domingo, 18 de outubro de 2026
Essência

Vista essa ideia

A camiseta nasceu como roupa de baixo, mas ganhou corações e mentes ao propagar ideologias e estilos de vida

Redação O Hojepor em
Vista essa ideia
A camiseta nasceu como roupa de baixo

Júnior Bueno

A camiseta não apareceu das aspirações de alguma época ou de ideias revolucionárias de algum estilista. Feita, em princípio para simplesmente não aparecer, era usada como roupa de baixo para proteger as camisas do desgaste e das inconveniências da transpiração, além de servir co­mo uma proteção para enfrentar dias de temperaturas menores com as roupas tradicionais.

No Brasil, na época da colonização, a camiseta começou sua trajetória conhecida como “coisa de português”. Os colonizadores, ao chegarem ao País e se depararem com nosso clima de temperaturas bem diferentes das europeias, se viram obrigados a tirar todas as suas roupas pesadas e exibirem apenas suas roupas de baixo – sim, as próprias. Mas, apesar de demorar a ter status de roupa de sair, a camiseta é mais antiga na história que se possa imaginar. 

Os romanos usavam uma túnica dupla, chamada camisia, que é a ancestral das nossas camisetas. Era sempre branca, feita quase sempre de linho. Era usada por baixo da única para proteger da transpiração. No século 4, a camisia continuava a ser usada por baixo das peças em Constantinopla. Os tecidos das peças superiores eram muito ricos, bordados com ouro, prata e pedras preciosas, e por isso não dava para lavá-los. A camisia era usada por baixo dessas peças nobres para evitar que se sujassem. 

Em 1516, o italiano Michelangelo termina a estátua O Escravo Moribundo, que retrata um homem vestido apenas com uma peça de roupa, bem diferente das usadas na época: uma camiseta regata. Apesar da ousadia, a moda não pegou. Em meados do século 19, as roupas das crianças começam a ficar mais infantis, em vez de serem reproduções das dos adultos em miniatura. A camisia era a única vestimenta até os 5 ou 6 anos. Era usada também para batizar as crianças. 

Até início do século 20, a camiseta, ainda restrita à Europa, é usada como roupa de baixo, para proteger os homens da transpiração e do frio. Para não rasgar as camisas, os trabalhadores braçais usam só a camiseta para trabalhar. Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados europeus usam, por baixo dos uniformes, confortáveis camisetas feitas de algodão. Os americanos, morrendo de calor em seus uniformes de lã, adoraram a novidade e a levaram para os Estados Unidos. O design em formato de ‘T’ leva a peça a ficar conhecida como T-shirt – em inglês. 

A camiseta é peça-chave no uniforme da Marinha e do Exército Americano, na Segunda Guerra Mundial. Ainda era considerada roupa de baixo, mas o público acostumou-se a ver, nas revistas, fotos dos soldados com camiseta, sem camisa por cima, ao fazerem trabalhos pesados ou em lugares quentes. Candidato à presidência dos Estados Unidos, Thomas E. Dewey fez uma das primeiras camisetas de propaganda da história, com os dizeres Dew it for Dewey. 

Marlon Brando apareceu de camiseta no filme Uma Rua Chamada Pecado. A peça é o destaque perfeito para os músculos do ator. A partir dessa época, a camiseta sem camisa por cima passou a fazer parte da indumentária das pessoas também na vida civil. Na trilha aberta por Brando, James Dean apareceu de camiseta em Juventude Transviada. Camiseta vira sinônimo de rebeldia e contestação. As crianças continuaram usando a camiseta por baixo da roupa, pois não era considerado adequado ficarem “em mangas de camisa”. 

Na esteira dos movimentos antiguerra e a favor da liberdade, a camiseta vestiu as cores psicodélicas dos hippies e passou a trazer mensagens pacifistas, na linha de Faça Amor, Não Faça Guerra, nos anos 60. Nessa época, as mulheres também passaram a usar a peça, que se tornou unissex, e, nos 70, as camisetas eram usadas tanto como meio de expressão dos anseios da juventude quanto como suporte para propaganda, carregando símbolos de marcas de refrigerante.

Já na década seguinte, a era dos yuppies, jovens ligados ao consumismo e ao individualismo, a moda passa a ser ostentação de dinheiro e poder, e a camiseta começa a trazer bem grande as marcas das grifes. A falta de ideologia dos jovens dos anos 90 apareceu nas roupas largas e largadas dos grunges. A camiseta passou a ser usada por qualquer segmento da sociedade, sem comprometimento com causas, ideologias ou fai­xa etária. 

Atualmente, não existem regras. A customização é a palavra de ordem. A camiseta continua democrática e servindo a todos os gostos, desde as campanhas políticas à estampa de filmes e grupos musicais preferidos. A pedida, agora, é comprar em sites especializados em cultura pop, sempre segmentados. Sites como Chico Rei e Reverbcity possuem peças sobre filmes, bandas e séries. A ThinkGeek, gringa, pode vestir o nerd que há em você. 

E a Poeme-se é especialista em camisetas com referências literárias. Para quem ama ler e quer declarar essa paixão ao mundo, são muitas as referências a obras clássicas, autores e frases marcantes de livros. Para comemorar cinco anos de criação, a marca lançou uma coleção chamada Levo Meu Poeta no Peito, com o desenho de cinco escritores consagrados da língua potuguesa: Aluísio de Abreu, Eça de Queirós, José de Alencar, Lima Barreto e Martins Pena. 

 

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