Cidades

Ônibus têm nova bilhetagem, mas problemas são antigos na Grande Goiânia

Postado em: 20-01-2021 às 23h59
Modernização no sistema é importante, mas outras medidas são mais urgentes, aponta especialista | Foto: Wesley Costa

Maiara Dal Bosco

O transporte coletivo de Goiânia e Região Metropolitana vêm enfrentando diversos problemas agravados desde o início da pandemia. Atrasos, greves, superlotação são questões presentes no cotidiano de quem precisa utilizar o transporte público. É neste cenário que entrará em vigor no próximo sábado (23), o novo modelo de bilhetagem Sitpass na Capital e na Região Metropolitana. Apresentado pela Redemob, operadora da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos, o novo sistema trará mudanças como biometria facial, válida nesse primeiro momento para idosos, e a recarga de créditos no cartão a bordo dos veículos.

Por enquanto, de acordo com a Redemob, a migração para o novo sistema terá nível mínimo de impacto aos usuários, que não precisarão, por exemplo, trocar seus cartões atuais e nem realizar novo cadastro, já que, todos os 1,6 milhões de cartões continuarão a ser normalmente aceitos. A previsão é que, com a continuidade da implantação ao longo do primeiro semestre de 2021, o novo sistema conte com a adesão de novas formas de pagamento da passagem, como o pagamento via cartão de crédito, débito, QR Code e via conta corrente virtual, modelo de pagamento conhecido como pagamento passeado em conta (ABT).

Segundo o Diretor Executivo da Redemob Consórcio, Leomar Avelino, o setor de transporte coletivo necessita se adequar às necessidades operacionais e às expectativas dos clientes. “A tecnologia não para de evoluir e veio para somar nesta nova transformação. Com a implantação deste novo sistema abrimos possibilidade tecnológica para que o bilhete único venha a ser implantado em um futuro próximo”, destacou.

Neste sentido, Marcos Rothen, professor do Instituto Federal de Goiás e engenheiro de transportes, destaca que, apesar de o transporte público enfrentar outros problemas graves, a modernização que entrará em vigor no próximo sábado é significativa, já que o sistema de bilhetagem de Goiânia foi o primeiro a ser implantado e já estava desatualizado. “É uma evolução. O reconhecimento facial é fundamental, porque historicamente existe uma grande burla dos privilégios de passe escolar e passe livre para idosos. Essas fraudes prejudicam a todos, são contra todos os usuários que pagam as passagens, então quanto menos fraudes, melhor será para quem utiliza o transporte de forma correta”, ressaltou.

O sistema tecnológico a ser utilizado é nacional e a mudança deve impactar cerca de 500 mil pessoas, considerando uma movimentação fora do cenário de pandemia, que fazem uso diário do serviço, localizadas na Região Metropolitana. De acordo com Murilo Ulhôa, presidente da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), todo o investimento em tecnologia que melhore o acesso ao serviço e geração de dados é bem-vindo. “O transporte é essencial às cidades e o usuário precisa de facilidades para deslocar. A CMTC acompanhou todo esse processo e validou as ações por serem elas positivas ao sistema RMTC”, pontuou.

Soluções Imediatas

De acordo com Marcos, uma medida que auxiliaria muito o passageiro do transporte coletivo em Goiânia e na Região Metropolitana diante do caos enfrentado no transporte público atual, seria a possibilidade da realização de integração fora dos terminais. “A integração nos terminais demora muito, são minutos a mais acrescidos no trajeto dos passageiros”, destacou.

Para o engenheiro de transportes, outra solução seria o início de uma sustentabilidade financeira, ou seja, a busca de soluções de forma conjunta. “A Prefeitura de Goiânia e as prefeituras da Região Metropolitana devem buscar soluções para que o transporte não se acabe, cada um dentro do seu município, porém em conjunto. O mesmo sobre o transporte intermunicipal, que é de responsabilidade estadual”, pontuou.

Cobrança por distância

Mesmo diante das mudanças imediatas no sistema, a possível cobrança tarifária por distância, que vinha sendo discutida nos últimos dias a partir de proposta sugerida pela Prefeitura de Goiânia, de acordo com Leomar, a mesma ainda não será possível. “Esse novo sistema de bilhetagem possibilita políticas tarifárias diferenciadas, para tipo de dia, sazonais, por período operacional, por linha, mas no Brasil a gente ainda não tem uma solução de bilhetagem eletrônica que possibilita cobrar por distância, ou seja, pra cobrar por distância tem que ser outra funcionalidade, outro sistema”, afirmou em entrevista a uma televisão da Capital. (Especial para O Hoje) 

Falta de abrigos em pontos de ônibus refletem descaso 

Cerca de 54% dos pontos de parada de ônibus na Grande Goiânia não possuem abrigos. No total, são 6.777 pontos de embarque e desembarque e destes, 3.672 não possuem abrigo, de acordo com dados de levantamento da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), solicitados pelo jornal O Hoje no início deste ano. A Capital concentra a maior parte dos pontos de embarque e desembarque, com um total de 3.738.

Embora a última gestão da Prefeitura de Goiânia tenha investido R$ 1 milhão em 57 abrigos de pontos de parada de ônibus ao longo do corredor T-7, muitas pessoas ainda esperam o transporte coletivo ao relento, sobretudo nas áreas periféricas da Capital. Em outros locais, os abrigos ultrapassados podem oferecer riscos aos usuários, pois são feitos de concreto, antigos e podem estar com a estrutura danificada.

De acordo com uma deliberação da CMTC de 2018, abrigos e pontos de parada de ônibus têm sido sucateados ao longo do tempo devido à falta de manutenção. Documento da Câmara Deliberativa de Transportes Coletivos (CDTC) confirma que apesar da atribuição da gestão de infraestrutura do transporte coletivo ser da CMTC, o órgão não recebe recursos dos municípios para executar manutenção dos abrigos instalados ou promover edificação de novos abrigos.

Diante dessa justificativa, a CDTC deliberou pela falta de recursos por parte dos municípios, que sequer participam do quadro societário da CMTC, fica estabelecido que as administrações das cidades que integram a Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) passarão a ser responsáveis por promover a manutenção, realocação ou instalação de abrigos, quando necessário.

Esse problema reverbera a crise financeira do transporte público na Região Metropolitana da Capital enfrentada pelos empresários. Ela se instalou desde o início da pandemia em março de 2020. Segundo as entidades, houve uma queda brusca na renda das empresas e não conseguiram adequar os custos. O Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) entrou com uma ação para que os entes públicos pudessem entrar com aporte financeiro.

“A única solução no momento é a adesão dos municípios ao plano emergencial. As outras medidas possíveis como negociação de dívidas já foram feitas”, afirma Adriano Oliveira, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano e Passageiros da Região Metropolitana de Goiânia (SET). 

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