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Cultura
RESENHA
14/11/2017 | 06h00
De corpo, alma e religião
Com show que flerta com o jazz e homenageia o samba, Maria Rita se apresenta nesta terça (14) em Goiânia

Guilherme Araujo*


A completar 100 anos em 2017, o samba tem lá grandes expoentes no Brasil. É justamente sob esta tutela e com um sutil toque de tambores que o público da Fundição Progresso, no emblemático bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, recebe Maria Rita. A cena faz parte doaclamado álbum O Samba em Mim (Som Livre) que, apesar de ser seu último trabalho, partiu de uma ponte com o espetáculo Samba da Maria, que segue desde meados do ano passado cruzando os quatro cantos do País. Nesta terça-feira (14),essa celebração chega a Goiânia com uma apresentação que promete tirar o fôlego, no projeto Música no Campus, da Universidade Federal de Goiás (UFG). 

Mesmo que seu timbre de voz e a afinação – ambos impecáveis, diga-se de passagem – lembrem os de sua mãe, o ícone da MPB Elis Regina, a cantora dispensa comparações. Tamanho o legado de Elis, falecida em 1983 quando Maria Rita tinha apenas 4 anos de idade, hoje talvez seus esquivos se expliquem pela ideia de evitar eventuais caronas que possa ter pegado no sucesso da genitora – afirmações injustas, vistas a grandiosidade e a abrasividade que expressa–aqui sim, provavelmente,uma herança.

A proposta inicialmente era não lançar um disco de inéditas, apresentando um show baseado somente em voz e piano, para o público, como vinha fazendo há algum tempo para eventos menores. Em trabalhos anteriores, Maria Rita já havia criado pequenas apresentações que ganharam forma ao longo do tempo entre intervalo do grandioso Coração a Batucar. A turnê Samba Da Maria, trouxe à tona uma fase de introspecção e, refletindo uma aura intimista, tem como intuito reproduzir uma típica roda de samba, feito que consegue alcançar a largos passos.


Conexões

Ao recair em sambas como É Corpo, é Alma, é Religião, Cara Valente e Maria do Socorro, todos clássicos, o pecado de Maria Rita talvez resida escolha de repertório. Para os mais atentos, há ausência notável de grandes sucessos seus, como Encontros e Despedidas, um dos maiores sucessos da dramaturgia brasileira, eternizada pela trilha sonora da novela Senhora do Destino (Rede Globo, 2004). Em detrimento à proposta de inovação– fato explícito no repertório que engloba 21 faixas que transitam entre composições de nomes consagrados do samba e da MPB, como Arlindo Cruz e Jorge Aragão –, o lado bom é que o público pareceem nada sentir falta ou necessidade de revisitações frequentes. Mostra-se empolgado e interage, faixa após faixa.

É fazendo valer o que não prometeu, ao lado do multi-instrumentista Fred Camacho, dos percursionistas André Siqueira e Marcelinho Moreira, e do marido e guitarrista, Davi Moraes, que a artista faz o que sabe de melhor,promovendo um flerte com o jazz e indo além, numa mistura, sem medo, com influências do R&B. Trajada com um figurino de diva em alusão aos anos dourados do samba, que diz ser o ritmo que canta, mostra-se uma velha adepta daversatilidade, assumindo uma maneira muito própria de cantar e conduzir pela mão seus ouvintes. Leva despretensiosamente seu som por caminhos contemporâneos, e toma para si uma postura que a consolida como representante definitiva do ritmo.

Com arranjos ricos, apresenta fusões interessantes de estilos, como acontece em Coração a Batucar, de Davi Moraes e Alvinho Lancellotti. Como toda boa intérprete, um dos pontos altos e notáveis do show acontece quando Maria Rita invoca os versos de Meu Samba Sim Senhor e domina a plateia, pontuando uma participação ativa de seu público, fiel. Dona de uma viceralidade ímpar, o que se vê é um cenário sinestésico em que a energia, até para quem assiste o material da sala de casa, é carregada de riqueza de detalhes, como o elo que se cria entre banda e fãs.


Samba in Rio

Em O Samba em Mim, primeira faixa do disco ao vivo, entoa quase que autobiograficamente Eu Não Nasci no samba / Mas o Samba Nasceu em Mim. Paulista de nascimento, mas carioca de coração, a artista que começou a cantar profissionalmente aos 24 anos de idade diz, com frequência, não achar que seus inícios se deram tardiamente: “Você se achar no mundo é uma tarefa muito difícil”, explica. Viveu 16 anos fora do Brasil, período em que se formou em Comunicação Social na Universidade de Nova York. Sem deixar suas raízes de lado, seguiu estudando música paralela, e, despretensiosamente, imergindo em cenários tipicamente ‘de casa’.

Depois de tomar a decisão dos rumos que sua carreira seguiria, alcançou resultados invejáveis. Antes de lançar seu primeiro álbum, auto-intitulado, venceu o prêmio APCA, em 2002, como Revelação do Ano. Ao voltar à terra natal, há quem diga que não foi bem recebida. Nas primeiras apresentações que fez na TV, causou certo estranhamento – um reflexo de seu gosto musical apurado e das influências que absorveu nos anos que viveu no exterior.

No ano seguinte, Maria Rita superou a marca de 1 milhão de cópias vendidas no mundo todo, seguido pelo DVD, de mesmo título, sucesso absoluto em vendas em países como Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, Colômbia, Dinamarca, Equador, Finlândia, França, Inglaterra, Itália, Japão, Coréia, República Tcheca, México, Holanda, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça, Taiwan e Venezuela. Em um só ano, fechou mais de 160 shows – completamente esgotados.

Livre de julgamentos, atingiu parcelas cada vez maiores de ouvintes e alçou voos cada vez maiores em consonância ao êxito, pisando firme em palcos importantes do mundo como o Festival de Montreux, na Suíça, e o Coliseu de Lisboa. Terminou vencedora absoluta, com três prêmios Grammy Latino na estante, nas categorias Revelação do Ano, Melhor Álbum de MPB e Melhor Canção em Português.

No presente, ao abrir a roda do show Samba da Maria, resolveu incluir um material inédito, de autoria de Davi Moraes (marido), Fred Camacho e Marcelinho Moreira. Após dois anos de idas e vindas, a cantora resolveu liberar Cutuca, faixa que obteve sucesso imediato nas plataformas digitais, e que acabou entrando na trilha sonora da nova Pega Pega, trama já findada das 19h da TV Globo.

No setlist de seu CD e DVD gravados no Citibank Hall, em São Paulo – mas abortado por problemas técnicos –, Maria Rita dá vida à faixa, cantando sobre alguém decidido, sem paciência para brincadeira. A fim de comemorar os 15 anos de carreira no próximo ano, o plano agora é preparar um álbum de inéditas, com estreia prevista para o primeiro mês de 2018.

Para ela, o mundo não parece mesmo ser o bastante. Sob esta máxima, fez bonito ao ser um dos destaques da última edição do Rock in Rio, em casa. Na ocasião, subiu ao palco Sunset e colocou os mais de 90 mil presentes – para ver o astro americano Justin Timberlake, entediados com os constantes problemas no som – para dançar e se emocionar em um show que beirou a catarse. No repertório, um tributo aos americanas Ella Fitzgerald, Cole Porter e Gershwin, bem como o brasileiríssimo Tom Jobim. Aproveitando-se de um cenário que por si só fazia o acontecido ganhar ares leves, permeados pela brisa, o pôr do sol e de uma vibe que só uma parceria sua com MelodyGardot poderia propiciar.

Confortabilíssima, trouxe sucessos como Let’s do It, I’ve Got You Under my Skin, The Lady is a Tramp, They Can’t Take that Away From Me e Somewhere Over the Raimbow, e disse ter sido um desafio cantar um repertório como este: “Aprendi a cantar com Ella Fitzgerald, ouvindo na adolescência. Com a minha mãe, aprendi que esse instrumento muito técnico também emociona. São duas rainhas que eu carrego comigo”, disse a cantora no ato, encarnando a figura de diva, externalizada pelo figurino, mas presente em cada parte sua. 

*Guilherme Araujo é integrante do programa de estágio do jornal O HOJE


SERVIÇO

‘Música no Campus’ com Maria Rita

Quando: terça-feira (14 de novembro)

Onde: Centro de Cultura e Eventos do Campus II da UFG, Setor Itatiaia – Goiânia

Horário: 20h

Ingressos: R$ 30 (inteira) / R$ 15 (meia)

Mais informações: (62) 3521-1329 

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