Quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Econômica

Indústria acumula um semestre de perdas, agravadas pela pandemia

Postado em: 04-06-2020 às 06h00
Indústrias de produtos alimentícios, limpeza e higiene pessoal e outros químicos, na contabilidade do Itaú BBA, respondem por metade do “erro” observado em abril| Foto: Divulgação

Três setores contribuíram mais intensamente para induzir os mercados a erro nas projeções distribuídas nas últimas semanas em relação ao desempenho da indústria em abril, o que não atenuou os resultados historicamente negativos colhidos naquele mês. E que ainda deixam um saldo pouco lisonjeiro para maio, quando se espera um desempenho ligeiramente melhor para o setor (e por ligeiramente melhor entenda-se alguma elevação em relação ao fundo do poço, aparentemente alcançado em abril, mas ainda com números negativos na comparação com maio de 2019).

Não por coincidência, foram precisamente os setores que conseguiram manter algum crescimento em meio à pandemia (e até por conta dela, ainda que esse tipo de afirmação possa parecer paradoxal). As indústrias de produtos alimentícios, limpeza e higiene pessoal e outros químicos, na contabilidade do Itaú BBA, respondem por metade do “erro” observado em abril, quando se considera uma previsão de retração de 33,1% para a produção frente ao mesmo mês do ano passado e o resultado enfim captado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em sua pesquisa mensal da produção industrial, que apontou retração de 27,2% nessa comparação – recorde negativo na série histórica do instituto, marcando seis meses, um semestre completo, de perdas no comparação com os mesmos meses do ano imediatamente anterior.

Em março e abril, observa ainda o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), “a pandemia de covid-19 já retirou da indústria mais de um quarto de sua atividade”, causando uma retração de 26,1%. Com as perdas realizadas até aqui, acrescenta o Iedi, a indústria perdeu em quatro meses “tudo aquilo que perdeu entre janeiro e dezembro de 2015, o pior ano da história recente do setor”. Nos dois casos, a retração alcançou 8,2%. Embora os números tenham superado as previsões muito mais pessimistas antecipadas pelo mercado, cujas previsões embutiam quedas desde 7,5% a 45,5% de março para abril, o tombo mensal de 18,8% não foi nada trivial e mostra que a indústria exigirá cuidados especiais para que se consiga alcançar alguma retomada mais sustentada, mesmo porque a produção já vinha se arrastando desde antes da chegada do Sars-CoV-2 no País. O tombo chegou a 27,2% em relação a abril de 2019, com recuo acumulado de 8,2% no primeiro quadrimestre deste ano. Na hipótese mais provável de uma duração da pandemia por um prazo muito mais longo do que o aguardado pelos mercados, a necessidade de retomar medidas de maior isolamento antecipa uma crise mais prolongada, por óbvio, sugerindo que suspiros de alívio ao longo dos próximos meses poderão não passar de meros suspiros mesmo.

Altos e baixos

O desempenho da produção, desagregado por setor de atividade, carrega algum alento (mas nem tanto assim) para a indústria em Goiás, centrada em alimentos, farmoquímicos e farmacêuticos, que anotaram crescimento respectivamente de 3,3% e de 6,6% de março para abril. Como contraponto, outros setores com participação relevante na estrutura industrial do Estado sofreram baixas severas, com perdas de 48,8% para couro e calçados, de 38,6% para a indústria têxtil e quedas ainda de 37,6%, de 37,5% e de 36,7% para os segmentos de bebidas, confecções de roupas e móveis. A indústria de veículos experimentou a pior retração, encolhendo 88,5% em relação a março, com redução ainda de 18,4% para o setor de petróleo, derivados e biocombustíveis.

Balanço

·   Na avaliação do Iedi, o “colapso” da produção industrial em abril teve a contribuição extremamente negativa das medidas de isolamento social adotadas desde a segunda quinzena de março, mas também da “queda acentuada das exportações de manufaturados, rupturas de cadeias de fornecedores e (do) quadro de elevado medo e incerteza, bloqueando decisões de investimento e de consumo de muitos bens industriais”.

·   Em volume, conforme dados do IBGE, as exportações em geral sofreram baixa de 2,9% na comparação entre o primeiro quadrimestre deste ano e o mesmo período do ano passado, com retração de 16,6% para as vendas externas de bens manufaturados.

·   A indústria de bens duráveis, mais dependente de crédito e ainda de alguma contribuição não desprezível da renda das famílias, tem sofrido mais intensamente os efeitos da crise, com perda de nada menos do que 85,0% em abril (frente ao mesmo mês de 2019). Os setores de automóveis e eletrodomésticos sofreram retrações de 99,9% e de 58,7% naquela mesma comparação.

·   Isoladamente, o tombo de 92,1% na produção de veículos em geral contribuiu com quase 35,0% para a queda na produção de toda a indústria. Portanto, qualquer “melhoria” em relação a um nível quase nulo de produção poderá trazer algum impulso para os resultados da indústria como um todo em maio – o que pode não significar muita coisa diante das dimensões do desastre.

·   Nas apostas delirantes do superministro dos mercados, senhor Paulo Guedes, o investimento privado deveria ser o grande responsável por trazer de volta o crescimento, provavelmente já no terceiro trimestre deste ano. Os números colhidos pelo IBGE mostram o tamanho desse desafio e colocam as ficções de Guedes na mesma categoria de devaneios de uma tarde primaveril no Palácio do Planalto.

·   A produção de bens de capital, categoria que inclui máquinas, equipamentos, caminhões e ônibus e bens destinados à fabricação de outros produtos industriais, sofreu baixa de 41,5% em abril, na comparação com março (quando havia sofrido queda de 15,5%). Em igual período, a produção de máquinas e equipamentos, de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e de outros equipamentos de transporte sofreram perdas de 30,8%, de 33,8% e de 76,3%, respectivamente. Apenas 9,6% de todos os produtos manufaturados pelo setor de bens de capital alcançaram algum crescimento em abril.

·   Na comparação com abril do ano passado, a produção de bens de capital desabou 52,5%, com a contribuição negativa de máquinas e equipamentos destinados à indústria (-41,5%), à agricultura (-34,5%, basicamente máquinas agrícolas), ao setor de transporte (-82,9%) e à construção civil (-34,2%).

 

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