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Esporte
Terror
03/02/2018 | 06h00
Em dia de clássico, torcidas aterrorizam
Moradores do entorno do Estádio Pedro Ludovico dizem que a realização de clássicos no local causa insegurança nas redondezas

Marcus Vinícius Beck*


Apesar de os três principais clubes do estado disputarem a segunda divisão do campeonato brasileiro, Goiânia divide-se entre adeptos de Vila Nova e Goiás, em dia de clássico. Tradicionais pontos de reunião, os bares ficam repleto de vilanovenses e esmeraldinos que bradam cânticos de apoio aos seus respectivos times do coração, que acabam assustando moradores nas imediações do Estádio Pedro Ludovico. Alguns, entre uma cerveja e outra, aproveitam para alfinetar o rival, o que às vezes provoca confusão. 

Nem mesmo a distância geográfica das torcidas impede que hajam brigas entre torcedores. Polir as calças com pódas arquibancadas ainda é unanimidade dentre a preferência dos aficionados. Mandante do confronto deste sábado, o Tigre da Vila Famosa chegou a cogitar a possibilidade de solicitar à Justiça a presença das duas torcidas. Contudo, ao ponderar que o estádio Serra Dourada está em reforma, a diretoria e comissão técnica do Vila recuou e achou melhor jogar com a presença apenas de seus torcedores. 

No dia 21 de janeiro, Goiás e Vila Nova duelaram no Estádio Olímpico com a presença da torcida esmeraldina, já que o mandante do jogo era o Goiás. Após a partida, um torcedor do Tigrão foi alvo de tiros disparados por um esmeraldino. Mas, após determinação do Ministério Público de Goiás (MP-GO), a partida entre Goiás e Vila Nova conta com a presença apenas da torcida do time detentor do mando de campo. Em julho do ano passado, um torcedor colorado morreu em confronto entre as torcidas.

Depois do incidente, por meio de ação civil pública, o promotor de Justiça do MP-GO, Sandro Halfeld, estabeleceu que os clássicos em 2018 seriam disputados com torcida única. No texto, a entidade recomenda que o estádio que receber a partida terá de ser setorizado, com local específico às duas torcidas organizadas. De acordo com o promotor, o clássico entre Goiás e Vila é “diferente” devido aos constantes conflitos entre as duas torcidas. 

Na época, a advogada do Vila Nova, Neliana Fraga, posicionou-se favorável à medida do MP. Segundo ela, o clima de tensão gerado pela briga entre torcedores no clássico do primeiro turno do campeonato brasileiro da Série B preocupa. A advogada disse que o clube não gostaria de disputar partidas com torcida única se não fosse a iminência constante de violência. 

Advogado esmeraldino, João Vicente Morais afirmou que a medida judicial iria preocupar o futebol dentro das quatro linhas. Ele disse que brigas entre torcedores rivais não são algo comum de se ver dentro dos estádios. 


Jogos

A reportagem de O Hoje foi às residências próximas ao Estádio Olímpico. Morador de um prédio em frente ao estádio, o músico Robson Oliveira Almeida, 34, relatou que em dia de clássico, milhares de torcedores passam gritando na rua do condomínio onde mora. De acordo com ele, que era frequentador assíduo de arquibancadas no tempo em que torcia para o Corinthians e morava em São Paulo, as torcidas organizadas servem para abrigar criminosos. “É possível enxergar no olhar das pessoas que elas são de má índole”, diz.

Natural de São Paulo, o músico era frequentador assíduo do Pacaembu, estádio em que o Corinthians mandou seus jogos por anos. A paixão pelo alvinegro, segundo ele, foi herdada de sua família. “Em casa, todos eram corintianos e tudo. Então, eu não tinha como trilhar outro caminho senão torcer pelo Timão. Porém, nos últimos anos, tornei-me meio descrente com o futebol, especialmente com as torcidas organizadas”, afirma, acrescentando: “É preciso de um esquema de segurança melhor”.

Em entrevista ao jornal O Hoje na segunda quinzena de janeiro, o representante do Batalhão de Eventos da Polícia Militar (PM-GO), major Arantes, disse que a PM trabalha para assegurar a segurança durante os clássicos. “Cada estádio de futebol possui suas particularidades, mas em princípio, a torcida única e a quantidade de ingressos vai ser reduzida no Estádio Olímpico”, afirma. “Dentro e fora do estádio ainda não vemos situações que possam causar algum problema, pois os jogos são de início de temporada”.

Já para o diretor de infraestrutura da Agetop, Itamir Campos, os jogos em ambos os estádios não oferecem riscos. “Não acredito que no Estádio Serra Dourada, ou Estádio Olímpico, sejam um melhor do que o outro em termos de segurança. Temos que adequar o policiamento à segurança”, diz. Na visão de Campos, o Estádio Olímpico é moderno e seguro, mas “não como o Serra Dourada”. “Se alguém quebrar alguma coisa no Olímpico é porque já foi com a intenção de baderna, e esse tipo de pessoa não deveria nem mesmo entrar no estádio”. 


Torcedores dizem que torcida única não diminuirá a violência 

Em dia de clássico, a tradição pede que rituais clubísticos sejam colocados em prática por torcedores. É normal encontrar gente com camisa de ídolos antigos dos times indo ao estádio. Mas, após a medida do MP-GO sobre torcida única, o espetáculo passou a contar com apenas simpatizantes do time mandante. A reportagem de O Hoje durante a última semana conversou com torcedores de estádio, e eles disseram que a determinação da Justiça não melhorará a segurança em dia de clássico. 

Vilanovense de coração, o garçom Carpinteiro Libanês, 23, que pediu que sua identidade fosse preservada, afirmou que o futebol perde quando não há presença das duas torcidas. De acordo com ele, que torce para o Tigre da Vila Famosa desde criança, a presença de apenas uma torcida no clássico o deixa “morno”. “E não vai diminuir os casos em que há violência. Quando quer brigar, o torcedor não pensar duas vezes e já sai de casa com vontade de arrumar confusão, marcando encontros nas redes sociais”, diz.

O administrador de empresa, Carlos Alberto, disse que a medida do MP, nem de longe, irá coibir casos de violência por parte de torcedores. Esmeraldino, ele afirmou que sempre vai ao estádio assistir jogos do Goiás. As torcidas organizadas, reconhece o motorista, tornaram-se abrigo para inúmeras atividades criminosas. “Concordo que as organizadas viraram algo perigoso nos últimos anos, mas também compreendo sua importância para o espetáculo. Sem elas, a partida fica pífia, morna e chata”, argumenta. 


Impacto na sociedade

Com surgimento na década de 1940, as torcidas organizadas começaram nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Em seu início, eram carnavalizadas e encontrar-se famílias nos estádios. No final da década de 1960, durante o governo do general Médici, o mais repressivo dos anos de chumbo, começou a surgir as organizadas tal como se conhece atualmente. Os atos de violência, que passaram a ilustrar as páginas policiais nos jornais, despontaram nas décadas de 1970 e 1980. 

Coordenador do Núcleo de Sociologia do futebol da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Maurício Murad explicou que o futebol exprime a visão geral da sociedade, pois é impossível desassociá-lo da violência que assola a sociedade como um todo. De acordo com ela, as torcidas organizadas em sua maioria não podem ser consideradas como um antro de marginais. “É importante frisar que dentro das organizadas algo em torno de 5% a 7% são perigosas. Mas é uma minoria perigosa”, diz.

Em entrevista ao instituto de pesquisa Universidade do Futebol, o sociólogo compara o aumento de ações violentas na realidade brasileira com o esporte mais popular do Brasil. Os torcedores, assevera ele, “vão parar nas páginas dos jornais e no horário nobre da televisão “depois de um ato de violência e acabam gostando disso”. (Marcus Vinícius Beck é estagiário do jornal O Hoje, sob orientação do editor de Cidades Rhudy Crysthian) 

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