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Mulheres
Negócios
08/03/2018 | 10h30
Empreendedorismo é coisa de mulher
Pesquisa revela que a taxa de mulheres que estão começando empreendimentos é maior que a dos homens, chegando a 15,4% para elas e a 12,6% para eles

Victor Lisita*

Empreender é uma aventura. É preciso coragem, vontade e uma boa dose de persistência. Um relatório da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) Women, divulgado em 2016, aponta que cerca de 160 milhões de mulheres iniciaram ou abriram novos negócios. Com um número tão significativo, não há como ignorar o impacto da presença das mulheres no empreendedorismo. 

No Brasil, este cenário é ainda mais forte do que a média mundial, o que deixa a presença da nação em destaque em um seleto grupo de cinco países pesquisados, onde há equilíbrio entre os empreendedores de ambos os gêneros. Uma pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), revelou que a taxa de mulheres que estão começando empreendimentos é maior que a dos homens, chegando a 15,4% para elas e a 12,6% para eles. 

O GEM, no entanto, divide as motivações em dois grandes grupos: a necessidade e a oportunidade. Em terras brasileiras, as mulheres têm maior tendência em empreenderem por necessidade, enquanto os homens mais por oportunidade. Em um cenário de maior desemprego e um País onde 40% dos lares são chefiados por mulheres, faz sentido esse indicador.

Danila Guimarães

Cerca de 48% delas tomam a iniciativa porque precisam, enquanto apenas 37% dos homens o fazem pelo mesmo motivo. Foi o caso de Danila Guimarães, empresária no segmento de roupas multimarcas em Goiânia. Ela precisava se manter e então decidiu seguir a vontade de ter o próprio negócio. Hoje, é uma das empreendedoras mais conceituadas de Goiás. A empresária destaca a questão da idade como um receio crucial. “Algumas mulheres não encontram a motivação por se acharem velhas demais. Não é regra ter de começar a ‘vida’ aos 20 anos e não há necessidade de uma verba alta para abrir seu negócio”. Além disso, ela diz que o empoderamento da mulher nos últimos anos tem diminuído o preconceito delas exercerem cargos de liderança.

Ludmylla Damatta

A idealizadora da Rede Goiana da Mulher Empreendedora, a empresária Ludymilla Damatta, acredita que a baixa de postos de trabalho relacionada à crise está diretamente ligada com o quadro de empreendimento por necessidade. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do quarto trimestre de 2017 mostram que o índice de desemprego fechou o ano em 13,4% para as mulheres, contra 10,5% para os homens, o que representa 6,07 milhões de homens sem empregos e 6,24 milhões de mulheres.

“O empreendedorismo por necessidade deve aumentar justamente porque as pessoas precisam encontrar um emprego para se sustentar”, afirma Ludymilla ao apontar que haverá uma considerável elevação no número de trabalhadores na categoria de Microempreendedor Individual (MEI) nos próximos anos. De acordo com dados do Sebrae, o número de MEI superou os 7 milhões em 2017 e a estimativa é que chegue em 12 milhões em 2019. Os dados consideram ainda que cerca de 7,5 milhões de mulheres trabalham por conta própria no Brasil, sendo que 3,5 milhões atuam como microempreendedora.

A pesquisa do GEM também mostra que 40% das mulheres brasileiras que possuem o próprio empreendimento têm até 34 anos. No caso dos homens, a taxa cai para 36%. E por mais que possuam mais ensino, as mulheres continuam ganhando menos que os homens, sendo que 73% delas recebem até três salários mínimos e apenas 59% deles estão na mesma situação.

Dificuldades

Em contrapartida, Ludmylla afirma que a falta de preparação de algumas mulheres é motivo para que não continuem o próprio negócio. “Observamos que elas sentem falta do conhecimento pessoal para gerir”, alega. Ela acredita que a falta de segurança para arriscar é um fator determinante que explica o porquê das mulheres não empreenderem tanto. “Muitas vezes elas não têm apoio da família e partem para a iniciativa sozinhas”.

Ana Claudia Camargo

Dentre as dificuldades enfrentadas na hora de empreender, a proprietária do Instituto Health de Pós-Graduação (ITH), Ana Claudia Camargo, acredita que fazer a marca ser conhecida no mercado é uma das primeiras barreiras. “Quesitos burocráticos, como impostos e todas as regulamentações necessárias para a abertura da empresa fazem parte de uma carga alta para o pequeno empreendedor”, afirma. Ela destaca que a diferença de tratamento entre mulheres e homens também é um fator recorrente no momento de contratar prestadores de serviços. “É visto em nós uma fragilidade de conhecimento em algumas áreas, que antes eram destinadas a homens”.

Ainda segundo a GEM, entre 2003 e 2013, a atuação da mulher no campo do empreendedorismo passou de 24,8% para 28,7%. Por conta das lutas em busca de igualdade salarial e de tratamento estarem ganhando mais forças ao redor do mundo, Ludmylla diz que esse quadro ajuda a evidenciar que os trabalhos para os homens podem ser os mesmos das mulheres. “Não há motivos para diferenças. Os processos são os mesmos e a Rede de Mulheres facilita o entendimento dessa visão”.

Cenário

A proprietária da Festa com Ideia, Camilla Stival, aponta que a área também é um fator predominante que facilita ou dificulta na hora de abrir uma empresa. Segundo a GEM, quase metade das empreendedoras iniciantes atuam em apenas quatro atividades: cabeleireiros e tratamento de beleza, varejo de roupas e acessórios, serviços de comida, bufê e trabalhos domésticos.

De acordo com outra pesquisa organizada pela consultoria norte-americana McKinsey, lançada no dia 23 de fevereiro, aumenta em 21% as chances de determinada empresa conseguir desempenho financeiro acima da média quando são comandadas por mulheres. Ludmylla elenca algumas características, baseadas no livro Mulheres Lideram Melhor que os Homens, que conseguem explicar o porquê deste dado. “Muitas qualidades vem do feminino, que tanto a mulher quanto o homem possuem, como a capacidade de liderança, de agrupamento, multitarefas, colaboração com todos. Desenvolvendo tudo isso, nossa liderança torna-se mais sustentável”.

Camilla vê esse cenário de lucro como algo promissor para as mulheres. “É importante termos noção de que a imagem do homem no trabalho não é a única correta. A mulher está fazendo seu lugar. Mesmo que ainda seja vista como mãe e dona de casa, é importante que ela mesma saiba que pode ser mais”, destaca. Para Danila, o número das próximas pesquisas serão maiores, porque “quando se começa um trabalho e ele está relacionado com aquilo que você ama fazer, não há vontade de parar”.

Ana Claudia evidencia que a capacidade da mulher em lidar com várias funções ao mesmo tempo é o diferencial. “Não apenas no núcleo da família, mas também dentro da empresa. Consequentemente, isso a torna mais resiliente. À medida que um problema surge, a mulher o enfrenta, descobrindo meios, aprendendo e refazendo”, disse enquanto fazia compras e concedia a entrevista ao mesmo tempo. Segundo ela, os próximos anos, não apenas de sua empresa, mas do empreendedorismo da mulher como um todo, terão um cenário consideravelmente diferente de outras gerações. “Hoje a mulher é uma importante fonte de trabalho. Tendo mais contato com mulheres em cargos altos, as pessoas vão perceber que nós não somos tão frágeis”. Ela revela que o instituto de pós-graduação cresceu 900% no número de alunos em dois anos e meio de funcionamento e a maior parte do quadro de estudantes é composto por mulheres.

Iniciativa

Ludymilla Damatta observa que o medo é o maior obstáculo da mulher empreendedora. “A verdade é que não há outra maneira a não ser ir e fazer. Comece o quanto antes, porque uma coisa é certa, o tempo vai passar. O medo só será amenizado à medida que a caminhada for feita”. Camilla indica que é preciso começar com o que se tem maior afinidade. “Todo empreendimento terá alguma dificuldade e não existe motivação quando se faz algo que não gosta”, aponta.

Ana Claudia acredita que sonhos são perfeitamente possíveis de serem realizados, desde que exista força de vontade, resiliência e estudo do empreendimento. “O primeiro passo é determinar um plano de ação e avaliar o mercado. Sem o conhecimento da área, a mulher pode não conseguir manter o negócio”, explica. Já para Danila, o conhecimento popular de que as mulheres são inimigas ficou no passado. "A cada dia, mais empreendedoras são influências em outras vidas. É uma responsabilidade, não apenas minha, mas de todas que estão se destacando em qualquer tipo de atividade. Ver uma mulher tendo sucesso traz motivação e inspiração”.

A própria empresária Luiza Trajano, presidente do Magazine Luiza, é um exemplo do que a mulher é capaz. A partir de sua jornada, ela assumiu a empresa e a transformou em um dos maiores varejistas brasileiros. Em suas palestras, Luiza afirma que uma das razões do sucesso da holding é ver cada um dos funcionários como um empreendedor, além de tratar o cliente como o bem mais precioso.

“A verdade é que não precisamos construir. Devemos romper os paradigmas. Temos muitos pensamentos prontos e preconceitos antigos”, destaca Ludmylla, que também acredita que não é possível abrir mão da mulher que tem contribuído para a economia de uma forma geral, não apenas da casa ou com ela mesma. “É necessário desconstruir tudo o que está posto até hoje para que seja possível entender e entrar nesse novo mundo. Se ficarmos muito engessados às formas antigas, não conseguiremos abraçar o futuro”.

Camila, Luciana e Veruska

As empresárias Camila Moreira, Luciana Sousa Marques e Veruska Bettiol sabem que empreender é um desafio, mas também é uma grande satisfação quando se torna possível materializar o próprio negócio. Com isso em mente, elas abriram uma loja especializada em cafés, chás e doces com marca própria, com atuação no ramo desde novembro de 2016. “Ser mulher empreendedora é enfrentar a vida moderna agregando à rotina atividades de trabalho. Tanto no próprio negócio quanto como colaboradora em uma organização, é importante uma pitada generosa de empreendedorismo que é de forma simplificada, a disposição associada á capacidade de agir diante de projetos e negócios", afirma Luciana.

Para as sócias, ser mulher empreendedora é empoderar-se de sua vida pessoal e profissional, ao garantir independência financeira e de decisão sobre o próprio negócio e vida. “O sucesso pessoal e profissional requer alegria, determinação, força, otimismo, flexibilidade e coragem para correr e assumir riscos”, afirma Camila Moreira. De acordo com ela, a busca por formação e conhecimento qualificado fez a diferença. “Nós já participamos de cursos e palestras para nossa capacitação. O dia a dia de um microempreendedor é normalmente muito cheio de demandas, e precisávamos de ajuda externa para colocar os controles em dia”. 

Atualmente, a loja das empresárias conta com cinco funcionários contratados. Camila acredita que para empreender é preciso ter persistência e ninguém deve desistir. "Tem meses em que o faturamento pode não ser bom, surgem dívidas, mas não precisa ficar sofrendo com isso, é  preciso seguir em frente, pois tudo isso faz parte do negócio”.

*Victor Lisita é integrante do programa de estágio do jornal OHoje.com, sob supervisão de Naiara Gonçalves.

 Fotos: Arquivo Pessoal e Redes Sociais 

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