco espaço. Aquela criança, viciada em atlas e globos terrestres, estava realizada.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia e vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori). Escreve sobre política internacional às segundas-feiras. 

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