Economia

Salvar vidas ou a economia? O falso dilema no qual se afunda o desgoverno

Postado em: 08-04-2021 às 07h45
Confira a coluna Econômica, por Lauro Veiga, desta Quinta-feira (8/4) | Foto: Reprodução

Lauro Veiga 

A combinação de políticas econômicas destinadas a socorrer as famílias mais vulneráveis e a preservar empresas e empregos com medidas sanitárias rigorosas contra o Sars-CoV-2 mostrou-se, ao longo do ano passado, a mais eficiente para evitar um desastre sanitário e econômico ainda mais severo. Ao escolher “políticas de distanciamento social, de garantia de equipamentos de saúde e medicamentos, e do uso adequado de máscaras” e ainda medidas de estímulo fiscal, os governos de 45 países conseguiram atenuar a recessão de forma importante, evitando uma calamidade ainda mais severa, mostram os economistas Rodrigo Toneto, Matias Cardomingoe Laura Carvalho, do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP).

A Nota de Política Econômica nº 009 do Made, sob o título “Salvando vidas e a economia: a importância dos gastos públicos na crise causada pela Covid-19”, aponta que o forte aumento das despesas dos governos contribuiu para que o tombo na economia fosse amenizado e, adicionalmente, permitiu que fossem adotadas medidas sanitárias adequadas, de forma a preservar vidas. “Marcado desde o início pelo falso dilema entre salvar vidas ou salvar a economia, o debate acerca da resposta mais adequada dos governos à crise sanitária avançou ao redor do mundo em direção a uma combinação entre políticas de saúde e medidas econômicas voltadas à preservação da renda das famílias e à sobrevivência das empresas”, sustenta o trabalho.

Genocídio programado

De fato, a oposição entre vidas e saúde, de um lado, e economia e empregos, de outro, foi construída para justificar políticas genocidas e camuflar a inapetência criminosa do desgoverno de plantão no País e de sua equipe econômica. O trabalho produzido por Toneto, Cardomingo e Carvalho sustenta, neste sentido, que o “potencial impacto negativo de curto prazo sobre o Produto Interno Bruto (PIB), resultado do necessário distanciamento social e restrições sobre a produção (diminuição da presença nos locais de trabalho), pôde ser mais do que compensado por uma política fiscal ativa e um comprometimento dos gestores públicos com políticas de saúde”. Claramente, uma escolha não exclui a outra. Antes, medidas sanitárias e na área da economia são complementares e imprescindíveis.

Balanço

Um dado jamais entendido pelo ministro Paulo Guedes, da Economia, e sua trupe está na relação direta entre o pagamento do auxílio emergencial às famílias e o apoio às empresas e o desempenho da economia, a própria arrecadação de impostos e seus efeitos sobre o endividamento do setor público.

Trabalho anterior do Made sugere que o PIB brasileiro poderia ter mergulhado numa queda de 8,4% a 14,8% em 2020 caso não houvesse o auxílio emergencial. O resultado desse tombo seria uma dívida pública líquida ainda mais elevada. A estimativa considera uma relação entre dívida líquida e PIB perto de três pontos de porcentagem mais alta. No ano passado, essa relação havia alcançado 62,7% e poderia estar, àquela altura, em quase 66,0%.

A nota mais recente, divulgada há pouco mais de uma semana pela equipe da USP, recorre a dados aferidos pelo Índice Semanal da atividade econômica da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e da plataforma Oxford Covid-19 Government Response Tracker (OxCGRT) para fazer suas projeções. E estima, por exemplo, que “aumentos de 1% do gasto público em relação ao PIB promoveram um aumento do índice semanal da atividade econômica da OCDE de entre 1,9% e 2,1% em relação ao seu valor inicial”.

Mais claramente, a cada R$ 100 de despesas realizadas a mais, a economia respondeu com uma geração de renda equivalente a R$ 190 ou R$ 210. De certa forma, o crescimento gerado acabou igualmente elevando a arrecadação de impostos ou impedindo uma retração mais vigorosa das receitas, o que compensou parcialmente o aumento nos gastos. “Em outros termos, podemos dizer que há uma elasticidade estímulo fiscal das previsões de crescimento de aproximadamente 2,1”, anota o trabalho.

Nos Estados Unidos, que acabam de anunciar um ambicioso pacote de US$ 4,0 trilhões para sustentar a atividade e reestruturar a economia, o trabalho mostra que “a adesão ao distanciamento também esteve diretamente relacionada ao recebimento de benefícios” pelas famílias e pelas empresas. Apenas a aprovação do CoronavirusAid, Relief, andEconomic Security Act(CARESAct) injetou US$ 2,0 trilhões na economia norte-americana no ano passado.

Toneto, Cardomingo e Carvalho mencionam ainda estudo da Consultoria Prospectiva, mostrando “uma relação positiva entre estímulos econômicos e atenuação da crise” para um conjunto de países da América Latina. Mas também “indica que países mais atingidos pela pandemia - com mais mortes por milhão de habitantes - tiveram seu desempenho econômico mais prejudicado”. Mais claramente, onde o combate à pandemia foi menos efetivo, as perdas econômicas e em vidas foram mais substanciais.

A prevalência do negacionismo no centro mesmo do poder e a ausência de medidas de compensação à altura do colapso desenhado para o primeiro semestre deste ano, afirmam eles, preocupam e tendem a determinar um “desempenho relativo pior (para a economia) em 2021”.

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