Quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Econômica

Investimento estrangeiro em abril atinge nível mais baixo em 15 anos

Postado em: 27-05-2020 às 06h00
Não só o investimento desabou, mas a taxa de rolagem da dívida, que mostra a capacidade de bancos, empresas privadas e públicas e do governo de adiar o pagamento de juros| Foto: Divulgação

Se o salto em março havia sido enganoso, conforme demonstrou esta coluna (28/04/20), o tombo do investimento estrangeiro no País em abril refletiu de forma mais próxima os efeitos de uma conjuntura interna e externa muito complicada em função do avanço continuado do Sars-Cov-2, o vírus causador da Covid-19, e das medidas adotadas em todo o mundo para tentar conter a contaminação e reduzir as mortes. Como antecipado, o agravamento da crise desde os primeiros sinais da chegada do vírus nas principais economias ocidentais e, na sequência, também no Brasil tem provocado uma fuga do risco e, consequentemente, uma corrida dos investidores para portos mais seguros – o que ajuda a explicar dois outros dados trazidos pela nota distribuída ontem pelo Banco Central (BC) sobre o comportamento das contas externas.

Não só o investimento desabou, mas a taxa de rolagem da dívida, que mostra a capacidade de bancos, empresas privadas e públicas e do governo de adiar o pagamento de juros e amortizações vencidas com a contratação de novos empréstimos externos, renovando aquelas obrigações e lançamento seu vencimento para meses à frente. Adicionalmente, o fluxo de capitais estrangeiros inverteu os sinais e passou a ser amplamente negativo, no mercado financeiro (excluídas as operações no setor interbancário e aquelas realizadas diretamente pelo BC).

O investimento estrangeiro direto no País despencou 96,21% entre março e abril deste ano, murchando de US$ 6,188 bilhões para apenas US$ 234,253 milhões. Considerando o movimento mensal dos investimentos vindos de fora, foi o pior resultado na série do BCdesde setembro de 2005, quando havia alcançado algo ao redor de US$ 95,0 milhões – ou seja, o mais baixo em quase uma década e meia. Na comparação com abril do ano passado, quando o BC havia registrado a entrada líquida de US$ 5,107 bilhões, houve um retrocesso de 95,41%. Nessa mesma comparação, o investimento em participação no capital (compra de ações de empresas brasileiras por multinacionais, por exemplo) caiu fortemente, com baixa de 94,35% (saindo de US$ 5,666 bilhões para US$ 320,032 milhões).

Fuga

O fluxo de entrada e saída de capital estrangeiro pelo mercado financeiro ficou negativo em US$ 7,434 bilhões em abril, acumulando um resultado negativo de US$ 18,725 bilhões entre janeiro e abril. Isso significa que empresas e grupos estrangeiros retiraram muito mais dólares do que trouxeram para o País naquele período. Para comparação, em abril do ano passado essa conta havia sido positiva em US$ 535,733 milhões, acumulando um saldo positivo de US$ 20,444 bilhões em valores aproximados (quer dizer, entre um quadrimestre e o outro, a inversão de sinais correspondeu a quase US$ 39,169 bilhões, o que reafirma o tamanho e a dramaticidade da crise). Não só os dólares fugiram, como a economia brasileira passou a enfrentar uma queda na chamada taxa de rolagem da dívida de longo prazo. Em abril, as empresas e bancos contrataram US$ 3,166 bilhões em novos empréstimos, mas tiveram que pagar US$ 6,516 bilhões em amortizações de empréstimos contratados no passado.

Balanço

·   Fechada a conta acima, os dólares que ingressaram no País sob a forma de novos empréstimos corresponderam a 48,6% das amortizações pagas, a mais baixa para o mês desde abril de 2005, quando havia atingido 45,1%. Em abril de 2019, essa taxa havia alcançado 67,8%.

·   A mudança no cenário externo tornou mais difícil a rolagem, mas no acumulado do primeiro quadrimestre as estatísticas do BC mostram uma folga relativa, explicada pelo que ocorreu antes da pandemia. Entre janeiro e abril, os ingressos somaram US$ 17,682 bilhões e representaram 28,7% mais do que o valor das amortizações (US$ 13,736 bilhões).

·   Na comparação com igual intervalo de 2019, vinha ocorrendo uma melhoria, interrompida pela crise. Nos quatro meses iniciais do ano passado, os ingressos chegaram a alcançar US$ 8,421 bilhões, correspondendo a praticamente 67% dos US$ 12,576 bilhões pagos em amortizações.

·   A piora no quadro externo, o que pode parecer paradoxal, veio acompanhado de uma melhora na conta de transações correntes do País. O paradoxo, no entanto, é mesmo só aparente. A melhora veio por conta de quedas nas importações de bens e serviços, da retração brutal nas viagens internacionais (o que reduziu o gasto de executivos e turistas brasileiros no exterior) e ainda de uma retração vigorosa na remessa de lucros e dividendos por empresas e investidores estrangeiros com operações aqui dentro (seja no lado real da economia, seja no mercado financeiro).

·   Mais claramente, essa melhoria decorreu precisamente da piora severa na economia doméstica. O saldo na conta de transações correntes (que inclui exportações e importações de bens e serviços em geral, como gastos com viagens internacionais, fretes, pagamento de royalties por uso de tecnologias importadas, aluguel de equipamentos, remessas de lucros e dividendos, entre outros) ficou positivo em US$ 3,840 bilhões – recorde mensal em toda a série de dados do BC.

·   No acumulado do primeiro quadrimestre, o déficit naquela conta baixou 29,94%, de US$ 16,953 bilhões para US$ 11,877 bilhões, muito embora o superávit comercial do País (exportações menos importações) tenha sofrido baixa de 24,09% (Para US$ 9,626 bilhões). A redução foi compensada com larga folga pela redução de 55,3% na conta das viagens internacionais no quadrimestre (depois de encolher 91,21% em abril).

·   As remessas de lucros e dividendos ficaram 99,8% menores em abril deste ano, desabando para US$ 4,319 milhões (US$ 2,250 bilhões no mesmo mês de 2019). No quadrimestre, a queda foi de 41,12%, para US$ 6,143 bilhões.

 

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