domingo, 20 de setembro de 2026
Essência

Chandler critica ícones da literatura policial

Correspondência foi publicada na nova edição de ‘Adeus, Minha Querida’

Redaçãopor em

“Como uma história de crime honesta, no sentido de que faz com o leitor um jogo limpo, e de que a motivação e os mecanismos do crime são sólidos – é uma fraude. O conceito do livro, especialmente, me incomodou”. Foi assim que, em carta ao colega escritor George Harmon Coxe (1901-1984), enviada em 27 de junho de 1940, Raymond Chandler (1888-1959) definiu o livro O Caso dos Dez Negrinhos, da britânica Agatha Christie (1890-1976). 

Além da falta de pudores em criticar um dos maiores ícones da literatura policial, a missiva expõe uma das características mais marcantes do autor: a busca pela coerência nas histórias que escrevia. Chandler desprezava os cronogramas, fluxogramas e cruzamentos de álibis dos clássicos do gênero. Philip Marlowe, detetive que narra e protagoniza sete de seus livros, não era cerebral como um Sherlock. 

Braulio Tavares, responsável por traduzir, organizar e apresentar os livros de Chandler para a Alfaguara, diz que o autor preferia os “melodramas da pulp fiction”: “No romance policial clássico, tudo acontece como numa partida de xadrez. Há uma coreografia de comportamentos a serem cumpridos pelos personagens. É como numa dança, onde só conta o desenho dos passos a serem executados, não importa quem é o dançarino”.

O paraibano Tavares, conhecido por publicar obras de ficção científica como A Espinha Dorsal da Memória: Mundo Fantasmo, continua: “Os enredos de autores como Agatha Christie, John Dickson Carr, S. S. Van Dine e outros que ele ironiza eram barrocos e de sagacidade extraordinária, mas só podiam ser bem amarrados se criminosos, suspeitos, testemunhas, investigadores etc. se comportassem de uma maneira artificial. Para Chandler, isso era falsificar o personagem, transformá-lo em boneco”.

A correspondência faz parte do apêndice do romance Adeus, Minha Querida, que a editora lançou no fim de janeiro. No livro, Marlowe busca a namorada de um ex-presidiário brigão. Para achar Velma, ele enfrenta uma fauna de pequenos criminosos, charlatães e mafiosos de toda sorte. Tavares explica que, junto a outros autores, Chandler “trouxe o romance policial para a rua”. “Era outro tipo de crime, outro tipo de detetive. Era o mesmo ambiente sórdido das grandes cidades dos EUA, o mesmo onde circulavam os leitores das revistas. Não tinha nada a ver com crimes nas “casas de campo no Devonshire inglês”. Chandler recusou essa fórmula, aderiu à escola hardboiled e lhe deu ressonâncias humanas sem perder o prazer do melodrama policial”, resume.

A publicação se segue às novas traduções de A Dama do Lago, O Longo Adeus e O Sono Eterno. Novas versões para A Irmãzinha e A Janela Alta também estão nos planos.

Em uma série de cartas, que vão de 1939 a 1954, Chandler explica a gênese de algumas de suas obras e conversa com seus pares sobre os diversos veios do mercado literário. Espezinha críticos, editores e até desenhistas responsáveis pelas capas de suas obras. “Se o seu ilustrador tivesse se dado ao trabalho de ler apenas algumas linhas do alto da página 144 do livro, ele não teria colocado a si mesmo num papel tão ridículo, nem a mim”, reclama em uma carta enviada em maio de 1951 a um executivo da Pocket Books. 

Em outro momento, faz previsões sobre a própria obra. Diz, em 1949, que Adeus, Minha Querida seria considerado o seu melhor livro. A Janela Alta, o pior. A projeção não se confirmou, já que a crítica literária considera O Longo Adeus, de 1953, o livro onde o autor atingiu a maturidade estilística. (Agência O Globo)

 

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