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Ser do bem

ONG disponibiliza livros didáticos para comunidade

Postado em: 11-07-2019 às 20h35
Organização Não Governamental necessita de ajuda para fortalecer bairro periférico de Goiânia com projetos de cidadania

Igor Caldas

O líder comunitário Lindomar Rodrigues Soares é um exemplo de como a força da união pode causar mudanças verdadeiras na sociedade. Ele transformou sua casa, no Setor Buena Vista IV, na sede de uma Organização Não Governamental cujo principal objetivo é a evolução social de sua comunidade. Lindomar está transformando todos os cômodos de sua casa em futuras salas de aula e consultórios médicos para atender a população carente do bairro onde mora. Enquanto isso, ele vive com sua família em um quarto que improvisou dentro da sua cozinha.

“A idealização da ONG sempre foi a evolução social da comunidade. O idealista do projeto sou eu mas sempre tem pessoas que me ajudam. Viemos para cá e como eu vi que é um setor muito carente em tudo, principalmente em lazer, escola, segurança. Então resolvi correr atrás do que é o básico, que é cidadania. Que é um direito nosso e um dever também. Através disso estou desenvolvendo algumas atividades.

O Projeto Associação Popular do Setor Buena Vista (PROAP) clama por ajuda para construir a cidadania. Esta semana, os gritos por socorro da comunidade foram ouvidos e atendidos por meio da doação de mais de uma tonelada de livros, CDs e DVDs  à ONG. Porém, muita coisa ainda precisa ser feita para que a construção das instalações seja concluída. A necessidade mais urgente da PROAP é terminar as salas da ONG que estão em fase de acabamento.

“A principal necessidade nossa é o término das salas. Eu preciso de material de construção e até dinheiro mesmo. As salas já estão quase prontas, estão em fase de acabamento que é a parte mais cara de fazer. Nós que não temos salário fixo fica difícil. Tem vezes que eu tiro o de comprar alguma coisa a mais para dentro de casa para acelerar a construção das casas”, afirma o fundador da ONG, que também é presidente da associação do bairro Buena Vista IV. Ele sobrevive trabalhando de forma autônoma como serralheiro.

Lindomar ainda afirma que é exigente quanto a qualidade do material que deve ser usado para concluir as instalações da ONG. “Não é porque a gente mora em um lugar simples que temos que agir de uma maneira diferente. Toda semana o bairro está no jornal com notícias de violência. Porque estamos no jornal com as coisas positivas? Porque não mostramos o que é positivo na nossa comunidade? Aqui tem problemas iguais a toda periferia, mas também tem pessoas humildes que nunca foram assistidas, inclusive passando por necessidade”.

Doação

O material didático doado para a Organização Não Governamental fez parte de uma gincana ambiental promovida em dois canteiros de obras da Capital. Além de despertar para conscientização sobre a importância da reciclagem ajudou crianças atendidas no projeto educativo da PPROAP no bairro Buena Vista IV. Durante um mês, 22 colaboradores do Grupo Toctao que trabalham em canteiros de obras competiram entre si para ver quem levava mais material reciclável de casa para a obra.

Ao final desse período, foram arrecadados quase duas toneladas de materiais reciclados. No entanto, mais de 80% de todo o volume é composto por livros, apostilas, revistas, CDs e DVDs, ainda em condições de uso. Lindomar acredita que mais parceiros como esses devam surgir para ajudar na batalha que trava para construir a cidadania dentro de sua comunidade.

Aposta na coletividade

“Pra mim, a prioridade é a comunidade. Se o coletivo estiver bem, eu estou bem. Se eu tiver que morar debaixo de lona de novo, mas ficar bom para todo mundo. Vai estar bom para mim. Não temos nenhum apoiador financeiro, estamos com dificuldades por isso estamos pedindo ajuda. Os livros doados vão alfabetizar muita gente, mas precisamos desenvolver e começar a achar mais parceiros para nos ajudar”, afirma Lindomar.

A PROAP desenvolve várias atividades no bairro. Dentre elas estão a alfabetização de crianças, adultos e idosos; o desenvolvimento educativo de jovens através de uma escolinha de futebol e a realização de palestras sobre cidadania para as famílias que vivem no Bela Vista IV. No entanto, Lindomar tem planos para crescer e conseguir atender todas as 5 mil famílias do setor com uma diversidade de projetos. Até mesmo em atividades corriqueiras, que podem parecer fáceis para quem mora nas regiões centrais e são dificultosas na periferia.

“Queremos montar um xerox com preço bem acessível porque aqui é bem difícil. E vamos desenvolver outras atividades por meio de parcerias aqui dentro. Escola de digitação e informática, médicos para atender a comunidade, atendimento odontológico. Precisamos de toda ajuda possível, inclusive com ideias. Tenho certeza que vão aparecer mais pessoas com ideias boas para nós desenvolvermos juntos”.

 

Organização da comunidade tirou famílias de barracos 

A luta de Lindomar Rodrigues Soares pelo crescimento da comunidade da qual faz parte não nasceu no Setor Buena Vista IV. Por meio do registro de fotografias, ele mostrou à reportagem como sua batalha trouxe os louros da vitória para muitas famílias que fazem parte do seu convívio diário no bairro. O nascimento e crescimento do setor tem ligações estreitas com a história da ONG.

“Antes, nós morávamos em barracos de madeirite na favela João Leite. Nós enfrentávamos muitas dificuldades por sermos considerados como malandros e bandidos, por causa do estereótipo do favelado. Daí, nós idealizamos a criação de uma ONG que nos fortalecesse como comunidade. Formalizamos isso em 2008 e começamos a correr atrás de nossas casas também. Tivemos muita luta para consegui-las, Inclusive com radicalização. Já invadimos a prefeitura pelas nossas reivindicações. Deu resultado, conseguimos. Eu mesmo que entreguei os endereços”, lembra Lindomar.

Ele diz que o grupo conseguiu evadir a favela para 68 moradias no bairro Bela Vista IV, incluindo a dele que é sede da ONG. “Nós fomos reconhecidos porque tínhamos documento, nos organizamos e exigimos nosso direito. Há nove anos, quando nós chegamos aqui no bairro, moravam apenas 31 famílias. Hoje, são 5 mil. Nós vamos conseguir levar a cidadania à todas elas”.

Sandra de Brito faz parte de uma das famílias que conseguiram sair dos barracos de madeirite para uma casa do bairro há nove anos. Com um sorriso estampado no rosto, ela olha para frente e sabe que ainda tem muito a construir no lugar onde conquistou o direito de chamar de lar. “Não quero sair daqui nunca mais. Agora, começa mais uma luta para melhorar a situação do bairro, da comunidade e da minha casa”, afirma Sandra.

 

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