Política

Devassa na gestão de Iris vai criar nova crise

Postado em: 08-04-2021 às 08h40
Gestão passada não foi o paraíso vendido para a população e deixou uma herança de caos em matéria financeira e de obras inacabadas | Foto: Reprodução

José Luiz Bittencourt

A palavra que ninguém ousa pronunciar no noticiário sobre a turbulência política e administrativa na prefeitura de Goiânia está despontando aos poucos no falatório sobre a desventuras entre o MDB e Rogério Cruz. Primeiro, mencionou-se na cerimônia do adeus dos ex-secretários que uma auditoria estaria em andamento sobre contratos celebrados pelo ex-prefeito Iris Rezende com empreiteiras para a recuperação do asfalto de ruas e avenidas da capital. Depois, confirmou-se que os atos praticados nos últimos três da gestão de Iris passariam por uma revisão destinada a confirmar a sua correção e consolidação, quando necessária. Por último, veio a expressão que melhor define tudo o que está acontecendo no Paço Municipal: a gestão passada está sob devassa.

Devassa é o que geralmente governantes que sucedem adversários fazem quando recebem a administração. É uma experiência pela qual Iris nunca passou, como vítima ou alvo. Muitas vezes, Iris assumiu o governo do Estado e até a mesmo a prefeitura, em seus inúmeros mandatos, passando o pente fino na máquina herdada e não poupando seus antecessores. Ele fez devassas, mas ninguém jamais fez isso com ele.

Rogério Cruz já está trilhando esse caminho sem volta: assinou um decreto, determinando a “revisão e consolidação dos atos normativos legais e/ou infralegais publicados nos últimos 90 dias do ano de 2020, para avaliação de aderência aos compromissos da atual gestão”. A linguagem empolada não esconde o objetivo real a perseguir: ir fundo na gestão de Iris, vasculhando os escaninhos atrás de irregularidades, para o quê o decreto de Rogério Cruz abriu um amplo guarda-chuva ao recorrer à fórmula “atos normativos legais e/ou infralegais”.

O emprego do termo “infralegais” abre espaço para se investigue tudo e não só os três meses finais. Na missa de réquiem do MDB, no Hotel Alphapark, quando o grosso dos secretários indicados pelo partido pediu demissão, dois deles já tocaram no assunto. Um foi o ex-secretário de Planejamento Urbano Agenor Mariano, que fez a denúncia de perda de recursos superiores a R$ 330 milhões, relacionados a um empréstimo junto a Caixa Federal, por falta de utilização na finalidade prevista, qual seja o recapeamento de ruas e avenidas. Outro foi Euler Morais, afirmando que tem cabimento submeter um prefeito que nunca teve nada rejeitado pelos órgãos de controle, como Iris, a um escrutínio das suas decisões, como estava anunciado que seria feito quanto aos contratos para o reasfaltamento de Goiânia.

Rotina, nada mais do que rotina, respondeu Rogério Cruz disfarçando a operação inquisitória que já começou. E nem é novidade: desde os primeiros dias atual mandato, os corredores do Paço Municipal inflamam-se com conversinhas sobre malfeitos ou no mínimo incongruências e incorreções que passaram da administração passada para essa. E, anotem aí, leitoras e leitores: os secretários emedebistas, que agora arvoram-se em defensores da honra e da pureza de Iris, também levantavam e estimulavam essa fofoca, prenunciando fatos graves que vêm por aí.

O ex-prefeito está longe de ter feito “a melhor administração da sua vida” nessa última passagem pela prefeitura de Goiânia. O velho cacique deixou um caos em matéria de logística de obras inacabadas e de falta de dinheiro para a sua conclusão. Entre médias e grandes, são 89 viadutos, duplicações, extensões e construções diversas, inclusive alguns dos tão necessários CMEIs, tudo com menos de 50% do cronograma executado, em alguns casos pouco mais do que os projetos de engenharia. Os tais R$ 1,2 bilhão de reais que repetiu ter entregue em caixa também fazem parte dessa ficção que enganou todos os candidatos a prefeito, induzidos sem exceção a embarcar na promessa de dar continuidade a algo que mais se assemelha a um reino de fantasia.

Iris está em silêncio. Não à toa, porque é difícil justificar o que ele fez, depois de apregoar o contrário. Porém, está levando tanto tapa na cara que logo virá a público para tentar explicar e, claro, responder com a melhor estratégia, que será lançar fogo contra Rogério Cruz, instalando uma guerra de narrativas na imprensa. O prefeito já avisou que, doa a quem doer, as investigações prosseguirão. Sobre a suspensão dos contratos de asfalto, foi até objetivo: “Onde existirem dúvidas e suspeitas, nós vamos investigar, no meu governo não aceito corrupção, não posso ignorar uma suspeita levantada por quase metade da Câmara de Vereadores, sobre um contrato de asfalto”. Mais claro, impossível.

Obra de reasfaltamento em Goiânia é caixa preta que precisa ser aberta

Os 628,5 quilômetros de ruas e avenidas de Goiânia que começaram a ser recuperados na gestão de Iris Rezende, com base em um financiamento parcelado de mais de R$ 700 milhões de reais, menos de 30% utilizados, ainda vai render muita polêmica. 

A CEI proposta na Câmara Municipal pelo vereador Santana Gomes acendeu o rastilho das desconfianças sobre o maior contrato para a execução de uma obra pública em Goiás, no momento. 

Para começo de conversa, ninguém sabe quem escolheu as ruas e avenidas que foram recuperadas até agora. Trechos notoriamente em péssimas condições ficaram para trás, priorizando-se outros que até poderiam ser considerados passáveis e foram restaurados. 

A definição do preço é outra dúvida. O recapeamento não é o mesmo em cada via, há as que demandam pouco serviço e algum asfalto e as que, piores, exigem muito mais. Onde estão os estudos mostrando que essa peculiaridade foi atendida pelo projeto e quanto foi pago por cada metro quadrado? Foi feita a necessária diferenciação entre recapeamento e reconstrução? 

Trechos de ruas e avenidas que foram beneficiados não resistiram às primeiras chuvas, sugerindo serviço malfeito e não fiscalizado. Foram feitos os pagamentos? Onde estão os laudos técnicos? As dúvidas, como se vê, são inúmeras. Mas a busca de resposta através de uma auditoria vai levar a uma crise entre Iris e Rogério Cruz como nunca se viu. E será um milagre se não aparecer nada de errado. (Especial para O Hoje) 

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